Lis e a Boneca viajante

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Há dois anos atrás, li um livro lindo chamado Kafka e a boneca viajante.
Quando Lis fez 3 anos, ganhou uma boneca enorme de uma madrinha muito querida, que havia feito crescer meu marido e seus irmãos e tem carinho de mãe por ele e de avó por Lis.
Ela tinha um amor infinito pela boneca, tão grande quanto a própria, que mal cabia em seus bracinhos roliços.
Pois eis que um dia, sem aviso, a boneca sumiu…. Sumiu sem pistas, sem deixar rastro. E deixou pra traz uma perda sentida e escavada como buraco fundo no peito de minha menina.
Meu primeiro impulso, guiada pelo instinto de proteção materno, foi correr à primeira loja e comprar outra boneca igualzinha, outra “Juliana”, como a tinha batizado. Mas não o fiz, talvez por achar que o gesto banalizaria aquele grande amor, talvez por que permitir a falta e a dor as vezes é necessário, talvez para amadurecer em mim mesma a perda da Juliana e a necessidade do consolo.
Eis que meses se passaram e escrevi a primeira carta para Lis. Juliana havia saído para conhecer o mundo, e dizia que voltaria quando Lis estivesse preparada para tê-la novamente. Dizia que havia conhecido muitos lugares e pessoas diferentes, que lhe tinha um amor enorme e que nunca a esqueceria. Lis olhou para a rua em frente de casa com os olhos compridos, como se quisesse alcançar em pensamento os passos da boneca andante, guardou a saudade no bolso da alma, e seguiu seus dias lapidando seu entendimento do mundo, das buscas, dos encontros e desencontros.
No livro de Kafka, a boneca viajante não volta mais. Passado algum tempo ela se despede por carta da menina e as duas se permitem viver suas perdas e ganhos.
Por aqui, passados quase 2 anos, Juliana decidiu voltar. Há 15 dias atrás, recebemos uma carta da boneca, que estava na Itália e dizia estar se aproximando a hora do reencontro. Lis não se conteve em seu entusiasmo, e passou a esperar, dia após dia, o momento de rever aquele tão grande amor.
Dilema de mãe que inventa moda e estória, chegada a hora do retorno, não achei a boneca em loja nenhuma!
Pensei então em como havia crescido minha pequena menina, em seus olhinhos brilhantes e curiosos a desbravar o mundo e na longa viagem que ela mesma havia feito desde o dia em que chegara às nossas vidas. Assim como Lis, a boneca Juliana haveria também de tornar-se uma boneca crescida. Era preciso haver perda, para abrir caminho ao novo, ao reencontro, ao desejo de escrever sua propria história.
Achei então uma boneca enorme, mas não mais bebê, agora, menina. De vestido, sapato, cabelos longos e franja a caber no pente e nos laços dos quais Lis tanto gosta…
Bateu na porta de casa em um domingo a tarde, trazendo na mala fotos, lembranças, presentes e um anseio enorme de tornar-se menina de verdade para caber inteira no abraço e no coração da Lis. Na última carta contava que também ela havia crescido, nesses dois anos de distância e que ainda assim poderiam se reconhecer e voltar a ser amigas, a menina e a boneca perdida.
Não sei o que ficará  disso na vida de minha menina. Sei que em minha vida, a espera e a fantasia foram o remédio que encontrei para a dor sentida no peito alheio. Sei que aquela boneca jamais voltará, e aquela menina de 3 anos também não, mas sei também que quando a gente tenta escrever nossa própria história com esperança e vontade de viver, a vida nos devolve todo o amor que entregamos a ela. Esse amor vira bagagem e divide espaço com a saudade, a lembrança, a sabedoria, a serenidade, e tudo aquilo que cabe em um coração que se permite caminhar pela vida com passos de coragem.
Hoje antes de ir pra escola, Lis colocou um vestido de princesa na boneca e fez uma trança comprida em seus cabelos. Me perguntou se a noite, depois que todos dormirem, ela poderia conversar com Juliana e talvez escutar o que ela tem a dizer, só pra ela, em segredo, em silêncio. Sorri. Sorrimos juntas. Nos abraçamos cúmplices, como se soubéssemos de todo o infinito que cabe no silêncio daquela boneca viajante.

Trêsnoitada

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Há muitas, estou tresnoitada. Tresmalhei-me de mim há meses, quando pela terceira vez vi surgir vida nova a se adentrar na família, no peito, no plano. Estou algo tresloucada diante de tanta fartura de amor e afazeres. Dante chegou manso e suave, com sua constância e seu propósito de fazer durar a alegria de ser família.

Antes, no ventre, diziam de seu nome ser fardo, vir pesado e cheio de bagagem, por ser nome de bisavô. Mas Dante chegou leve, como as folhas que caem em revoada, veio fazer outono em nossas vidas, dar ponto no desejo de crescer família e reticências nos planos de voltar a ser eu.

Para Lis, Dante se faz a cada dia afeto, brincadeira e exercício. De maternidade, de fraternidade, de generosidade. Se encontram nos olhinhos puxados e nos gritos de entusiasmo aos primeiros raios de sol, e é como já se pertencessem há vidas e anseios idos.

Para Otto, Dante fez-se primeiro ameaça; aquele amor vasto de mãe, parecia caber apenas nos pequenos bracinhos do bebê recém chegado. Acabou-se o colo, acabou-se o riso, acabou-se o bebê que era e agora virei menino. Mas passada a dor de perceber-se às vezes mais falta do que inteireza, Otto se refez irmão grande, com peito de passarinho. Aninha-se em meu colo em busca de si e se ergue menino arteiro e contador de histórias para ensinar ao irmão a ser criança feliz e brincante.

Para o pai, Dante veio refletir-lhe o espelho de existir e fazer-se história. Ele, também terceiro, se enterneceu como se houvesse nascido ali nova chance de si, de se ver, se entender menino, irmão, família; para assim tornar-se mais uma vez, pai.

Assim, passam-se os dias por aqui. Trespasso o cotidiano, costurando a arte de ser mãe de três. Às vezes me pergunto, como pode caber tanto amor e tanto riso nesses dias feitos de trabalho e privação. Talvez habite aí a eternidade de ser mãe… O amar apesar, o amar além, o amar aquém, o amor sem fim. C’est très bon.

 

A vida é um pé de amora

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Hoje, caminhando com meu pequeno terceirinho, que ganha vida nas palavras através desse Post, estava a catar amoras silvestres nos arbustos. Após a irritação inicial de uma espetada dolorosa nos espinhos em uma investida mal calculada afim de pegar uma daquelas bem gordas e suculentas, percebi que a vida é um pé de amora.

Os dias têm sido feitos de desafios por aqui. O cotidiano repleto de testes aos limites e à paciência daqueles que se colocam no lugar de educar. Nessas horas, em que há que se usar de rigor, de sobriedade, em que a ludicidade precisa dar lugar à firmeza, percebo como o contorno é importante na construção do ser.

A amoreira é repleta de espinhos. Há que se ter espera para apanhar as maduras, cada uma a seu tempo. Há que se ter contorno para desviar-se dos espinhos, persistência para alcançar a mais doce, cuidado, e ao final, há que se ter paladar para saborear o sentido de todo aquele esforço.

Esse “dar contorno” aos filhos, ajudando-os a ocupar seu lugar no espaço, na família e no mundo é uma missão povoada por contradições, limitações, e barreiras. Há que se barrar a invasão do direito do outro, há que se limitar o desejo, quando este ultrapassa o bom senso, o permitido, o aceitável. Há que ensinar tolerância para que suportem o tempo de espera, o valor do cuidado, a dor dos espinhos.

O pé de amora conta histórias de corpos que descobrem seu próprio tamanho quando almejam o fruto daquele encontro. A criança aprende que não adianta alcançar o fruto verde, que não adianta ter um fruto maduro em um galho intangível, que às vezes a amoreira vai ser rude e o encontro doloroso, que às vezes vai ser repleto de ternura e sabor. A amoreira dá contorno ao desejo da criança, dá limites ao corpo, e ensina que não só de amoras se vive a infância.

A dor que se tem ao ser negado o acesso ao brinquedo, ao amigo, ao passeio, é a dor da amora distante. O limite imposto pelo espaço do outro, pelo tempo da espera, pelo não, é o limite do espinho que inflama os dedos feitos de pressa e teimosia.

A nós pais, cabe suportar a culpa, e assumir o papel de privá-los desse mundo de direitos e desejos inesgotáveis. Afim de formar cidadãos, é preciso desconstruir o individualismo excessivo, com a firmeza e a ternura com que se ergue o pé de amora. É preciso ser espinho para dar contorno e ser amora para que suportem as frustrações.

Outro dia quis plantar orquídeas no tronco da aroeira do quintal. Meu marido, em sua sabedoria de menino criado solto, disse que não deveria, pois assim os meninos não subiriam mais na árvore. Ele sabia que o contorno de si mesmo a gente conquista nesse movimento constante de toque, contato, presença. Na força de se agarrar ao tronco, de se pendurar nos galhos, de seguir com os olhos o caminho das formigas e se desviar das folhas com lagartas.

Quando os meninos crescerem haverá tempo, espaço e lugar para as orquídeas no jardim. Até lá, entre frutos e espinhos, vamos plantando vidas e pés de amor.

O Serumano

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Há alguns dias, indo para a escola, a Lis me perguntou:

– Mamãe, o que é o “Serumano”?

– Ser humano é a pessoa, somos nós, filha…

– Mas ele é um monstro? um moço malvado?

– Não filha, todas as pessoas são seres humanos.

– Ah, não! Eu não sou não!!

E foi brava até o portão, se negando a acreditar que ela era um “Serumano”.

No dia seguinte, no mesmo caminho para a escola, Otto perguntou:

– Mamãe, os carros são natureza, não é?

– Não filho, as árvores, os animais, os rios, são natureza, os carros são feitos pelas pessoas.

E ele, mais que depressa:

– Pelo “Serumano”??

Ultimamente, pensar-me um ser humano, não tem sido mesmo muito animador… Interessante como as crianças, provavelmente por escutarem por aí que muitas das catástrofes e desgraças mundo afora, foram obra do “Serumano” se negam a vestir-se dele.

O Homem, como espécie, utiliza o termo “humano” para distinguir-se dos animais; dentre os seres é o único capaz de agir com racionalidade, produzir conhecimento, ter pensamento simbólico, criar mitos, ferramentas e tecnologia. O Homem como parte da sociedade, utiliza o termo “humano” para caracterizar aquele que é bondoso, generoso, que age com tolerância e gentileza.

Revendo esses conceitos e pensando nossa sociedade e nosso mundo, questiono essa “racionalidade” e essa “bondade” do ser humano. Acho que criamos essa entidade, o “Serumano”, à medida que desconstruímos o Homem como parte da Natureza e como parte da Sociedade.

Dia após dia, o Homem se desconecta da Natureza, à medida que associa tecnologia, progresso e desenvolvimento à destruição dos recursos naturais e dos outros seres vivos. Se pensarmos nosso mundo e nossa existência como parte de um sistema onde os recursos são usados com inteligência, onde há espaço para a coexistência das espécies e a cooperação entre elas, onde cada um se responsabilize pela dispensação e reaproveitamento de seus rejeitos, teremos um ser humano agindo com racionalidade.

Em um mundo onde a individualidade tem prevalecido sobre o bem estar coletivo, ser humano é uma missão para poucos. Na sociedade contemporânea, o olhar sobre o outro carrega consigo a rivalidade, o medo de perder o próprio lugar, a própria identidade, os bens, o espaço, o rótulo. Antes de olhar para o outro, faz-se necessário mascarar inseguranças, fraquezas e ilusões. Antes de olhar para o outro, fechamos os olhos para nós mesmos, para nossas limitações.

Ser humano é enxergar o outro. Enxergar com olhos de igualdade, com olhos de delicadeza e curiosidade. Ser humano é ser parte de um todo, onde antes de olhar para fora a gente se veste de coragem, de perdão e de ternura e aceita que nada é perfeito, que o outro pode ser melhor, que o outro tem a ensinar, que o outro nada mais é do que um reflexo de nós mesmos.

Para sermos humanos, precisamos do outro. Pode o outro ser bicho, planta ou gente; Ninguém é espécia sozinho, ninguém é gente sozinho, ninguém é povo sozinho.

Depois daquela conversa, estou tentando despertar nos meninos o desejo de se tornarem seres humanos… mas pra isso acho que primeiro vamos ter que derrotar o “Serumano” que tanto os amedronta. E depois disso, quem sabe, como Manoel de Barros, tentar renovar o Homem usando borboletas….

 

Aula de Moral e Cívica

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Outro dia, escutei um pai falar na porta da escola dos meninos: ” acho que precisamos voltar a ter aulas de moral e cívica nas escolas”. Imediatamente disse a ele que eu discordava, que deveríamos sim, ensinar nossos filhos a serem éticos. Vi que se formou uma grande interrogação em sua expressão, e sem dizer mais nada, ele virou as costas e seguiu seu caminho.
Ultimamente tenho escutado muita gente dizer que precisamos “moralizar” nossa sociedade. Que devemos retomar regras de moral e bons costumes há muito esquecidos. Me pergunto se moralizar uma sociedade passa por pensar nas relações que estabelecemos uns com os outros e como lidamos com a vida, ou se seria apenas obedecer a normas e costumes seguindo o padrão criado pela sociedade contemporânea; se moralizar uma sociedade passa por reflexões sobre diversidade, sobre respeito ao espaço e à escolha do outro, sobre estabelecer relações de convivência saudáveis e respeitosas com a natureza e com os seres humanos.

Quando penso sobre ética e moral, digo que a ética vem de dentro e moral vem de fora. Uma você entrega, a outra você recebe. Ethos em grego significa morada, refúgio, habitat. Ética refere-se à natureza da ação humana.
Moral é fruto do padrão cultural vigente e incorpora as regras eleitas como necessárias ao convívio entre os membros dessa sociedade. Regras estas determinadas pela própria sociedade…

Me preocupa essa importância excessiva que tem se dado ao tema MORALIDADE. O que me parece, é que dia apos dia deixamos de ser éticos…. Cada dia mais é preciso reafirmar regras, reforçar padrões e estereótipos, seguir cartilhas de normas e costumes… E dentro, cresce o vazio. Um vazio que tolhe a liberdade de escolha, que resume o indivíduo a uma marionete que veste-se de azul ou de rosa e não se questiona sobre o que há debaixo.
Me preocupa quando percebo que estabelecer regras para a sexualidade alheia se torna mais importante do que estabelecer laços afetivos pautados no respeito e na admiração pelo caráter do outro. Me preocupa quando o corpo do indivíduo torna-se propriedade do coletivo e as escolhas relacionadas a este corpo se pautam no senso comum. Me preocupo com meus filhos, que crio e educo na esperança de que entreguem ao mundo que os rodeia a maturidade de relações construídas de transparência e verdade; que crio e educo para que enxerguem a diversidade, a riqueza de conhecer o outro além, ou apesar do vestido rosa ou do short azul; que crio e educo para que reflitam sobre suas escolhas pautados em seu caráter e não em cartilhas.

Sem que haja dentro de nós um refúgio, uma construção paulatina de valores e princípios, uma internalização do respeito ao espaço do outro e uma reflexão sobre o papel de regras e padrões na construção de uma sociedade, há uma moral vazia. Vazia e perigosa pois esta se nutre de preconceitos, de intolerância, de exclusão. A ética nos dá a liberdade de escolha, a moral sem ética, nos aprisiona, nos limita e nos reduz.

Apesar disso tudo, continuo criando meus pequenos na esperança de que se tornem seres humanos éticos. Enquanto a moral se edifica em tons de rosa e azul, eles vão construindo um mundo cheio de cores, para quem sabe um dia perceberem- se parte de uma sociedade onde fazer parte signifique vestir -se de respeito e tolerância e não de rosa e azul.

Colonia Parental

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Depois de alguns meses de mutismo literário, eis que retorno com vários rascunhos a passar a limpo. O mais urgente e ansioso porém é esse projeto insano e maravilhoso, que um grupo de mães resolveu bancar nas férias de janeiro e que rendeu memórias e aprendizados únicos.

Como não costumo tirar férias em períodos convencionais, desde muito pequenos os meus filhos passam pelo menos 15 dias de janeiro na Colônia de Férias da escola. Lá eles mantêm sua rotina, sua familiaridade com o espaço e os amigos, e eu a minha tranquilidade para o trabalho. Porém, esse ano, eu e uma amiga com filhos em idades semelhantes e que também estudam na mesma escolinha, resolvemos fazer diferente. Num misto de economia, coragem e praticidade, resolvemos nos revezar nos cuidados com nossos quatro filhos durante o mês de janeiro. Até aí, nada demais. Até o momento em que que resolvemos compartilhar no grupo do Maternal a ideia… Foi então que surgiu pelo menos mais uma dezena de mães que queria fazer parte do projeto. Assim teve início nossa Colônia Parental.

Éramos 17 mães, 22 crianças, uma casa com quintal, um prédio com playground, muitas dúvidas, muito entusiasmo e sentimento de pertencimento. Pertencíamos a um grupo único; de pessoas que queriam se ajudar, de pais e mães acolhedores, agregadores, disponíveis e cheios de amor para compartilhar. Foram 18 dias, três a quatro mães se revezavam nos períodos de manhã e tarde em atividades de organização da casa e cozinha, brincadeiras e cuidados com as crianças e nessa toada se delineava uma relação de cumplicidade, intimidade, confiança e liberdade entre bebês, crianças, mães e pais. Havia aquelas que trabalhavam em tempo integral, e como não podiam doar sem tempo, mandavam ajudantes, lanchinhos, carinho e incentivo e principalmente, uma entrega e confiança enormes em nossa capacidade de cuidar de seus filhos. Havia aquelas que participavam esporadicamente e traziam brincadeiras, inovação, muita energia e vontade de fazer parte dessa comunidade. Eu, estive presente o máximo que pude, e abracei o projeto com braços de uma mãe que de repente tinha 22 filhos, e que amava a cada um deles da maneira que se mostravam para o mundo: frágeis, brigões, ternos, alegres, apreensivos… Para as crianças, acho que foi no mínimo intrigante a experiência de dividir o espaço, a atenção, os brinquedos, seus pais e mães com os amigos.

Acredito que o maior aprendizado que tive nesses 18 dias, foi de que não estou só. De que podemos sim construir uma tribo de amor e doação para criar nossos filhos e dividir nossas angústias. De que não é preciso muito para atender uma criança em suas necessidades cotidianas e afetivas, basta dar-lhe liberdade, percebê-la, doar-se e o resto se aconchega nesse espaço que se constrói entre o amor e o respeito.

A Colônia foi um presente. Essas mães e pais, que se tornam a cada dia mais parte de minha vida e da vida de meus pequenos, são hoje minha família. Uma família escolhida. Que se completa, que se ajuda, se sustenta.

Ao fim da Colônia, fui recolhendo pedaços esquecidos de cada um dos pequenos (e grandes) que haviam passado por aqui. Havia toalhas, roupas, bicos, brinquedos, filtro-solar, piscina, canetinhas, sapatos… Havia tantas lembranças e pequenos indícios de como fomos felizes naqueles dias. Percebi que aqueles objetos “esquecidos”, eram prova de confiança e de familiaridade das crianças e dos pais com aquele espaço que os havia acolhido. Me senti especial. Senti o quanto minha casa era especial. Por ter feito parte disso. Por ter feito parte da vida dessas pessoas. E me senti completa.

 

 

 

 

Sobre buracos e recheios

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As coisas andam difíceis por aqui. Difícil até encontrar tempo e anseio para escrever. Ando tapando buracos demais… Sim…. buracos. A filha que não dorme mais em sua própria cama, o filho que quer o aconchego eterno do colo, o marido que quer ouvidos e braços incansáveis.

Ando fazendo trabalho de muitos. Na esperança de que não hajam mais buracos. Recheando vidas enquanto esvazio a mim mesma. Recheando os medos com coragem e segurança, recheando as carências com afeto e ternura, recheando as insatisfações e culpas com escuta e paciência. Um movimento constante, invisível, cansativo. Onde não sobra espaço para meus medos, minhas carências, minhas insatisfações e culpas. Enquanto preencho as faltas alheias, torna-se cada vez maior o oco de mim mesma.

Por quê não permitir a falta e o sofrimento do outro? Aonde a falta de afeto torna-se o medo da perda? Por que essa completude é tão exaustiva e inviável?

Ando tapando buracos demais…. E meus buracos, quem alcança? E minhas faltas, quem silencia? Elas gritam. Gritam um silêncio feito de palavras incompreendidas. Feitos de espaços preenchidos, de cimento, cola, presença. Queria ser ausência e falta para ir de encontro a mim mesma. Cansada de ser colo, travesseiro, ouvido, braço, abraço, consolo e porto-seguro. Vontade de ser menina. Vontade de ser choro, frágil, vazio, espaço, liberdade enfim.

Lis fez aniversário. 3 anos. Três lindos anos vividos em todas as suas cores e nuances. Não me lembro dos meus 3 anos… Nem dos 5, nem dos 8… Pouquíssimas lembranças de infância me povoam. Olho para trás e não me encontro… Será que já estava a tapar buracos e a perder meus recheios pela vida afora?

Mom is Cool – conteúdo inspirador na construção de nossa Vila

IMG-20171122-WA0179Hoje quero falar um pouco sobre esse projeto, de uma grande amiga, que como eu viu sua vida ser colocada em cheque pelo turbilhão da maternidade.

O Mom is Cool é uma plataforma de Microcursos para Mães (e Pais), onde vários assuntos que povoam o universo da criação dos filhos são abordados de forma carinhosa e inspiradora de forma a trazer informação e alento para as angústias que encontramos no caminho de nossa construção como pais.

Acho que uma das descobertas mais importantes que vivi com a maternidade, foi essa rede de mães, que se unem em busca de trocas, aconchego, entendimento. E através desse tipo de ferramenta, proposta pelo Mom is Cool, nos aproximamos ainda mais da construção de uma Vila, onde possamos criar nossos filhos sustentados pela presença do outro, pela troca de experiências, nos fortalecendo na coletividade como indivíduos, como pais e como transformadores do mundo em que vivemos.

Há algum tempo, fui convidada pela Ana Paula, uma das idealizadoras do Mom is Cool, a contribuir com esse conteúdo precioso. Essa parceria deu certo, e a partir desse mês, além de acessar esses cursos tão importantes, vou poder contribuir com um pouco do que aprendi ao longo de minha vida profissional, falando sobre a presença dos diagnósticos médicos e medicamentos na vida familiar e da criança, e a tendência atual de medicalização da vida e da infância.

Abaixo segue o link para essa plataforma maravilhosa e transformadora, onde além do meu microcurso: “Meu filho precisa de remédio?”, vocês irão encontrar um conteúdo muito rico, sobre a tecnologia na vida das crianças, alimentação saudável, o prazer da leitura na infância, a importância do brincar, o sono saudável do bebê, as vivências da gestação e do pós parto, comunicação entre mãe e filho, enfim… uma infinidade de assuntos que habitam o universo da crianção dos filhos e de nossa construção como seres éticos e transformadores.

https://www.momis.cool/cursos/meu-filho-precisa-de-mdico-por-juliana-sartolero-do-maeneira-de-ser

 

 

Vazio na alma

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Há tempos venho querendo escrever sobre isso. Repassando minhas notas de lembrete de temas a escrever no Blog vejo a listinha:

Culpa

Consumo

Desmame

Vazio na alma

Nossa! Me lembrei de Drummond: “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”. Prepotência equiparar meus sentimentos e meu mundo aos do menino gauche que transformava as suas pedras no caminho em poesia, mas também sinto que é preciso tornar mundanos os sentimentos que empunho.

Há alguns meses, enquanto atendia em uma Unidade de Emergência, recebi uma menina-moça no alto de seus quinze anos, que havia ingerido medicamentos de forma abusiva. perguntei a ela se ela queria morrer, e ela, pensativa respondeu:

– “Não… queria acabar com esse vazio enorme que sinto aqui dentro.”

Uma compaixão enorme tomou conta de mim naquele momento, e mais do que nunca me perguntei, tamanha a desesperança de uma menina diante do mundo e da própria existência: O que estamos fazendo com as nossas crianças?

Vazio. Estamos a curtir, compartilhar, seguir, adicionar. Consumimos amigos, de maneira “fast food”, tantos grupos, tantos conteúdos, tantas mídias. E ao seu lado, quem está? E à sua mesa, quem se assenta, quem se sustenta? Quem sorve o café das suas palavras construídas de som e presença? Quem te é olhar, agrado ou desagrado verdadeiro, toque, arrepio, prazer, tristeza ou simplesmente suspiro de estar ali?

Vazio. Estamos a comprar, consumir, experimentar, colecionar, sextas-feiras negras… filas virtuais e viscerais, vestidos de seda, puffer jackets, Oxford metalizados, enxoval da Carters, , vinhos gourmet, cafés bouquet, cerveja artesanal, integrais, orgânicos, sem lactose, sem glúten, sem sentido, sem limites, sem prazer. Aonde isso te alcança? Como isso te toca? Quando ISSO deixa de ser ISSO e passa a ser útil, preciso e real?

Vazio. Estamos a destruir, saquear, sucatear, descartar tudo aquilo que nos é vital. Tudo que é vivo, verdadeiro, que se extingue, se aprisiona. São pastos, represas, sobreposições, desordens de concreto e carbono. Nada se sustenta no que se descarta. Estamos a mamar nas tetas de um planeta exausto. E a tua culpa, onde está? O que cabe no teu lixo? Onde a carne que te consome se digere?

Culpa, consumo, desmame, vazio na alma. Checked. Aonde o vazio acaba? O vazio do desmame, a culpa pelo consumo, a alma…

Enquanto houver perguntas, nossa criança estará salva. A criança interior, que não se entorpece com remédios, que não precisa de roupa nova nem legumes orgânicos. A criança que brinca em nossos vazios e se aborrece quando há demais. Gente demais, coisas demais, informação demais. Nossas crianças precisam de vazios…. para que os tolerem depois. Gavetas vazias pedem pensamentos, barrigas vazias pedem alimento real, espaços vazios pedem contentamento, e assim se constroem almas plenas em desejo!

 

 

O silêncio das pequenas coisas

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Meu trabalho habita o silêncio das pequenas coisas. A saciedade é silenciosa. O prato cheio de comida, a colher que alimenta, o seio farto, são portadores do silêncio da fome aplacada.

O sono é silencioso. As histórias de elefante, dinossauro, princesa são construídas no silêncio do adormecer. Os suspiros, os sonhos, os levantares noturnos para ver se estão aquecidos e tranquilos. Os carinhos nos cabelos perfumados de orvalho, o cheiro da noite quente e estrelada que abriga seus corpos adormecidos no balanço das canções de ninar.

O contentamento é silencioso. O brincar permitido, a liberdade de criar, a expressão de si na construção cotidiana. O silêncio das bonecas e castelos de areia, os sussuros das torres de bloquinhos, das cabaninhas, de panelinhas e canções de roda. Meu trabalho habita o sossego da brincadeira.

O afeto é morada de silêncio. Os abraços apertados, os beijos de sarar dodói, o colo que aconchega. A mão que equilibra o primeiro passo, os braços que conduzem ao desafio, o peito que se agiganta para o consolo. Cócegas na alma são silenciosas.

Porém, meu trabalho habita também a ausência de silêncio. Estou presente no choro, na insatisfação, no desejo não realizado, na fome, na irritação, no não. Meu trabalho permite o barulho da falta. Pois só se encontra na serenidade do silêncio aquele que conhece a inquietude ruidosa da insatisfação.

O silêncio das pequenas coisas nos organiza e torna capazes de enfrentar a grandeza da vida. O barulho do descontentamento nos provoca, nos convida ao movimento.

Assim, meu trabalho está também na ausência. A falta de mim faz com que eles sintam a presença deles mesmos. A ausência é ruidosa, até que eles se encontrem no silêncio do existir sem o outro. E é aí, quando a ausência se torna silenciosa que meu trabalho termina.

Logo, eles seguirão seus caminhos sozinhos…. buscarão seu próprio alimento, não haverá necessidade de que zelem pelo seu sono, de que permitam suas brincadeiras. Logo, a busca pelo silêncio será deles, será dentro, será longe.

Quando esse dia chegar, meu peito será barulho. Um grito de ausência, de falta, de insatisfação. O choro do silêncio perdido. Até que encontre em mim mesma, a serenidade silenciosa de ter deixado partir, partida. Então meu trabalho estará terminado. E será nesse dia, então, que meu silêncio, sofrido e intenso, se tornará canção.