Não quero que Lis seja feliz

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A frase mais ouvida de pais recentes e pais experientes é sem dúvida: “Só quero que meu filho seja feliz”. Pois devo dizer que discordo desse paradigma. Eu não quero que Lis seja feliz, a felicidade não é uma morada, ela é uma passagem. Ninguém é feliz o tempo todo. Posso estar feliz, viver momentos de felicidade, assim como vivo momentos de angustia, tristeza, raiva, dúvida, alegria.

Não quero que Lis seja feliz, quero que ela seja mais que isso. Quero que ela seja autêntica, que saiba lidar com seus sentimentos e viver cada um deles da maneira mais inteira e verdadeira que conseguir, quero que ela rale os joelhos tentando engatinhar, que leve tombos tentando caminhar, que chore porque o gosto do remédio é ruim ou porque o amigo pegou seu brinquedo. Que se suje de tinta, de abacate, de terra e liberdade. Que se molhe nas aguas de sua banheira, do mar, de suas lágrimas e de seus desejos. Quero que ela se magoe comigo porque não sou perfeita, que se decepcione com os “nãos” que receber e que se indigne com as injustiças com as quais se deparar. Quero que ela conheça a raiva, para que aprenda a transformá-la em algo produtivo. Que saia de sua zona de conforto para viver seus sonhos e desafios, que se desafie, que não tenha medo de enfrentar o mundo, e que tenha medo também, pois o medo nos coloca em estado de alerta e nos ensina a ter cuidado.

Quero que ela cante “atirei o pau no gato”, que se amedronte com o “boi da cara preta”, que se entristeça quando seu cachorrinho morrer, que se delicie quando comer seu primeiro brigadeiro. Quero que ela chute bola com o pai, que conte mentiras, que ria de si mesma. Que se engasgue com caroço de jabuticaba, se sacie com leite ao pé da vaca, que pegue carrapato e bicho de pé, que tenha remelas, meleca no nariz, cabelos despenteados e pés descalços. Quero que use vestidos, mas não tenha medo de sujá-los, que use a cabeça, mas também o coração.

Quero que minha Lis não seja minha, mas do mundo, e dela mesma. Que ela se apodere de si mesma, se conheça, se descubra a cada dia um ser complexo, repleto de sentimentos. Que ela ame, e receba com o amor todos os sentimentos que ele guarda: o medo da rejeição, a excitação da descoberta, a tristeza da decepção, a alegria da reciprocidade, o prazer do afeto, as incertezas do amanhã.

E para que isso aconteça é preciso ser mais que feliz, é preciso ser coragem, ser oportunidade, ser dúvida e liberdade. Não seja egoísta querendo que seu filho seja feliz, para que ele tenha momentos de felicidade extrema basta querer que ele seja inteiro.

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5 comentários sobre “Não quero que Lis seja feliz

  1. Esse seu jeito especial de viver a maternidade é lindo, Juliana. E a Lis tem respondido a ele comunicando felicidade a quem tem a alegria de acompanhar seu crescimento. A vida é assim, tem sempre seus paradoxos. Parabéns pelo blog e por sua atitude maternal. Beijos.candido.mb

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