O presente é ancestral

Na semana da consciência indígena, escuto Ailton Krenak, Davi Kopenawa e Daniel Munduruku e olho pela janela. Vejo uma menina nua e me lembro da fala do Ailton de que um presidente não deveria se apresentar vestindo uma camisa verde e amarela, um terno, um logotipo, um presidente de verdade deveria apresentar-se nu.
Olho pela janela e vejo um menino de dois anos que ganhou uma pedrinha e abriu uma alegria enorme dizendo ter recebido um tesouro, e me lembro da Vale comendo as entranhas da terra e cuspindo lixo tóxico em nossos rios.
Olho pela janela e vejo um menino com as beiradas da blusa cheias de goiabas e os olhos cheios de brilho e penso nesse agro tão pop, a ponto de 80% do alimento que chega à mesa do brasileiro ser proveniente do pequeno produtor rural.
Olho pela janela da minha alma e me vejo carregando saberes ancestrais que aliviam a dor do outro com a palavra, com o gesto, com o toque, muitas vezes de maneira mais eficaz que a ciência da medicalização e dos procedimentos invasivos. Nessa hora me lembro do que li sobre Wera Mirim, o líder espiritual guarani e sua escuta sobre o corpo e sobre as dores do espírito.
“O presente é ancestral”, Ailton nos diz. Nós, os “homens brancos” somos o “povo da mercadoria” nos diz Davi Kopenawa. Daniel Munduruku vem “questionar esse olhar quadrado que o ocidente desenvolveu e que exclui olhares circulares”. Precisamos de olhares circulares. Em todos os âmbitos há que se cuidar do outro, do todo, da Terra, pois tudo volta, tudo é volta, é retorno a si, ao passado, ao ponto de partida, ao utero, ao universo, ao nada, ao caos.
Se a sabedoria indigena pudesse nortear nossos olhares a ponto de aprendermos a cuidar do que nos é oferecido com os olhos de uma criança, estaríamos salvos. De nós mesmos.

Retirense

Hoje me acordou uma vida feita de laços e flores. Moro numa comunidade onde os alecrins e pés de couve da poda de um, viram tempero e alimento na mesa do outro. Onde o outono se faz de cerejeiras em flor, que viram mudas no portão de uma casa qualquer, a quem possa interessar. Moro numa comunidade onde sempre há um copo de açucar na casa vizinha para terminar o bolo que o forno espera, onde sempre há goiabas, pitangas, abacates e caquis esperando as mãos curiosas das crianças que passeiam sua liberdade. Onde as framboesas silvestres espetam dedos ansiosos e adoçam bocas desejosas de seu lilás.

Moro numa comunidade onde perdem-se coelhos, jabutis, gatos e cães pelas casas alheias ao mesmo tempo em que encontram-se serpentes, tucanos, aranhas, jacus, animais dos mais diversos, vestidos de susto, de medo e de encantamento. Aqui, há vizinho que desenha passarinho em livro, pra criança procurar nos galhos da vida; há vizinha que fez morada de livro a beira de casa, pra quem quiser ler, trocar, levar, deixar. Há quem sopre musica logo ao lado, como se aqui as montanhas cantassem através das pessoas. Há quem fez do seu quintal brincadeira, pra receber crianças passeadeiras e cheias de fantasia.

Moro numa comunidade que acolhe. Acolhe a necessidade do bebê que vai nascer sem manta, da moça, que perdeu o pai, e o rumo, do pai que precisa de fraldas e cadeira de rodas. Moro numa comunidade que transforma caixas de leite em canteiros de alface roxa, que transforma criança sem escola em meninada feliz e unida, que transforma uma pergunta em pelo menos cinquenta conselhos diferentes e permeados por muito coração. Coração… moro numa comunidade que por mais vasta e diversa, basta no peito como leite morno antes de dormir. Como se pra existir com alegria a gente só precisasse acordar aqui todos os dias, com os passarinhos cantando, com esse friozinho que esquenta o viver diário, com a certeza de que mesmo que tudo esteja muito ruim lá fora, mesmo que as vezes seja difícil ter esperanças, aqui dentro sempre vai haver ternura.

Galhos e redes

Ha tempos nao me inspira o cadenciar dos dias a ponto de voltar a escrever. Ha fatos, razões, incompreensões,  ideias, lembranças, mas nada que motive o movimento de trazer o presente para o papel.
Hoje, me chamou um cajueiro. Nas curvas incomuns, nas redondezas, asperezas, sutilezas de suas nuances reencontrei os caminhos tortuosos da minha escrita.
Aqui os dias passam lentos e vigorosos, no barulhar do mar, no balanço dos coqueiros. A lua ja se mudou tantas vezes quanto a inconstância das marés supôs possíveis. O sol se pôs dia após dia com incontáveis variações de cor, e ainda assim brilham outras tantas infinitas possibilidades.
De manhã, me atenho a arte do pescador, que observa o deitar das águas ate que o mar conte seus segredos. Então avança o barco por entre as ondas, espalha a rede sobre a marcha e juntam-se todos a puxar expectativa areia adentro. Puxam algas vermelhas aos montes, às vezes plástico, as vezes silêncios…  ouvi dizer de uma arraia de uma tonelada que alimentou mais de 30 famílias, mês passado. Ontem puxaram peixes, muitos mesmo. Grandes, pequenos, coloridos, azuis, agitados, corpulentos, ansiosos, moribundos. Foi bonito demais de se ver.
Hoje o neto da Glória trouxe um saco cheio de jambos e acerolas para o Otto. Veio agradecer o chupchup de maracujá de ontem. Lis está com um pote cheio de tesouros pra levar pra casa, conchas de todas as formas e tamanhos, tampinhas de garrafa pet, canudos que recolheu na praia para que não fossem parar nas narinas das tartarugas, garras de siris e até um osso que não decidiu ainda se é uma boca de tartaruga ou a cabeça de um peixe. Dante aprendeu a correr com as ondas, uma dança de atração e temor temperada por areia e sal. A primeira vez que provou o mar, disse que tinha gosto de limão.. tempero bom esse que a vida tem.
Registro o pouco daquilo que a memória resgata, para que ao menos a sombra do cajueiro permaneça em nossa lembrança. Mesmo se escrevesse uma vida, seria pouco para caber nos braços dessa beleza que nos recebe maternal e incondicionalmente por aqui.
O cajueiro me tocou, profundamente. Seus galhos sinuosos e ternos…. como raízes, uma árvore em espelho, dentro e fora, procurando caminhos entre lacunas, a sustentar-se em sua própria existência. Talvez seja assim a vida. No jogar diário da rede, sem nunca saber-se peixe ou vazio,  lançar-se na vida assim,  como os braços tortuosos do cajueiro, que tenta enraizar-se em si mesmo.

O grupo e o indivíduo – reflexões pandêmicas

Muitos vão começar a ler esse texto e se perguntar como o tema se relaciona com a maternidade. Pois bem, quando se pensa na inteireza que se deve ter na relação mãe-filho, para educar, cuidar e principalmente ensinar esse olhar delicado sobre o outro, que vai além de nossas próprias necessidades e confronta o comportamento narcísico da criança, nos deparamos com tais paradigmas.

O discurso inicial na Pandemia era de que apesar de todos os percalços e sofrimentos advindos das mudanças impostas pela necessidade de sobrevivência de nossa espécie, ganharíamos maturidade no relacionamento de grupo, nos tornaríamos mais solidários, aprenderíamos a importância da socialização e das ações coletivas.

Pois eis que a pandemia avança, e nós, brasileiros, sem suporte do Estado, sem norte, permeados pelo negacionismo, por confrontos ideológicos e pelo instinto de autopreservação tornamos a cada dia mais verdadeira a máxima de Zygmunt Bauman, quando ele diz: “a marca da pós-modernidade é a própria vontade de liberdade individual”. Quando a sociedade tenta instituir leis e se organizar em torno de si mesma, sem a participação do Estado como órgão de regulação e de suporte coletivo através de políticas públicas que proporcionem bem estar social e condições mais igualitárias de existência, o que se vê é uma grande cobrança do dever coletivo, que esbarra no desejo e no direito do indivíduo.

A vigilância social sobre o coletivo é contínua, porém a permissividade e a imposição do direito individual é assegurada pela não existência de direitos coletivos. Cobrar o dever coletivo e exigir o direito individual tornam nossa sociedade cada vez mais narcísica e distante do entendimento do ser humano como parte de um ecossistema onde a cooperação é a máxima para a sobrevivência.

Quando eu confronto o grupo por não estar seguindo preceitos considerados por mim como necessários à organização social, mas ao mesmo tempo infrinjo as mesmas regras em prol de meu bem estar individual, crio um contrassenso que impede qualquer possibilidade de cooperação.

O que quero dizer com isso tudo é que enquanto as ações coletivas que defendo tiverem como objetivo meu próprio bem estar e segurança, não há direito coletivo, e sim a manipulação do coletivo em prol de meu direito individual. Desta maneira seguiremos como uma sociedade que elege gestores que governam em benefício próprio e legitimam privilégios e preconceitos coloniais.

Nesse ponto, mais uma vez em meus textos, abre-se espaço para a importância da natureza na construção do ser humano. Antes de explorar conceitos e objetivos sociológicos impõe-se a necessidade de nos voltarmos para a ecologia. É premente a necessidade de novas relações entre homem e natureza e, portanto, de novas relações entre os homens. A ecologia também diz respeito as necessidades da humanidade, suas especificidades históricas e culturais, suas visões das gerações futuras, fortalecendo assim a sociodiversidade, tanto quanto a biodiversidade.

Na natureza, o senso de autopreservação e a necessidade de cooperação coexistem. Para Rousseau, retornar à natureza significa ir em busca dos princípios mais profundos da nossa humanidade. “É na liberdade que a humanidade se revela universal. É na liberdade que eu amo a mim mesmo e a humanidade, é na liberdade que vou distinguir as características da minha vontade individual e identificá-la com a vontade geral da humanidade. É dessa forma que um cidadão pode identificar-se com outro e se perceberem participantes de uma mesma pátria, fugindo assim do individualismo”.

Aqui encerro esse manifesto pelos direitos coletivos, pela liberdade de se autogerir dentro de um ecossistema onde as relações fortalecem o indivíduo através da cooperação. Com o desejo de que na Pandemia nos alcancem os olhos de Manoel de Barros, os braços do cajueiro, as asas das abelhas e o senso comum que habita o coração das florestas.

“Aprendo com abelhas do que com aeroplanos.
É um olhar para baixo que eu nasci tendo.
É  um olhar para o ser menor, para o
insignificante que eu me criei tendo.
O ser que na sociedade é chutado como uma
barata – cresce de importância para o meu
olho.
Ainda não entendi por que herdei esse olhar
para baixo.
Sempre imagino que venha de ancestralidades
machucadas.
Fui criado no mato e aprendi a gostar das
coisinhas do chão –
Antes que das coisas celestiais.
Pessoas pertencidas de abandono me comovem:
tanto quando as soberbas coisas ínfimas.”

Manoel de Barros

Sapatilhas e mariposas

Os sonhos de menina diziam que teria cinco filhos, que seria bailarina ou bióloga. Que seria poeta também e moraria no mundo. Nos sonhos de menina vivia num barco, descia os ribeirões do Amazonas, acalentava o cheiros de mato entre os andares do prédio. Caçava mariposas pelos corredores e cantava as luzes da cidade com as vizinhas tão meninas quanto si mesma, enquanto sonhava seus poemas e suas raízes.
Quando aprendeu modos de moça os sonhos a fizeram poliglota, escritora, doutora. Vivia só, em casa que projetara com as amigas… lá: o teclado, um sofá, colchão no chão e o desejo de viver seus desafios. Dançava suores na academia, tecia conversas intermináveis na Celio de Castro com Jacuí, enchia as páginas do caderno com corações e declarações de amor, imaginava o nome dos cinco filhos. Enrolava os dedos no fio encaracolado do telefone enquanto suspirava seu frescor de paixões efêmeras, depois da escola, na casa da avó, tardes inteiras.
Quando se fez juventude, os sonhos viajaram para onde o coração buscava peito. Foram italianos, sertanejos, tornaram-se solidão, grito, protesto, urgência. Deixou de ser bióloga, bailarina, escritora, poliglota e tornou-se das realidades a mais óbvia. Voltou a sonhar-se barco no Amazonas, ou talvez pés estrangeiros em fronteiras áridas, embora agora houvesse casa sua, sem teclado, mas com colchão no chão e pés para esquentar suas noites e seus sonhos de mulher.
Fez-se então mãe. E voltaram todos os sonhos como se nunca houvessem partido. Foi bailarina nos cabelos da filha que escorriam no intento do coque, foi bióloga, natureza, barqueira no Amazonas, índia nos braços fortes das árvores que embalavam os sonhos dos filhos. Foi paixão, solidão, fronteira, linguagem, colchão no chão, coração, óbvia. Tudo. E nada.
Olhou pra trás. E viu seus sonhos ali. Recolheu aqueles que se haviam deitado no chão do tempo. Guardou entre as páginas dos cadernos aqueles que se tinham secado como as folhas que caem no outono, colocou no copo com água aqueles que ainda tinham algum viço. Vestiu as sapatilhas, embalou os cinco filhos ao som do teclado que entoava sua solidão. O colchão no chão. Os pés. O barco. Caçou mariposas nos andares de seu desalento, escreveu seus sentidos. Sentiu-se morrer, como se os sonhos não lhe pertencessem mais. Perdeu as sapatilhas, o barco, as letras, o mundo. Restaram os cinco filhos, que agora sem sonhos pesavam demais, como vazios enormes.
Então adormeceu.
E sonhou com a criança que fora, com seus passos de dança, seus versos, seus rios. Desceu de barco por todas as correntezas de sua solidão e aportou nas raízes de seus saberes. Deitou-se no colo dos filhos, e despertou.

Pequenas infelicidades cotidianas

maos dadas

Esses dias tenho cultivado minhas infelicidades cotidianas. As cultivo não por gosto ou opção, mas por não saber o que fazer com elas…

A vida é boa. Há barulhos de infância em casa, há contentamento no trabalho, há chão, alimento, família, sustento para o corpo e para a alma em abundância.

Ainda assim há o choro incessante do pequeno, que não se explica, que não se esvai, que se fortalece no não, na falta, e até mesmo na presença demasiada. Ainda assim há incompreensão no olhar do filho. Há tédio vestido de reatividade, de grito, de choro sentido. Há pergunta calada no fundo da incompreensão. Há no silêncio dele um mundo que não alcanço, que me traz angústia, que me acusa negligência.

A infelicidade de não bastar, de ser busca onde deveria ser resposta, de não ser colo suficiente para tanta aflição me diz de uma impotência que me paralisa dia após dia e vira semente cultivada, vira marca, vira ruga na face da memória e do presente que sou.

Há um cansaço antigo, uma exaustão, que me diz muito de mim. De uma mulher que deixou de ser, ou que tem sido tanto que não cabe mais em si. Uma mulher antes da mãe; que não precisava saber todas as respostas, que não precisava aplacar angústias nem semear afeto constante. Uma mulher que antes podia ser falta, ser solidão, ser silêncio. Uma mulher que hoje, para viver e compreender suas pequenas infelicidades cotidianas precisa ser choro, ser palavra, ser tempo e espera.

Dói a sensação de não ter braços para carregar a dor do outro e não ter palavras para alcançar seus medos.

Às vezes é a mãe que precisa do colo do filho. Na angústia dele faço a morada de minha fragilidade e nos reconhecemos. Entendo que o caminho talvez não seja resposta e sim reciprocidade. As vezes nossas pequenas infelicidades cotidianas se curam quando damos as mãos e acolhemos as pequenas infelicidades do outro, simplesmente como elas são, sem que isso as modifique, sem entendimento, sem fim. Como se em nosso jardim precisássemos também de semear tristezas para florescer com inteireza.

A escola mata.

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Na onda das discussões sobre o retorno de atividades “essencias”, o assunto em voga é a reabertura das escolas.

O assunto é polêmico, controverso e delicado, o motivo principal acredito eu, é o que reina através dos tempos, das épocas, independente de modelos políticos e econômicos. A escola mata. A escola é o leito de morte do conformismo e do cegamento da sociedade. A escola é espaço de questionamento, é lugar onde o desconforto aparece, onde as verdades forjadas são desconstruídas, onde o ser humano se constitui da maneira mais rica e sólida possível: através da experimentação e do seu entendimento sobre o saber do outro.

A escola mata a imposição, a passividade. Através da convivência diária com o grupo a criança é instigada a se posicionar no mundo, a descobrir seus valores, suas perguntas, antes mesmo de buscar respostas. Porque só conseguimos atuar no mundo quando fazemos perguntas … respostas prontas há aos montes: certas, sob medida, adequadas. Mas quando adquirimos a capacidade de fazer as perguntas, por mais incorretas, incômodas, incoerentes, inadequadas que sejam, estamos ocupando nosso lugar no mundo, na sociedade, na vida. Escola é lugar de perigo, pois nos instiga a duvidar de respostas prontas. Francis Bacon dizia que a dúvida é a escola da verdade.

O clube, o shopping, o bar … não são perigosos. São lugares onde apenas reverberamos uma realidade constituída de prazeres efêmeros e corriqueiros. Não há contágio, não há risco de compartilhamento de ideias, não nos contaminamos pelo saber do outro nem desconstruímos preconceitos. A diversão não mata, é inócua, asseptica. A cultura do pão e circo atravessa gerações e nos calamos para não haver morte. A morte da ignorância, do conformismo, do silênciamento social.

Diante disso tudo; ontem, hoje e para sempre, eu gostaria que meus filhos acolhessem a morte. Que suas ideias pudessem morrer e renascer a cada dia, fortalecidas por um espaço de acolhimento e segurança emocional. Gostaria que eles acordassem amanhã com suas mochilas, seus tênis desamarrados, Lis com sua saia por cima da calça legging, Otto com sua roupa de Thor, Dante agarrado com sua naninha, e que essa escola perigosa os estivesse esperando de portas abertas: ansiosa, borbulhante, perigosa, ameaçadora.

Antes de acolher respostas prontas sobre os riscos dessa ou daquela atividade para o corpo, a humanidade, o ser humano; temos que repensar nas perguntas que estamos fazendo. Qual a importância da educação na construção da sociedade? Qual o papel da escola na formação do caráter e do cidadão? Qual é o lugar do educador na história de nosso país? Que tipo de seres humanos queremos para o mundo?

Nesse momento eu escolho a morte. Que morra a deseperança, a desilusão, os privilégios, os interesses exclusivamente políticos e econômicos. Que assim se abra espaço para que a vida floresça, para que a educação seja essencial, para que a criança seja percebida como cidadão e suas necessidades e direitos respeitados.

Enquanto houver vida, haverá escolas. Não há vida que sustente sem aprendizado, sem que se acolha e se transforme o saber do outro.  O exemplo é a escola da humanidade. Eu escolho a escola. A dúvida. A vida. Sempre.

 

 

Costurando vidas

 

20200709_120958Lis ganhou uma saia nova, dessas novidades herdadas que começam a apertar a infância de outra menina e passam a habitar as brincadeiras dela. Sem vacilo, colocou a saia, montou na bicicleta e foi pedalar o mundo. Nem dez minutos, rasga-se a barra da saia na roda da bicicleta e volta a menina matreira com cara de “fiz bobagem”, pedindo costura e cura para a saia recém ganhada.

Passaram-se alguns dias de insistência, no tempo curto de viver entre brincares e deveres, e eis que tomo a agulha, e desencontro as linhas. Na bagunça de estar entre bonecas, pedras mágicas, ervas de cura poderosa, galhos que se tornam varas de pescar, arcos de índio e lenha na fogueira de pensar-se gigante, não há carretel que desate o fio da meada. De improviso, ele: o fio dental.

Os rasgos inconstantes da saia de flor se fecham como botões ao sabor do fio que já limpou dentes e gengivas e agora tece o persistir do pano de vestir aventuras. “Ficou linda!” ensaia beleza a menina, rodopia de contentamento e parte em disparada feliz da vida com a saia que agora é herança e remendo.

Uma amiga, mãe de gêmeos, sempre que vem em casa trazendo os meninos para brincar diz que a visita causa-lha gosto enorme, pois aqui habita a desordem de uma bagunça acolhedora.

Claro que há regras e combinados, há coisas em seus lugares e lugares para todas as coisas, mas também há espaço para que a sala se transforme em um mar cheio de perigos; ou que o pula-pula vire um escorregador de lama; ou que as caixas de leite, latas e badulaques do lixo reciclado se tornem frascos de shampoo, naves espaciais e bonecas de lata.

Assim vamos construindo os dias sem pressa. Costurando os buracos com as imperfeições de viver em poesia. Afinal, nas tortuosidades dos troncos das árvores, na inconstância dos ciclos de viver e morrer dos bichos, na singularidade de cada pedra, de cada mato, de cada instante, habita a bagunça da felicidade.

Metamorfoseando

saturnidae

Vivemos um tempo de perigo. Perigoso caminhar pelas ruas, se aproximar do outro, abraçar a avó, tocar as mãos, sentir a falta. Perigoso abrir os olhos de manhã e pensar em mais um dia sem amanhã; sem rumo; sem norte. Perigoso deitar-se para dormir sabendo que amanheceremos os mesmos, e ainda assim, tão diferentes.

O casulo da lagarta se nutre de pensamento. Dentro dele está a memória de todas as gerações, está o alimento, o berço, a carne. Dentro dele o corpo se faz dor, se faz troca e criação. O casulo transborda. Aperta, aconchega, encaixa, acolhe, desconforta. Do lado de fora; expectativa, espera, clareza, vazio, ar, respiro, solidão.

A serpente é a memória de seu tempo. Se veste do frio do inverno, hiberna, se recolhe. Aquece o sol do estar em si, bebe os raios, o quente, a luz , se torna energia vital. Cresce na dor de perder-se. Perde a pele, o viço, o brilho, descasca-se sua história afim de dar lugar a si mesma. Deixa rastro concreto na intenção de seguir no encalço de seu pensamento.

A cigarra é barulho feito de carne e desalento. Grita suas dores de crescimento e parte deixando para trás a angústia de não caber em si. despede-se com som agudo e pungente, deixando para trás seus ossos, como se a alma encouraçada atravessasse a eternidade com mais fôlego, na esperança de tornar-se história.

Vivemos um tempo de mudança. Mudar dá medo. Dói. O casulo, lá pelas tantas, deixa de ser morada e aprisiona. Nossas crianças vivem conosco esse tempo. Crescem. Deixam suas peles, seus casulos, seus barulhos internos espalhados pelo chão da sala. Cabe a nós recolhê-los. Cabe a nós nos metamorfosearmos também. Perdem dentes, ganham medos, deixam fraldas, ganham coragem, despedem-se de sapatos apertados e acolhem novos desafios. Cabe a nós existir como memória e como pensamento. Pra caber no casulo deles, no corpo novo, na eternidade de suas histórias. Cabe a nós também sermos carne, toque, abraço, aperto, desconforto e aconchego. Para que se libertem, ou se acomodem, cada um a seu tempo.

 

Dia de assar pinhão

pinhao

Hoje foi dia de assar pinhão. O Sol se levantou cedo, na boca do bebê a procura de leite. A tramela escondeu a luz para mais uma horinha de sono junto, aquele sono onde os pés se encontram, onde sente-se o cheiro da companhia que esquenta a cama e a vida.
Logo gritam as maritacas e então enche-se a casa com os sons dos filhotes a procura de leite, de asas, de ninho. O café pinga sem pressa enquanto a piúca acende fogueira e a fumaça escancara as últimas tramelas que teimam em segurar o dia.
Calçam-se as botas, os ânimos, os planos. Todos a pegar lenha e acender o forno de pedra que se ajoelha no chão da varanda, afim de queimar pinhão. Enquanto a lenha estala, contam que foi perto da toca da onça, ontem, que as sementes pipocavam todo o chão. Encheram os bolsos das calças e as beiras das blusas para saber qual seria o gosto de acordar a vida com pinhão torrado e quente. A onça? Não estava la… mas havia uma vaca, deitada, já sem vida. Teria sido a fera a tirar-lhe os mugidos? “Mas não faltava-lhe nenhum pedaço!” Exclamou a menina que entendia muito de onças e ossos de vaca e histórias de caça.
O pai derramava sua experiência em alimentar afeto enquanto aconchegava os pinhões em desajeito na grelha e na lata. Os olhos brilhavam o gosto doce e torrado do pinhão a descascar-se ainda quente, pintando as pontas dos dedos de ternura e impaciência enquanto as bocas encontravam a maciez do banquete assentido.
Hoje foi dia de assar pinhão. A lenha queimou em brasas de contentamento enquanto bebiam água fria da bica e contavam histórias de onça e de andar a cavalo. Assim passou-se preguiçosa a manhã, enquanto as barrigas alimentavam as memórias com beiradas de infância.