Filhos da conveniência

flor mecaninca

Hoje de manhã desci com a pequena para brincar na área externa do prédio, e havia uma menininha de uns cinco anos no parquinho. Ela brincou um pouco com a Lis, depois começou a me observar intrigada e após uns quinze minutos ela me perguntou:

-Você é o que dela?

-Sou a mãe dela.

-Mas cadê a babá dela?

-Ela não tem babá, sou eu quem cuido dela…

-Mas como assim? Você que cuida? Mas isso pode?

Senti uma compaixão enorme por essa menininha… E me perguntei por que cresce a cada dia a cultura de tornar as coisas mais fáceis, convenientes e cômodas. Ter uma babá 24 horas por dia para cuidar, alimentar, vestir, educar, dar banho, fazer dormir, é uma tranquilidade…. e você só precisa pegar no colo e fazer uns afagos de vez em quando naquela criança linda e cheirosa com todas as suas necessidades já devidamente satisfeitas. Levar o DVD portátil para o restaurante é ótimo… a criança não atrapalha a conversa dos adultos, não tenta sair da cadeira para correr entre as mesas e com sorte, entre um filme e outro, engole duas ou três batatas fritas. Dar uma mamadeira de fórmula bem reforçada as onze da noite para o bebê, mesmo que você teoricamente esteja amamentando exclusivamente, é ótimo…. a criança dorme a noite inteira, e consequentemente você também. Hora do almoço com Ipad do lado, não tem coisa melhor…. você vai enfiando as colheradas na boca da criança enquanto ela assiste ao desenho, e ela nem vai notar se comer um brócolis ou uma cenoura.

E assim nossos filhos vão sendo criados. Num mundo onde todos os desejos são prontamente satisfeitos da maneira mais rápida e fácil possível, onde o choro dá lugar ao Ipad ou à mamadeira de fórmula, onde a convivência dá lugar às conveniências e praticidades da vida moderna.

Que tipo de adultos eles irão se tornar? Adultos que querem seus desejos satisfeitos da maneira mais rápida e fácil possível? Adultos que não vão saber o que desejar? Adultos que vão precisar sempre de um DVD portátil, uma mamadeira, um Ipad, uma babá, para enfrentarem as adversidades da vida?

Aceitar as dificuldades e desafios que vêm junto com a chegada de um filho é uma forma de responsabilização perante o outro, que além de crescimento e amadurecimento pessoal tem como principal consequência a capacitação dessa criança para lidar com as suas próprias dificuldades e desafios e se responsabilizar por si mesma e suas escolhas.

É difícil ir a um restaurante com uma criança que demanda atenção o tempo todo, faz bagunça na mesa, atrapalha suas conversas. Muito difícil, não há dúvida. Mas se “taparmos o buraco” dessa criança com um DVD portátil ao invés de ensiná-la a esperar sua vez, a conviver em grupo, a se portar em lugares públicos, a comer assentada à mesa, quem vai ensiná-la? A escola? A babá? A vida? A partir do momento que decidimos ser mãe e pai, assumimos a responsabilidade de formar um cidadão.

O bebê acorda chorando de madrugada com fome se não toma aquela “feijoada” antes de dormir, consequentemente vai atrapalhar o sono da mãe, e ela vai ter que acordar uma, duas ou três vezes de madrugada para amamentar. Isso é extremamente desgastante, e ao final de alguns meses não se sabe de onde tiramos forças para essa maratona. Mas nesses acordares noturnos aprendemos que às vezes não é fome, é medo, insegurança, ou simplesmente vontade de receber carinho. Aprendemos a entender os choros do bebê e lidar com nossa ansiedade, nossas angústias. Aprendemos que a criança amadurece no seu tempo, e devemos dar esse tempo a ela para que ela se conheça e tome para si o seu sono. A “feijoada” tira da criança a oportunidade de saciar sua angústia com o conhecimento de si mesma, quer dizer, de descobrir a tranquilidade que precisa para dormir a noite toda, sem precisar da presença constante do outro.

Terceirizar os filhos não significa ter uma babá 24 horas por dia, ou colocá-lo na escolinha período integral. Conheço mães maravilhosas, que por opção ou necessidade, tiveram que fazer uma dessas escolhas, e nem por isso deixaram de se responsabilizar pelo cuidado e pela educação de seus filhos. Do mesmo modo, conheço mães que passam o dia inteiro com os filhos, mas estes são criados pela televisão ou pelo computador.

Precisamos assumir as dificuldades que a vida nos traz. Criar filhos não é fácil, nem é um mar de rosas. A vida real é cheia de dificuldades e desafios… um mundo onde priorizam-se soluções rápidas e fugazes, escolhas convenientes e cômodas, convivência superficial e artificial é um mundo feito para máquinas. Vamos viver em um mundo de flores que murcham se não são regadas, de melancias que mancham a roupa ao serem mordidas com prazer, de copos de vidro que se quebram, de lágrimas de insatisfação pelo “não”, gargalhadas de alegria pelos abraços de amor. Vamos criar seres humanos.

Não respondi à última pergunta da menininha… Até agora não sei o que responder… Deixar de sentir-se cuidada pela mãe por achar que isso não é permitido… Como estamos criando nossas crianças? O que vocês responderiam?

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