Sobre a Mãe desnecessária

passaro fio

Queríamos três filhos. Pensávamos que desta maneira demoraria mais a nos tornarmos desnecessários. O primeiro filho vai estudar fora, o segundo se casa, e ainda tem um caçulinha para sentar à mesa aos domingos, comer macarronada e conversar sobre o Vestibular. Queríamos três filhos. Pensávamos nos muitos netos, casa cheia; noras, genros, agregados.

E hoje, na reunião de Pais da escola, fala-se na importância da “Mãe Desnecessária”. Acho que essas aspas nem deveriam estar aí…. Não foi figurativo. Foi sem as aspas mesmo.

Rubem Alves diz que amar é ter um pássaro pousado no dedo. Um pássaro no dedo é lindo, poético, delicado….mas desnecessário. Cair no chão e esfolar os joelhos, ralar a ponta do dedão do pé, engasgar com casca de uva, se lambuzar de terra, areia, tinta. Tudo desnecessário… Chorar por causa do primeiro namorado, queimar demais no sol e arder, tirar nota ruim na prova de matemática, chegar em casa depois do horário combinado, fazer tatuagem e pintar o cabelo de verde. Desnecessário.

Pensei muito. E percebi que ser desnecessário é permitir que a vida presenteie nossos filhos com todas as delícias e desgostos essenciais para nos tornarmos gente de verdade.

Amar é necessário. Beijo de sarar dodói é necessário. Tolerância, firmeza, equilíbrio e gentileza. Necessários.

A mãe desnecessária sabe oferecer ao filho as ferramentas que ele precisa para se tornar uma pessoa de bem, sem aprisionar sua alma. Ser porto seguro, sem muros. O pássaro no dedo.

Queremos três filhos. Acho que dessa maneira podemos ser pais desnecessários por mais tempo, quem sabe avós desnecessários também. E desta maneira, amar sem amarras, com aconchego e delicadeza. Coração cheio, mesmo com a casa vazia; e muitos, muitos pássaros pousados no quintal e na vida da gente.

 

 

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2 comentários sobre “Sobre a Mãe desnecessária

  1. Que beleza, Juliana. Dar muito gosto ver uma mãe jovem discorrer com tanta profundidade sobre um tema verdadeiro e importante sem ficar parodiando os chavões e incompreensões que o banalizaram na enxurrada de repetições a que ficou submetido. Você é demais! Que venha a terceira graça!

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