Autossuficiência e generosidade

Canja-de-galinha

Sempre achei muito difícil pedir ajuda. Ser autossuficiente é admirável e muito apreciado, afinal, quem não gostaria de conviver com alguém que resolve tudo sozinho, não atrapalha, não traz demandas somente soluções e ainda ajuda aqueles que têm dificuldades?! Realmente muito conveniente, nobre, valoroso…

Só que um dia você percebe que já são dez da noite e ainda há uma pilha de pratos em cima da pia, que sua casa parece ter sofrido um atentado terrorista, que aquele trabalho que voce deveria ter entregue há dois dias ficou esquecido na gaveta, e que voce não tomou banho, nem escovou os dentes, e não teve tempo sequer para tomar um copo d’agua nas últimas oito horas…

Sua reação? As minhas foram várias… A primeira foi me sentir incapaz. Eu, que sempre dei conta de tudo: trabalhar, fazer compras, cuidar da casa, ir ao salão fazer as unhas, fazer um bolo para o lanche da tarde e ao final do dia ainda ter pique e humor para namorar… Me senti um bichinho acuado, me senti vítima, senti uma solidão doída e silenciosa .

Depois senti raiva. Senti raiva por ter sido enganada, tratada como empregada, por ter sido escravizada em uma vida de afazeres sem fim e nenhum reconhecimento, me senti cobrada, pressionada, explorada e novamente sozinha, uma solidão amarga e berrante.

Por fim senti medo. Desespero por não saber o que fazer, medo de acordar no dia seguinte e perceber ao fim do dia que novamente eu não havia dado conta de corresponder a minhas próprias expectativas, medo por não me reconhecer em mim mesma, mergulhada em uma solidão consentida e sussurrante.

Até que percebi que precisava de ajuda. Mais que isso… precisava PEDIR ajuda. E abriu-se para mim um mundo novo de possibilidades. Descobri fragilidades, sensibilidades e futilidades deliciosas em mim, que antes se vestiam de autossuficiência e eficiência incansáveis. Descobri que meu marido faz um ovo no copinho fantástico, que minha mãe (tão autossuficiente e eficiente quanto eu) tem dores nas costas, gripes de berçário e noites mal dormidas, assim como eu. Que meu cunhado é um ótimo mecânico-marceneiro-pedreiro-bombeiro-eletricista. Que minhas amigas têm ouvidos (isso mesmo Ouvidos!!!) e são ouvidos atenciosos, ternos e tranquilizadores. Que meu padrinho pode ser pai, amigo, porto-seguro, e que família é muito melhor que qualquer reconhecimento por ser a melhor profissional-cozinheira-dona-de-casa-motorista do mundo.

São pequenas delicadezas que mudam a vida, que fazem você exercitar a humildade, expor suas fragilidades, acalentar angústias…  como receber uma visita no primeiro mês do bebê que traga serenidade, calma e um bolo quentinho ou um saquinho de pão francês, ou deixar que lavem a pia de louças sujas, ou que cuidem do bebê pra você dormir. Pedir para a sogra fazer canja de galinha, pedir a cunhada que te ensine a amamentar, ao marido que corte as unhas do bebê porque você tem medo. Permitir que o outro te escute, te console, te acolha e cuide de suas feridas. Permitir a si mesma sentir cansaço, escutar seu coração batendo e seu corpo pedindo carinho e abrigo.

Hoje, ainda sou aprendiz na arte de precisar de alguém. E sei que quando as coisas ficarem mais fáceis provavelmente vou voltar a vida de autossuficiência, e muitas vezes terei que reaprender este ato de humildade que é deixar-se cuidar pelo outro. Mesmo assim, espero me lembrar que confiar ao outro minha fragilidade é um ato de generosidade comigo mesma.

Anúncios

2 comentários sobre “Autossuficiência e generosidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s