A escolha do berçário (im)perfeito: um CLIC de subjetividade

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Quando decidi colocar a pequena no berçário, aos cinco meses e meio, comecei primeiro uma busca por informações de como escolher através de sites, blogues, artigos. Em seguida, com minha listinha mental de quesitos importantes fui em busca do berçário ideal. Os itens que deveria inspecionar eram:

  • Berços individuais com pelo menos 0,5 metro de distância entre eles
  • Janelas para ventilar o ambiente
  • Iluminação adequada
  • Local para banho de sol
  • Número de profissionais por bebê (ideal no máximo três crianças por cuidadora)
  • Limpeza e higiene dos ambientes
  • Banheiras individuais, trocadores esterilizados com álcool a cada troca e lixeiras com pedal para jogar as fraldas
  • Procedimento do local em caso de doença
  • Como funciona o período de adaptação
  • Ideal que não haja mistura de bebês e crianças mais velhas
  • Cardápio criado por nutricionista e presença de fisioterapeuta e enfermeiro a disposição

Foi então que percebi que faltava alguma coisa… Segui as orientações a risca, encontrei lugares que preenchiam todos os quesitos com louvor e ainda assim não me sentia segura nem convencida de que seria um bom lugar para Lis passar suas tardes.

Outro problema era quando eu perguntava sobre a proposta pedagógica do local. Não encontrei essa pergunta em nenhum site visitado, mas como fui criada valorizando a importância do método de ensino, achei que fosse uma pergunta pertinente a se fazer…. Pelo visto não era… Quando eu fazia essa pergunta nos berçários, a diretora normalmente me olhava por alguns segundos com cara de paisagem e logo depois, com um sorriso no rosto porque achava que havia entendido o que eu queria dizer me explicava que a proposta pedagógica era uma mistura do ensino tradicional com o construtivismo, mas que as atividades eram centradas no desenvolvimento de projetos, e que as crianças teriam aulas de música, artes, e o melhor, inglês a partir dos três anos de idade! Recebi essa resposta, exatamente assim, em sete dos oito berçários que visitei.

Decidi então ouvir a voz do meu coração, e me perguntar “o que eu realmente estou buscando?”. Mais que berços com uma distância segura entre eles, banheiras individuais e trocadores esterilizados a cada momento, protetores de quinas, brinquedos acolchoados e ambientes arejados e iluminados, eu estava procurando um lugar onde minha filha pudesse brincar e experimentar, e onde as pessoas soubessem proporcionar isso a ela. E percebi que me angustiava pois nestes berçários padrão, tão bem organizados, eu nunca via nenhum dos bebês brincando, sorrindo, se divertindo. Pelo contrário, as cuidadoras tinham orgulho de mostrar como as crianças dormiam longamente e permaneciam tranquilas e pacíficas em seus carrinhos.

Quando eu já estava perdendo as esperanças e me conformando em colocar a Lis em um berçário onde seria muito bem cuidada, bem alimentada e mantida com muito asseio e pouca brincadeira, fui à última tentativa, um berçário indicado por uma amiga. Já na chegada achei estranho, pois não havia letreiro com o nome do lugar na porta nem nada que me fizesse lembrar uma escolinha. Quando abriram a porta, mais estranhamento: uma longa escada para o piso inferior, e um corredor estreito. Fui recebida pela diretora, alegre, falante, expressiva, que se propôs a me mostrar o espaço e em seguida teríamos uma conversa sobre a proposta do lugar.

Uma sala grande, onde as crianças brincavam, e não raramente os maiores e menores interagiam (opa, mas isso pode?), o quarto de dormir, com vários colchõezinhos no chão, bem próximos (como assim?!), uma sala maior onde havia rodas de música, brincadeiras com materiais diversos, o local das trocas de fraldas e a cozinha que seguiam todas as normas recomendadas de higiene, e o mais espantoso: grama de verdade e um minhocário!

Eu já estava achando aquilo bastante incomum, então chegou a hora de termos a tal conversa. Quando me encaminhava para a sala da administração, Lis, que me acompanhou em todas as visitas até ali, estendeu os bracinhos para uma das professoras e foi, independente e determinada, assistir a roda de música (naquela hora percebi que ela já havia feito sua escolha). Durante a conversa uma coisa estranha aconteceu: não houve muitos detalhes sobre organização, asseio, normas de higiene (embora tudo estivesse de acordo), porém, durante longos 60 minutos conversamos sobre a importância do brincar, da formação dos profissionais que lidam com as crianças, do tipo de educação e formação que queremos dar às nossas crianças, dos tipos de estímulo e propostas pedagógicas, enfim, tudo aquilo que eu vinha querendo escutar há sete escolinhas atrás.

Hoje faz três meses que Lis estendeu seus bracinhos para ir assistir aula de música com a Paty… De lá pra cá; muitas roupas imundas de terra, melancia e tinta, muitos resfriados e viroses, muitas músicas na roda, muita brincadeira na graminha com os amigos, muitos soninhos à moda Montessori (explico o que é isso no próximo Post) e a certeza de que escolhemos com o coração um berçário repleto de imperfeições cuidadosamente construídas, para proporcionar à pequena e seus amigos um ambiente lúdico, interativo, cultural, verdadeiro e afetuoso.

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2 comentários sobre “A escolha do berçário (im)perfeito: um CLIC de subjetividade

  1. Confesso que me derreti pelos olhos.
    Lindíssimo texto.
    Trabalho no CLIC! e, não apesar disso, mas POR CAUSA disso sei que não existe no mundo nada melhor que a sensação de ver crianças exatamente onde elas deveriam estar.
    Feliz por Lis!
    E por mim, por você.
    Abraços.

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