A Galinha, o Chuchu e o desejo

Parte I  – A Galinha

Lis, aquela menina leve, de pés descalços, blusa suja de amora, coração em pressa, alma livre e vida urgente estava quase fazendo seus dois anos. Já sabia que ia ter festa, falava inclusive que queria bolo, balão e pirulito, sonhando com o tal aniversário da Lis. Um dia contei a ela que para celebrar seus dois anos de pura brincadeira e alegria ela poderia escolher um presente. Sabendo de seu entusiasmo pelos bichos, de formigas a cavalos, e pensando que em alguns meses estaríamos nos mudando do apartamento para uma casa grande com quintal, perguntei logo:

– Lis, você quer um cachorrinho?

– Não mamãe.

– Um gato?

– Não mamãe.

– Um peixinho?

– Não mamãe.

– Então o que?

– Quero uma galinha! E preta, viu?!

Uma galinha! Pensei que seria coisa passageira, que logo esqueceria o desejo inusitado e pediria uma boneca ou patinete. Ledo engano. Lis passou os quatro meses que faltavam para seu aniversário sonhando com a tal galinha; era puro entusiasmo; a avó Gilda traria a galinha direto da fazenda dentro de uma caixa, ela comeria milho e bichinhos do quintal, ganharia carinhos, beijos e seria sua melhor amiga.

A pequena sempre gostou muito da fazenda. Quando íamos a casa da avó, passava o dia correndo atrás de patos e galinhas, andando a cavalo, abraçando cachorros e seguindo formigas e grilos pela grama. Então resolvemos que o presente de aniversário seria realmente a Galinha Preta. Minha sogra arquitetou o plano, pensou em qual seria o melhor tipo de galinha, sem esquecer o detalhe da cor. E então encontrou: uma galinha mansa, amistosa e preta.

Chegou então o grande dia. Lis era pura alegria quando viu surgirem os balões, a casa cheia, tantos abraços e paparicos naquele dia tão especial com o qual sonhara. Ganhou uma boneca com “bubu” da avó Márcia, ganhou panelinhas, bonequinhas, roupas de tios e amigos, mas vi brotar nela a ansiedade pelo encontro tão esperado com a amiga que vinha de longe…. E então, finalmente chegou a avó Gilda. Veio lá do Sul de Minas com uma grande caixa de papelão, cheia de furinhos. Veio com ela a  madrinha, trazendo um bolo em formato de cavalo e a festa pronta a acontecer.

O pai pegou a caixa com cuidado e colocou no quintal, de lá, tímida e assustada, saiu Pretinha, a galinha mais dócil e afetuosa que já vi. Lis tremia e dava gargalhadas de euforia e ansiedade. Quando pegou a galinha, com todo cuidado, com seus bracinhos fortes e jeitosos, sentiu chegarem seus dois anos com plenitude. Era seu desejo, ali, em seus braços; conquistado, realizado, vivo.

Parte II – o Chuchu

Otto, aquele bebê roliço e sorridente, começou a vida assustado, querendo que o mundo fosse um grande útero aconchegante e amigo, percebendo com estranhamento que por aqui “viver é perigoso e carece ter muita coragem”.

Em oito meses de vida experimentou muito choro, muito colo, muitas madrugadas de lua e estrela brilhando acordadas e insones. Em oito meses de vida experimentou bico, mas não gostou, experimentou mamadeira, mas não gostou, leite de latinha então, foi o fim da picada! Gostou mesmo foi de leitinho da mamãe, colo quentinho, paparico do papai e daqueles carinhos estabanados e cheios de amor (e ciúme) da irmã.

Otto ganhou uma “naninha”. Linda, vinda direto da Alemanha, trazida por uma tia avó muito amada por aqui. Nada. Não simpatizou, não teve aquela química, sabe? Aquela empatia…. Nada. Fraldinha? Nada. Camisola da mamãe? Nada. Bicho de pelúcia? Nada. E assim os meses foram se passando e Otto seguia agarrado àquele “mama da mamãe”, àquele viver perigoso, àquelas noites insones.

Até que chegou o dia de começar na escolinha. Eu, mãe, estava com aquele coração apertado, carregando aquela famigerada culpa que as mães compartilham, medo, apreensão. Como poderia, aquele menino tão meu, ser dele mesmo, assim, tão cedo!? Fomos ao sacolão pela manhã, e como sempre fazia, dei para cada um dos pequenos uma fruta ou legume para que se distraíssem. Lis ganhou uma laranja e Otto um chuchu. E foi aí que a mágica aconteceu.

Aquele legume, em forma de útero, conseguiu trazer meu menino para o mundo. Otto se agarrou ao chuchu e conquistou a segurança e a coragem de que precisava para existir. Naquela tarde fomos à escolinha, para o seu primeiro dia. Eu, ele e o Chuchu. Durante as quatro horas que ficamos por lá, o chuchu esteve presente, apertado entre aquelas mãozinhas roliças e ansiosas. Desde então, o chuchu virou um companheiro e está presente em todas as atividades da vida do pequeno. (Claro que tive que substituir o primeiro chuchu por outros, porque afinal, um chuchu não dura muitos dias…Mas mesmo assim, ele recebe o chuchu seguinte com o mesmo entusiasmo e urgência.)

As noites já estão mais doces e ternas para o meu pequeno. Os dias, repletos de alegrias e descobertas. Meu coração está mais leve e eu pronta para me redescobrir mulher, ter algumas horas para tomar um banho demorado, fazer xixi sem platéia, me olhar no espelho sem medo de encarar as novas ruguinhas trazidas por esses oito meses de entrega absoluta. Otto e seu chuchu também seguem, afinal “Deus nos dá pessoas e coisas,
para aprendermos a alegria…Depois, retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinhos…Essa… a alegria que ele quer”. Nada como Guimarães Rosa, para ajudar a encarar os perigos dessa vida.