Para meu coração teu peito basta

coraçãoMeu poema preferido, de Neruda, começa assim… Estava pensando como queria começar a escrever sobre um assunto tão cheio de sentimento, de coragem e de entrega e só me veio em mente esse poema.

Amamentação. É preciso ter muito peito para explorar esse ato em todas as suas nuances e verdades. Amamentar é lindo…. quando a mama não está ingurgitada, dolorosa, machucada. Quando o bebê está tranquilo, sereno, receptivo. Quando o ambiente nos é acolhedor, calmo, preparado. Quando nossa alma está em paz, e tão farta de prazer quanto a mama está cheia de leite. Se algum desses elementos não está em perfeita harmonia, amamentar pode se tornar um sofrimento, um misto de culpa, punição, desespero e desestímulo ao vínculo mãe-filho.

O início da relação mãe e filho é o momento em que esses dois seres, repletos de carências, inseguranças, angústias e estranhamento começam a se conhecer e a compartilhar a vida de uma maneira tão simbiótica e intensa que nenhum sentimento e nenhuma sensação é só de um. O bebê sente a dor na mama da mãe assim como a mãe sente a dor de cólica do recém-nascido. Seus sofrimentos se misturam, se fundem, se confundem. Por isso, quanto menos sofrido é esse início, maior a chance de que a relação evolua mais rápido para um convívio prazeroso e tranquilo.

Qual o real significado da amamentação? O leite materno é cheio de vitaminas, proteínas e anticorpos, preparado para o bebê, de fácil digestão… blábláblá. De que adianta um alimento tão maravilhoso ser dado à custa de sofrimento, de culpa, de angústia? O real significado da amamentação é o estreitamento dos laços entre mãe e filho. O olho no olho, o toque de carinho, o calor dos dois corpos unidos e dos dois corações batendo em sintonia. Se não há essa comunhão, a amamentação perde o sentido.

O que quero dizer é que para amamentar não é preciso que haja um peito cheio de leite e um bebê que suga ao seio. Para amamentar é preciso que haja uma comunhão de amor entre dois seres, um que deseja com todo seu âmago ser alimento e o outro, que deseja alimentar-se de toda a ternura que há ali. Mamadeiras podem ser muito mais ternas e acolhedoras do que mamas feridas e cheias de dor. O amor não está no ato em si, e sim em todo o contexto que o cerca. Em estar inteiro naquele momento, doar-se, aplacar a fome do bebê com compaixão e generosidade, sem que isto te custe lágrimas de dor e dias de angústia.

Não quero dizer que o ato de amamentar em si seja carregado de sofrimento. Nos primeiros dias sim, deve haver persistência e muita força de vontade para que o desconforto e a dor deem lugar ao prazer. Mas para algumas mães, esses “primeiros dias” tornam-se eternos, extremamente penosos e sofridos. E nesse caso, não há benefício que supere a dor. A dor física, e a dor emocional, de sentir-se incapaz, fraca, covarde, punida, egoísta, por querer jogar tudo para o alto, mandar para aquele lugar “as maravilhas do aleitamento materno” e permitir-se desistir. Às vezes, é preciso mais coragem para desistir do que para continuar… E às vezes não é preciso desistir, apenas enxergar a amamentação com mais leveza, menos rigor, maior flexibilidade.

Dói desistir. Dói continuar só pelo outro. Dói não querer estar ali. Dói querer estar ali mais do que nunca, só que de outra maneira. Dói sentir-se incompleta, incapaz, egoísta. Dói sentir-se objeto do outro, sem recompensas, sem gratidão, sem enxergar o produto imediato daquela entrega sem limites. Isso tudo dói muito mais que uma mama ingurgitada.

Falar da dor a faz menor. É como drenar o leite que se acumula. Falar da dor a torna humana, possível, aceitável. Falar da dor permite que ela se transforme. Em aceitação, em entendimento de si mesmo, em escolha. Quando a amamentação se torna a comunhão de dois seres famintos por entendimento, acolhimento e segurança, para meu coração, teu peito basta.

Este é meu poema preferido. Ele termina assim:

“eu despertei e às vezes emigram e fogem

pássaros que dormiam em tua alma.”

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