“Paidecendo” no Paraíso

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Escrever sobre o pai é uma responsabilidade enorme. É preciso lembrar que o pai não é aquele homem que deixou as meias em cima da mesa, ou não lava o copo onde tomou água e os acumula pela casa… É preciso lembrar que o pai não é aquele homem que às vezes prefere o celular a você, ou uma cerveja com os amigos, ou um bom jogo de futebol. É preciso lembrar que ele, as vezes não está presente ao longo do dia porque está trabalhando, e que as duas horas que ele tem para dividir com você e o filho podem ser as mais importantes do dia para vocês três.

O pai pode não dar o banho do modo “supostamente” adequado, não ter a sua habilidade para trocar as roupas,  o seu sangue frio para dar as vacinas e remédios, a sua praticidade na hora de executar cinco ou seis tarefas ao mesmo tempo, a sua familiaridade com os objetos do bebê, a sua destreza para arrumar a bolsa da criança na hora de sair… Ele pode achar que pentear os cabelos e cortar as unhas do bebê são tarefas importantíssimas, talvez as mais nobres e grandiosas… Pode criticar seu jeito de brincar, amamentar, fazer dormir, trocar fraldas, ou qualquer outro atividade sua junto ao bebê, porque esse é o jeito que ele tem para se sentir inserido na vida do bebê, útil, participativo, importante. As críticas não são direcionadas a você, são pitacos de amor na rotina do filho.

A rotina é importante? Sim, sem dúvida. Mas a interação com o pai, as diferenças, as variações no cuidado, são mais que importantes, são fundamentais. A criança saudável é criada em um ambiente onde há escolhas, há dúvidas, há opiniões e perspectivas diferentes. Um ambiente povoado por certezas unilaterais, cria filhos sem opções, pouco tolerantes às frustrações, pouco adaptáveis.

Não estou dizendo que a criação de um filho deve ser uma guerra constante entre os pais, que deve haver discussões na presença da criança, ou que o jeito que o marido trata a esposa não interfere nas percepções da criança. O que estou dizendo é que é preciso reconhecer o lugar que o pai ocupa. É preciso escutá-lo, perceber que ele participa, opina, que interage e se comunica com a criança e com você. E deve haver sensibilidade para saber separar a relação homem-mulher e a relação pai-mãe-criança. O homem que brinca com afeto e participa com interesse no cuidado do filho não é o mesmo homem que não escuta suas demandas como mulher. Punir o pai pelas falhas do marido, ou vice-versa, são atitudes que afetam diretamente as vivências da criança e da família.

É maravilhoso ver meu marido tomando banho de chuveiro com a pequena, ou dando um pedaço de bolo de cenoura pra ela “escondido”, ou correndo pela casa com ela pendurada em um cabo de vassoura falando “pocotó” e ela vibrando de alegria. É encantador o jeito que ele penteia os cabelos dela, ou diz que o vestido azul fica melhor que o rosa, ou ver sua angústia em deixá-la no berçário “sozinha”…

Meu marido não cuida da Lis quando ela está doente, nunca foi às consultas com a pediatra, não desmarca seus compromissos para passar o dia conosco, não se comove por minhas noites mal dormidas, reclama que estou mal arrumada, que na casa não há comida suficiente, que estou cansada demais para estar com ele depois que a pequena dorme. Muitas vezes me deixa nervosa, irritada, infeliz, triste, desapontada, magoada. Ele está longe de ser perfeito.

O pai da Lis canta músicas do Chico Buarque pra ela e conta histórias da fazenda. Passeia com ela na padaria e lhe dá biscoitos de polvilho. Se comove com cada choro e manha e não resiste aos seus pedidos para sair do berço ou para dormir depois. O pai da Lis deixaria de trabalhar para cuidar dela, se não tivesse que pagar as contas da casa. O pai da Lis tem certeza de que ela ama jabuticabas, sente muito calor, acorda muito bem humorada, assim como ele. Com ele, ela se sente alegre, tranquila, segura, amada, estimulada. Um pai autêntico e inteiro.

E assim sigo sendo Mãe. Ela segue sendo Filha. e seguimos sendo Família.

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Um comentário sobre ““Paidecendo” no Paraíso

  1. Meu marido leu o texto… eu toda emocionada, achando que ele ia se sentir homenageado, e o comentário que fez: “Você foi muito machista… Voce não tem que criar um espaço para o pai entrar, o pai é que tem que entrar a força, se impor e tomar esse espaço.”. Concordei. Que ele continue preservando seu lugar com essa vontade e essa certeza. As “Mãeneiras” e as “Paidecências” se completam.

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