Existindo aquém da Maternidade

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Já falei aqui sobre como é importante pra mim estabelecer uma relação com a pequena sem a presença constante da culpa. Hoje quero falar sobre uma das principais estratégias que uso para que isso aconteça. É simples: não deixo que minhas necessidades vitais sejam negligenciadas em função das necessidades dela.

Mas o que significam as minhas necessidades vitais: comer? Dormir? Beber água? Ir ao banheiro? Trocar o pijama?

Bem, a maioria das mães sabe que essas necessidades que citei acima muitas vezes são esquecidas ou adiadas em função da demanda trazida pelo bebê. Quantas vezes esquecemos de nos alimentar bem, quantas noites de sono perdidas, quantos dias inteiros sem lembrar de fazer xixi… Não é bem disto que estou falando, até porque conforme estabelecemos rotina e o bebê cresce as coisas vão entrando nos eixos.

O que considero como minhas necessidades vitais são os elementos que julgo fundamentais para a construção e a manutenção da minha autoestima, minha autorrealização, minha existência como mulher, e não somente como mãe. Mas se já é tão difícil realizar tarefas básicas, como comer, tomar banho, como posso existir além e aquém da maternidade? Acho que o primeiro passo é não me esquecer de quem eu sou.

Não esquecer que sou uma pessoa diferente dela, com necessidades, sonhos e realizações que vão além daquelas vinculadas ao ato de ser mãe. Não reduzir minhas expectativas em relação a minha existência às expectativas que tenho em relação a vida dela e à vida que tenho com ela. Não esquecer que antes de ser mãe sou mulher, sou livre para fazer escolhas, e responsável pelo produto dessas escolhas. E por fim, perceber que também ela tem necessidades e demandas diferentes das minhas, que também fará suas escolhas e terá suas expectativas, e de que a melhor maneira que tenho para ajudá-la nisso é vivendo a minha própria vida.

A decisão de colocá-la no berçário foi uma das mais importantes nesse sentido. Nos dias em que não estou trabalhando, uso o tempo que não estou com ela para cuidar de mim, me lembrar de mim, me reconhecer em atitudes simples e cotidianas como ler um livro, fazer um bolo, fazer as unhas, tomar café com uma amiga. O berçário é bom pra ela? Sim, lá ela aprende a interagir com outras crianças, tem experiências lúdicas enriquecedoras, ganha autonomia. Mas o berçário foi uma escolha que fiz para mim.

Quando ela adoece por causa do contato com as centenas de vírus e bactérias que ela encontra por lá fico triste e preocupada, cuido dela com todo o coração, toda a dedicação e o amor do mundo, mas não me sinto culpada por isso. Prefiro que ela passe por isso do que culpá-la pela minha não-existência daqui há alguns anos, ou puni-la com minha dependência emocional, ou tirar-lhe a chance de fazer suas próprias escolhas e viver suas próprias atitudes simples e cotidianas.

Meu trabalho também é uma prioridade nesse sentido. Preciso trabalhar. Para ter independência financeira, para distanciar  e diversificar os pensamentos e as conversas, para construir algo que perdure  e que me faça sentir produtiva e ativa quando ela deixar o ninho, para ser exemplo.

Namorar então…. é fundamental. Me sentir mulher. Sair para jantar, dar e receber carinho, ter longas conversas regadas a salada, pão e vinho depois que ela dorme, me arrumar e me sentir bonita, passar perfume, maquiagem, comprar uma lingerie nova… Assim eu exponho minha feminilidade, abre-se espaço para a relação homem-mulher, criamos a pequena em um lar equilibrado, onde as atenções, cuidados e olhares não se voltam todos para ela. E deste modo ela aprende a viver além, aquém e apesar do olhar do outro.

Por fim, tenho necessidade de viver cada momento com verdade e intensidade. A principal de minhas necessidades vitais é a busca pelo prazer. Tanto ao lado dela, quanto nas atividades e momentos longe da pequena procuro estar inteira. Não inteira no sentido de completude, pois o desejo não sobrevive na completude, mas no sentido de assumir todos os sentimentos, sensações e consequências presentes naquele instante.

Viver assim não é uma escolha livre de angústia, não é uma escolha sem riscos e consequências, e sei que não me exime do erro ou da dúvida… Sei que no momento é o que me faz bem. E se me faz bem eu consigo ter uma relação mais verdadeira e prazerosa com a pequena, e consequentemente criá-la em um ambiente saudável. E assim eu sigo sendo mulher, ela segue sendo menina, e seguimos tentando ser únicas, singulares, diversas e todas.

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2 comentários sobre “Existindo aquém da Maternidade

  1. Querida amiga, adorei o texto! É muito fácil esquecermos de nós mesmas especialmente nos primeiros meses pós maternidade, seu texto nos toca em especial e nos relembra de que já existia essa mulher linda e especial bem antes da chegada do bebê. E ainda, que não precisamos nos culpar por querer retomar nossa autoestima pois o carinho e o cuidado com nossos pequenos não diminuirão de forma alguma! Concordo que alimentando nosso autocuidado e nossa individualidade reforçamos a necessidade da criança entender que a mãe não pertence só a ela e acaba permitindo que ela seja mais independente. Confesso que esta sua ajudinha me deu um empurrãozinho a mais sobre a decisão de sair neste próximo sábado para um passeio pelo salão e pelo shopping após 45 dias de entrega absoluta!!! Bjos

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