Sessão desabafo – Pitacos e frases capazes de levar a um homicídio

facaUltimamente tenho conversado com muitas amigas mães a respeito das intromissões e palpites que povoam o mundo da maternidade, e o quanto seria muito mais agradável e leve atravessar as dificuldades e percalços do percurso se eles não existissem. São frases, expressões, atitudes e pitacos que às vezes são sentidos pela mãe como uma facada no coração ou um soco na boca do estômago. Coisas do tipo:

  • Ahhh, já está indo pra escolinha? Coitadinha…..
  • Nossa, arranhou o rostinho? A mamãe não está cortando suas unhas e cuidando de voce direito ein?!
  • Gente, e essas picadas de pernilongo? Como sua mãe deixou isso acontecer?
  • A culpa é sua por ela estar doente! Quem mandou colocar no berçário?!
  • Esse choro deve ser fome, seu leite é fraco pra ela.
  • Que dó, tão novinha e já está tomando mamadeira? Você não foi capaz de amamentar?
  • Acho que seu filho não se alimenta direito porque você não sabe como oferecer os alimentos para ele.
  • Nossa, tão novinho e já contratou uma babá? Você não deu conta de cuidar sozinha?
  • Dá um biscoitinho ou docinho pra ele, deve estar aguando…. que judiação….
  • Nossa, ela está chorando demais: deve ser cólica, deve ser fome, deve ser sono, deve ser frio, deve ser calor, deve ser porque você está muito nervosa.
  • Deste tamanho e ainda chupa bico? (ou toma mamadeira)
  • Ela é irritável desse jeito por sua causa. Você que passa inseguraça pra ela.
  • Mas você não coloca nem um pouquinho de sal na papinha dela (ou açucar)? Nossa, coitada, o sabor deve ser horrível!

E por aí vai…. São possibilidades infinitas de irritar uma mãe, principalmente de primeira viagem. De torná-la insegura, triste, irritada, culpada, frustrada ou infeliz. E são inúmeros os personagens responsáveis por essa tortura: um parente, amigo, conhecido, desconhecido que te aborda enquanto você espera o sinal fechar para atravessar a rua, a balconista da farmácia, o vizinho durante a descida no elevador, visitantes nos primeiros dias do bebê.

A maternidade é um estado de ebulição constante, estamos sendo julgadas, avaliadas, observadas o tempo todo, principalmente por nós mesmas. Ajuda, acolhimento, conselhos dados de uma forma carinhosa e respeitosa e sem julgamentos são muito bem-vindos na maioria das vezes. Mas a ultima coisa da qual precisamos é de palpites carregados de julgamento, recalque, maldade e ironia. E mesmo nós, como mães, temos que ter muito cuidado ao conversar com outras mães pois cada experiência é única e subjetiva. Não é porque você teve muito leite e achou incrível a experiência de amamentar que deve julgar uma mãe que não teve a mesma experiência. Não é porque seu filho é calmo e tranquilo que vai achar que uma criança irritável e chorosa é produto dos sentimentos e atitudes da mãe. Mesmo quando erramos, estamos usando todo o nosso coração, nossa generosidade e nosso conhecimento, tentando acertar.

Dizer a uma mãe que abdicou de sua vaidade, suas noites de sono, seu tempo livre para cuidar com o máximo de esmero e carinho do bebê que seu filho está mal cuidado, mal vestido, mal penteado, mal alimentado, é fazê-la sentir-se incapaz, incompetente apesar de todos os seus esforços.

Manifestar pena de uma criança porque ela não mamou no peito, ou porque não dorme a noite, ou porque está no berçário, ou porque tem babá, ou porque dorme sozinho no berço, ou porque só dorme no colo, ou porque chora demais, ou porque come de menos, é dizer à mãe que sua atitude em relação aquilo está incorreta e que ela é responsável pelo sofrimento do bebê. E a última coisa que uma mãe deseja é que seu filho sofra.

Na maioria das vezes, essas frases são ditas sem intenção de ferir a mãe. Podem estar tentando ajudar, ou tentando passar um pouco de sua própria experiência, ou simplesmente tentando mostrar solidariedade. O que devemos fazer para “nos proteger” dos palpites e, até certo ponto até tirarmos algo positivo deles?

Acho que a resposta é: devemos nos fortalecer. Quando o outro faz qualquer julgamento ou avaliação de nós, ele está no fundo, falando de si mesmo. De suas inseguranças, de seus medos, daquilo que não deu conta, de seus erros. Ele procura transferir para aquela mamãe insegura e supostamente frágil, toda a bagagem de culpa e angústia que carrega em relação àquele contexto.

Uma amiga, que inclusive foi inspiração para esse Post, no primeiro mês do bebê durante o processo de amamentação estava sempre acompanhada pela sua mãe. Todas as vezes que a criança era levada ao seio ou que chorava por algum desconforto, a avó decretava: “ela está com fome. Seu leite não é bom, vai ter que começar a mamadeira”. Essa amiga amamenta até hoje a filha, hoje com 18 meses e nunca precisou iniciar complemento. Essa avó, quando mãe, nunca conseguiu amamentar; tentou durante os dois primeiros meses, e provavelmente, tem isso como uma grande frustração até hoje.

Quando estamos seguras de que o que fazemos pelo nosso filho é o melhor que podemos, de que nossas decisões foram tomadas com consciência, responsabilidade e amor, de que nossas escolhas são baseadas em uma relação de cumplicidade, verdade e entrega, não há palpite que nos abale. Aprendemos a enxergar o que é do outro naquela frase carregada de julgamentos, e a escutar o que realmente nos toca e pode nos ajudar. Aquilo que não nos serve, jogamos no lixo, junto com aquela faca de cozinha que estávamos querendo usar para exterminar o palpiteiro indesejado.

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2 comentários sobre “Sessão desabafo – Pitacos e frases capazes de levar a um homicídio

  1. “Nossa essa menina chora demais, deve ser fome, será que seu leite está fraco?” Aí no dia que decide que alguém dê mamadeira para poder dormir 5horas numa noite vem o comentário: “Mas você vai ter coragem de dar mamadeira? Não tem medo dela largar o peito?”. Tutu, você só esqueceu de colocar que o choro também pode ser “mau olhado” e a gente devia levar para benzer! Rs

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