Sapatilhas e mariposas

Os sonhos de menina diziam que teria cinco filhos, que seria bailarina ou bióloga. Que seria poeta também e moraria no mundo. Nos sonhos de menina vivia num barco, descia os ribeirões do Amazonas, acalentava o cheiros de mato entre os andares do prédio. Caçava mariposas pelos corredores e cantava as luzes da cidade com as vizinhas tão meninas quanto si mesma, enquanto sonhava seus poemas e suas raízes.
Quando aprendeu modos de moça os sonhos a fizeram poliglota, escritora, doutora. Vivia só, em casa que projetara com as amigas… lá: o teclado, um sofá, colchão no chão e o desejo de viver seus desafios. Dançava suores na academia, tecia conversas intermináveis na Celio de Castro com Jacuí, enchia as páginas do caderno com corações e declarações de amor, imaginava o nome dos cinco filhos. Enrolava os dedos no fio encaracolado do telefone enquanto suspirava seu frescor de paixões efêmeras, depois da escola, na casa da avó, tardes inteiras.
Quando se fez juventude, os sonhos viajaram para onde o coração buscava peito. Foram italianos, sertanejos, tornaram-se solidão, grito, protesto, urgência. Deixou de ser bióloga, bailarina, escritora, poliglota e tornou-se das realidades a mais óbvia. Voltou a sonhar-se barco no Amazonas, ou talvez pés estrangeiros em fronteiras áridas, embora agora houvesse casa sua, sem teclado, mas com colchão no chão e pés para esquentar suas noites e seus sonhos de mulher.
Fez-se então mãe. E voltaram todos os sonhos como se nunca houvessem partido. Foi bailarina nos cabelos da filha que escorriam no intento do coque, foi bióloga, natureza, barqueira no Amazonas, índia nos braços fortes das árvores que embalavam os sonhos dos filhos. Foi paixão, solidão, fronteira, linguagem, colchão no chão, coração, óbvia. Tudo. E nada.
Olhou pra trás. E viu seus sonhos ali. Recolheu aqueles que se haviam deitado no chão do tempo. Guardou entre as páginas dos cadernos aqueles que se tinham secado como as folhas que caem no outono, colocou no copo com água aqueles que ainda tinham algum viço. Vestiu as sapatilhas, embalou os cinco filhos ao som do teclado que entoava sua solidão. O colchão no chão. Os pés. O barco. Caçou mariposas nos andares de seu desalento, escreveu seus sentidos. Sentiu-se morrer, como se os sonhos não lhe pertencessem mais. Perdeu as sapatilhas, o barco, as letras, o mundo. Restaram os cinco filhos, que agora sem sonhos pesavam demais, como vazios enormes.
Então adormeceu.
E sonhou com a criança que fora, com seus passos de dança, seus versos, seus rios. Desceu de barco por todas as correntezas de sua solidão e aportou nas raízes de seus saberes. Deitou-se no colo dos filhos, e despertou.

Pequenas infelicidades cotidianas

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Esses dias tenho cultivado minhas infelicidades cotidianas. As cultivo não por gosto ou opção, mas por não saber o que fazer com elas…

A vida é boa. Há barulhos de infância em casa, há contentamento no trabalho, há chão, alimento, família, sustento para o corpo e para a alma em abundância.

Ainda assim há o choro incessante do pequeno, que não se explica, que não se esvai, que se fortalece no não, na falta, e até mesmo na presença demasiada. Ainda assim há incompreensão no olhar do filho. Há tédio vestido de reatividade, de grito, de choro sentido. Há pergunta calada no fundo da incompreensão. Há no silêncio dele um mundo que não alcanço, que me traz angústia, que me acusa negligência.

A infelicidade de não bastar, de ser busca onde deveria ser resposta, de não ser colo suficiente para tanta aflição me diz de uma impotência que me paralisa dia após dia e vira semente cultivada, vira marca, vira ruga na face da memória e do presente que sou.

Há um cansaço antigo, uma exaustão, que me diz muito de mim. De uma mulher que deixou de ser, ou que tem sido tanto que não cabe mais em si. Uma mulher antes da mãe; que não precisava saber todas as respostas, que não precisava aplacar angústias nem semear afeto constante. Uma mulher que antes podia ser falta, ser solidão, ser silêncio. Uma mulher que hoje, para viver e compreender suas pequenas infelicidades cotidianas precisa ser choro, ser palavra, ser tempo e espera.

Dói a sensação de não ter braços para carregar a dor do outro e não ter palavras para alcançar seus medos.

Às vezes é a mãe que precisa do colo do filho. Na angústia dele faço a morada de minha fragilidade e nos reconhecemos. Entendo que o caminho talvez não seja resposta e sim reciprocidade. As vezes nossas pequenas infelicidades cotidianas se curam quando damos as mãos e acolhemos as pequenas infelicidades do outro, simplesmente como elas são, sem que isso as modifique, sem entendimento, sem fim. Como se em nosso jardim precisássemos também de semear tristezas para florescer com inteireza.

A escola mata.

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Na onda das discussões sobre o retorno de atividades “essencias”, o assunto em voga é a reabertura das escolas.

O assunto é polêmico, controverso e delicado, o motivo principal acredito eu, é o que reina através dos tempos, das épocas, independente de modelos políticos e econômicos. A escola mata. A escola é o leito de morte do conformismo e do cegamento da sociedade. A escola é espaço de questionamento, é lugar onde o desconforto aparece, onde as verdades forjadas são desconstruídas, onde o ser humano se constitui da maneira mais rica e sólida possível: através da experimentação e do seu entendimento sobre o saber do outro.

A escola mata a imposição, a passividade. Através da convivência diária com o grupo a criança é instigada a se posicionar no mundo, a descobrir seus valores, suas perguntas, antes mesmo de buscar respostas. Porque só conseguimos atuar no mundo quando fazemos perguntas … respostas prontas há aos montes: certas, sob medida, adequadas. Mas quando adquirimos a capacidade de fazer as perguntas, por mais incorretas, incômodas, incoerentes, inadequadas que sejam, estamos ocupando nosso lugar no mundo, na sociedade, na vida. Escola é lugar de perigo, pois nos instiga a duvidar de respostas prontas. Francis Bacon dizia que a dúvida é a escola da verdade.

O clube, o shopping, o bar … não são perigosos. São lugares onde apenas reverberamos uma realidade constituída de prazeres efêmeros e corriqueiros. Não há contágio, não há risco de compartilhamento de ideias, não nos contaminamos pelo saber do outro nem desconstruímos preconceitos. A diversão não mata, é inócua, asseptica. A cultura do pão e circo atravessa gerações e nos calamos para não haver morte. A morte da ignorância, do conformismo, do silênciamento social.

Diante disso tudo; ontem, hoje e para sempre, eu gostaria que meus filhos acolhessem a morte. Que suas ideias pudessem morrer e renascer a cada dia, fortalecidas por um espaço de acolhimento e segurança emocional. Gostaria que eles acordassem amanhã com suas mochilas, seus tênis desamarrados, Lis com sua saia por cima da calça legging, Otto com sua roupa de Thor, Dante agarrado com sua naninha, e que essa escola perigosa os estivesse esperando de portas abertas: ansiosa, borbulhante, perigosa, ameaçadora.

Antes de acolher respostas prontas sobre os riscos dessa ou daquela atividade para o corpo, a humanidade, o ser humano; temos que repensar nas perguntas que estamos fazendo. Qual a importância da educação na construção da sociedade? Qual o papel da escola na formação do caráter e do cidadão? Qual é o lugar do educador na história de nosso país? Que tipo de seres humanos queremos para o mundo?

Nesse momento eu escolho a morte. Que morra a deseperança, a desilusão, os privilégios, os interesses exclusivamente políticos e econômicos. Que assim se abra espaço para que a vida floresça, para que a educação seja essencial, para que a criança seja percebida como cidadão e suas necessidades e direitos respeitados.

Enquanto houver vida, haverá escolas. Não há vida que sustente sem aprendizado, sem que se acolha e se transforme o saber do outro.  O exemplo é a escola da humanidade. Eu escolho a escola. A dúvida. A vida. Sempre.

 

 

Costurando vidas

 

20200709_120958Lis ganhou uma saia nova, dessas novidades herdadas que começam a apertar a infância de outra menina e passam a habitar as brincadeiras dela. Sem vacilo, colocou a saia, montou na bicicleta e foi pedalar o mundo. Nem dez minutos, rasga-se a barra da saia na roda da bicicleta e volta a menina matreira com cara de “fiz bobagem”, pedindo costura e cura para a saia recém ganhada.

Passaram-se alguns dias de insistência, no tempo curto de viver entre brincares e deveres, e eis que tomo a agulha, e desencontro as linhas. Na bagunça de estar entre bonecas, pedras mágicas, ervas de cura poderosa, galhos que se tornam varas de pescar, arcos de índio e lenha na fogueira de pensar-se gigante, não há carretel que desate o fio da meada. De improviso, ele: o fio dental.

Os rasgos inconstantes da saia de flor se fecham como botões ao sabor do fio que já limpou dentes e gengivas e agora tece o persistir do pano de vestir aventuras. “Ficou linda!” ensaia beleza a menina, rodopia de contentamento e parte em disparada feliz da vida com a saia que agora é herança e remendo.

Uma amiga, mãe de gêmeos, sempre que vem em casa trazendo os meninos para brincar diz que a visita causa-lha gosto enorme, pois aqui habita a desordem de uma bagunça acolhedora.

Claro que há regras e combinados, há coisas em seus lugares e lugares para todas as coisas, mas também há espaço para que a sala se transforme em um mar cheio de perigos; ou que o pula-pula vire um escorregador de lama; ou que as caixas de leite, latas e badulaques do lixo reciclado se tornem frascos de shampoo, naves espaciais e bonecas de lata.

Assim vamos construindo os dias sem pressa. Costurando os buracos com as imperfeições de viver em poesia. Afinal, nas tortuosidades dos troncos das árvores, na inconstância dos ciclos de viver e morrer dos bichos, na singularidade de cada pedra, de cada mato, de cada instante, habita a bagunça da felicidade.

Metamorfoseando

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Vivemos um tempo de perigo. Perigoso caminhar pelas ruas, se aproximar do outro, abraçar a avó, tocar as mãos, sentir a falta. Perigoso abrir os olhos de manhã e pensar em mais um dia sem amanhã; sem rumo; sem norte. Perigoso deitar-se para dormir sabendo que amanheceremos os mesmos, e ainda assim, tão diferentes.

O casulo da lagarta se nutre de pensamento. Dentro dele está a memória de todas as gerações, está o alimento, o berço, a carne. Dentro dele o corpo se faz dor, se faz troca e criação. O casulo transborda. Aperta, aconchega, encaixa, acolhe, desconforta. Do lado de fora; expectativa, espera, clareza, vazio, ar, respiro, solidão.

A serpente é a memória de seu tempo. Se veste do frio do inverno, hiberna, se recolhe. Aquece o sol do estar em si, bebe os raios, o quente, a luz , se torna energia vital. Cresce na dor de perder-se. Perde a pele, o viço, o brilho, descasca-se sua história afim de dar lugar a si mesma. Deixa rastro concreto na intenção de seguir no encalço de seu pensamento.

A cigarra é barulho feito de carne e desalento. Grita suas dores de crescimento e parte deixando para trás a angústia de não caber em si. despede-se com som agudo e pungente, deixando para trás seus ossos, como se a alma encouraçada atravessasse a eternidade com mais fôlego, na esperança de tornar-se história.

Vivemos um tempo de mudança. Mudar dá medo. Dói. O casulo, lá pelas tantas, deixa de ser morada e aprisiona. Nossas crianças vivem conosco esse tempo. Crescem. Deixam suas peles, seus casulos, seus barulhos internos espalhados pelo chão da sala. Cabe a nós recolhê-los. Cabe a nós nos metamorfosearmos também. Perdem dentes, ganham medos, deixam fraldas, ganham coragem, despedem-se de sapatos apertados e acolhem novos desafios. Cabe a nós existir como memória e como pensamento. Pra caber no casulo deles, no corpo novo, na eternidade de suas histórias. Cabe a nós também sermos carne, toque, abraço, aperto, desconforto e aconchego. Para que se libertem, ou se acomodem, cada um a seu tempo.

 

Dia de assar pinhão

pinhao

Hoje foi dia de assar pinhão. O Sol se levantou cedo, na boca do bebê a procura de leite. A tramela escondeu a luz para mais uma horinha de sono junto, aquele sono onde os pés se encontram, onde sente-se o cheiro da companhia que esquenta a cama e a vida.
Logo gritam as maritacas e então enche-se a casa com os sons dos filhotes a procura de leite, de asas, de ninho. O café pinga sem pressa enquanto a piúca acende fogueira e a fumaça escancara as últimas tramelas que teimam em segurar o dia.
Calçam-se as botas, os ânimos, os planos. Todos a pegar lenha e acender o forno de pedra que se ajoelha no chão da varanda, afim de queimar pinhão. Enquanto a lenha estala, contam que foi perto da toca da onça, ontem, que as sementes pipocavam todo o chão. Encheram os bolsos das calças e as beiras das blusas para saber qual seria o gosto de acordar a vida com pinhão torrado e quente. A onça? Não estava la… mas havia uma vaca, deitada, já sem vida. Teria sido a fera a tirar-lhe os mugidos? “Mas não faltava-lhe nenhum pedaço!” Exclamou a menina que entendia muito de onças e ossos de vaca e histórias de caça.
O pai derramava sua experiência em alimentar afeto enquanto aconchegava os pinhões em desajeito na grelha e na lata. Os olhos brilhavam o gosto doce e torrado do pinhão a descascar-se ainda quente, pintando as pontas dos dedos de ternura e impaciência enquanto as bocas encontravam a maciez do banquete assentido.
Hoje foi dia de assar pinhão. A lenha queimou em brasas de contentamento enquanto bebiam água fria da bica e contavam histórias de onça e de andar a cavalo. Assim passou-se preguiçosa a manhã, enquanto as barrigas alimentavam as memórias com beiradas de infância.

Quarentena

relogio

Desde que o mundo é mundo, as histórias com final feliz começam por “Era uma vez”… Pois essa, começou assim:

De repente…

De repente o mundo não era mais o mesmo, e tudo que se acreditava ser rotina, ser hábito, normalidade… acabou. Não havia mais trânsito, hora do rush, buzinas. Não havia mais passeio no Shopping, comprar roupa para ir ao casamento do grande amigo, ir ao salão porque o cabelo estava perdendo o corte.

De repente, os meninos acordaram de manhã e não havia pressa para o café. Não havia roupa certa para vestir, podiam escovar os dentes olhando os passarinhos do quintal. Não havia encontro com os amigos, fins de semana para serem contados na roda, abraços apertado na Paulinha, histórias da Giovanna, colo gostoso da Paty, cantar pintinho amarelinho com a Cássia, brincar de lutinha com o Caio, dançar ao som do violão do Thiago ou construir mundos de faz de conta com o Pedro.

De repente houve o medo. Medo de ir trabalhar e voltar doente, medo de não conseguir curar, cuidar, sorrir e ser coragem diante do temor alheio. Medo de não saber o que dizer, por nao ter as respostas, e nem mesmo as perguntas certas, diante de algo tão novo.

De repente veio a saudade. Saudade de ter pra onde ir. Saudade dos encontros, do café com prosa, dos braços, riso solto, pele, beijos, estar perto. Saudade da normalidade, dos almoços de domingo, das festinhas dos amigos. Saudades da mãe, da avó, das tias e tios, primos, família fora do ninho, que passarinho visita pra encontrar seu próprio coração, pousado no peito alheio.

De repente veio o tédio, o cansaço, a dúvida, o vazio e o cheio. De repente o mundo virou dentro e o fora virou longe.

E então, de repente, o de repente virou calma. Virou um dia de cada vez, virou soneca depois do almoço, deixar as louças para depois, terminar aquele livro, relembrar aquela música, adiar as férias na praia, deitar na rede e contar a história do mundo, fazer relógio de sol no quintal e ver a terra girar. De repente, não havia mais de repente. Havia um dia inteiro, um filho inteiro, uma família inteira. De repente havia um mundo dentro, e o fora, passou…

E assim, sem pressa, o “de repente” virou “era uma vez”. E pudemos contar outra história, onde o inesperado se fez calmaria e cada instante de vida tornou-se mais intenso e verdadeiro que a busca incessante pelo final feliz.

Lis e a Boneca viajante

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Há dois anos atrás, li um livro lindo chamado Kafka e a boneca viajante.
Quando Lis fez 3 anos, ganhou uma boneca enorme de uma madrinha muito querida, que havia feito crescer meu marido e seus irmãos e tem carinho de mãe por ele e de avó por Lis.
Ela tinha um amor infinito pela boneca, tão grande quanto a própria, que mal cabia em seus bracinhos roliços.
Pois eis que um dia, sem aviso, a boneca sumiu…. Sumiu sem pistas, sem deixar rastro. E deixou pra traz uma perda sentida e escavada como buraco fundo no peito de minha menina.
Meu primeiro impulso, guiada pelo instinto de proteção materno, foi correr à primeira loja e comprar outra boneca igualzinha, outra “Juliana”, como a tinha batizado. Mas não o fiz, talvez por achar que o gesto banalizaria aquele grande amor, talvez por que permitir a falta e a dor as vezes é necessário, talvez para amadurecer em mim mesma a perda da Juliana e a necessidade do consolo.
Eis que meses se passaram e escrevi a primeira carta para Lis. Juliana havia saído para conhecer o mundo, e dizia que voltaria quando Lis estivesse preparada para tê-la novamente. Dizia que havia conhecido muitos lugares e pessoas diferentes, que lhe tinha um amor enorme e que nunca a esqueceria. Lis olhou para a rua em frente de casa com os olhos compridos, como se quisesse alcançar em pensamento os passos da boneca andante, guardou a saudade no bolso da alma, e seguiu seus dias lapidando seu entendimento do mundo, das buscas, dos encontros e desencontros.
No livro de Kafka, a boneca viajante não volta mais. Passado algum tempo ela se despede por carta da menina e as duas se permitem viver suas perdas e ganhos.
Por aqui, passados quase 2 anos, Juliana decidiu voltar. Há 15 dias atrás, recebemos uma carta da boneca, que estava na Itália e dizia estar se aproximando a hora do reencontro. Lis não se conteve em seu entusiasmo, e passou a esperar, dia após dia, o momento de rever aquele tão grande amor.
Dilema de mãe que inventa moda e estória, chegada a hora do retorno, não achei a boneca em loja nenhuma!
Pensei então em como havia crescido minha pequena menina, em seus olhinhos brilhantes e curiosos a desbravar o mundo e na longa viagem que ela mesma havia feito desde o dia em que chegara às nossas vidas. Assim como Lis, a boneca Juliana haveria também de tornar-se uma boneca crescida. Era preciso haver perda, para abrir caminho ao novo, ao reencontro, ao desejo de escrever sua propria história.
Achei então uma boneca enorme, mas não mais bebê, agora, menina. De vestido, sapato, cabelos longos e franja a caber no pente e nos laços dos quais Lis tanto gosta…
Bateu na porta de casa em um domingo a tarde, trazendo na mala fotos, lembranças, presentes e um anseio enorme de tornar-se menina de verdade para caber inteira no abraço e no coração da Lis. Na última carta contava que também ela havia crescido, nesses dois anos de distância e que ainda assim poderiam se reconhecer e voltar a ser amigas, a menina e a boneca perdida.
Não sei o que ficará  disso na vida de minha menina. Sei que em minha vida, a espera e a fantasia foram o remédio que encontrei para a dor sentida no peito alheio. Sei que aquela boneca jamais voltará, e aquela menina de 3 anos também não, mas sei também que quando a gente tenta escrever nossa própria história com esperança e vontade de viver, a vida nos devolve todo o amor que entregamos a ela. Esse amor vira bagagem e divide espaço com a saudade, a lembrança, a sabedoria, a serenidade, e tudo aquilo que cabe em um coração que se permite caminhar pela vida com passos de coragem.
Hoje antes de ir pra escola, Lis colocou um vestido de princesa na boneca e fez uma trança comprida em seus cabelos. Me perguntou se a noite, depois que todos dormirem, ela poderia conversar com Juliana e talvez escutar o que ela tem a dizer, só pra ela, em segredo, em silêncio. Sorri. Sorrimos juntas. Nos abraçamos cúmplices, como se soubéssemos de todo o infinito que cabe no silêncio daquela boneca viajante.

Trêsnoitada

tres

Há muitas, estou tresnoitada. Tresmalhei-me de mim há meses, quando pela terceira vez vi surgir vida nova a se adentrar na família, no peito, no plano. Estou algo tresloucada diante de tanta fartura de amor e afazeres. Dante chegou manso e suave, com sua constância e seu propósito de fazer durar a alegria de ser família.

Antes, no ventre, diziam de seu nome ser fardo, vir pesado e cheio de bagagem, por ser nome de bisavô. Mas Dante chegou leve, como as folhas que caem em revoada, veio fazer outono em nossas vidas, dar ponto no desejo de crescer família e reticências nos planos de voltar a ser eu.

Para Lis, Dante se faz a cada dia afeto, brincadeira e exercício. De maternidade, de fraternidade, de generosidade. Se encontram nos olhinhos puxados e nos gritos de entusiasmo aos primeiros raios de sol, e é como já se pertencessem há vidas e anseios idos.

Para Otto, Dante fez-se primeiro ameaça; aquele amor vasto de mãe, parecia caber apenas nos pequenos bracinhos do bebê recém chegado. Acabou-se o colo, acabou-se o riso, acabou-se o bebê que era e agora virei menino. Mas passada a dor de perceber-se às vezes mais falta do que inteireza, Otto se refez irmão grande, com peito de passarinho. Aninha-se em meu colo em busca de si e se ergue menino arteiro e contador de histórias para ensinar ao irmão a ser criança feliz e brincante.

Para o pai, Dante veio refletir-lhe o espelho de existir e fazer-se história. Ele, também terceiro, se enterneceu como se houvesse nascido ali nova chance de si, de se ver, se entender menino, irmão, família; para assim tornar-se mais uma vez, pai.

Assim, passam-se os dias por aqui. Trespasso o cotidiano, costurando a arte de ser mãe de três. Às vezes me pergunto, como pode caber tanto amor e tanto riso nesses dias feitos de trabalho e privação. Talvez habite aí a eternidade de ser mãe… O amar apesar, o amar além, o amar aquém, o amor sem fim. C’est très bon.

 

A vida é um pé de amora

amora

Hoje, caminhando com meu pequeno terceirinho, que ganha vida nas palavras através desse Post, estava a catar amoras silvestres nos arbustos. Após a irritação inicial de uma espetada dolorosa nos espinhos em uma investida mal calculada afim de pegar uma daquelas bem gordas e suculentas, percebi que a vida é um pé de amora.

Os dias têm sido feitos de desafios por aqui. O cotidiano repleto de testes aos limites e à paciência daqueles que se colocam no lugar de educar. Nessas horas, em que há que se usar de rigor, de sobriedade, em que a ludicidade precisa dar lugar à firmeza, percebo como o contorno é importante na construção do ser.

A amoreira é repleta de espinhos. Há que se ter espera para apanhar as maduras, cada uma a seu tempo. Há que se ter contorno para desviar-se dos espinhos, persistência para alcançar a mais doce, cuidado, e ao final, há que se ter paladar para saborear o sentido de todo aquele esforço.

Esse “dar contorno” aos filhos, ajudando-os a ocupar seu lugar no espaço, na família e no mundo é uma missão povoada por contradições, limitações, e barreiras. Há que se barrar a invasão do direito do outro, há que se limitar o desejo, quando este ultrapassa o bom senso, o permitido, o aceitável. Há que ensinar tolerância para que suportem o tempo de espera, o valor do cuidado, a dor dos espinhos.

O pé de amora conta histórias de corpos que descobrem seu próprio tamanho quando almejam o fruto daquele encontro. A criança aprende que não adianta alcançar o fruto verde, que não adianta ter um fruto maduro em um galho intangível, que às vezes a amoreira vai ser rude e o encontro doloroso, que às vezes vai ser repleto de ternura e sabor. A amoreira dá contorno ao desejo da criança, dá limites ao corpo, e ensina que não só de amoras se vive a infância.

A dor que se tem ao ser negado o acesso ao brinquedo, ao amigo, ao passeio, é a dor da amora distante. O limite imposto pelo espaço do outro, pelo tempo da espera, pelo não, é o limite do espinho que inflama os dedos feitos de pressa e teimosia.

A nós pais, cabe suportar a culpa, e assumir o papel de privá-los desse mundo de direitos e desejos inesgotáveis. Afim de formar cidadãos, é preciso desconstruir o individualismo excessivo, com a firmeza e a ternura com que se ergue o pé de amora. É preciso ser espinho para dar contorno e ser amora para que suportem as frustrações.

Outro dia quis plantar orquídeas no tronco da aroeira do quintal. Meu marido, em sua sabedoria de menino criado solto, disse que não deveria, pois assim os meninos não subiriam mais na árvore. Ele sabia que o contorno de si mesmo a gente conquista nesse movimento constante de toque, contato, presença. Na força de se agarrar ao tronco, de se pendurar nos galhos, de seguir com os olhos o caminho das formigas e se desviar das folhas com lagartas.

Quando os meninos crescerem haverá tempo, espaço e lugar para as orquídeas no jardim. Até lá, entre frutos e espinhos, vamos plantando vidas e pés de amor.