(Des)Cuidando de dois

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Há dois anos e quatro meses nasceu minha pequena flor. Há quase onze meses recebi em meus braços a fofura do Otto.  Há tempos venho querendo escrever sobre a rotina de ter dois filhos pequenos, sobre minhas percepções, minha rotina enlouquecedora, as delicias e desesperos de um dia-a-dia em família com dois bebês em casa.

Hoje, quando saía da escolinha, abri a porta da frente do carro, como faço habitualmente e coloquei a Lis no banco do motorista, juntamente com zilhões de bolsas, lancheiras e mochilas. Enquanto ela remexia os esconderijos do carro a procura de balas e biscoitos fui colocar o Otto em sua cadeirinha. Voltei ao banco da frente e ao pegá-la no colo: “Mamãe, xixi! Xixi! Xixi!”. Rapidamente ajudei a tirar a calça e o tênis e o xixi escorreu pela calçada, enquanto lógico (sempre nessas horas) passava a diretora da escola, que gritou: “essa vai para o Blog, ein?!”. Pois veio.

Quando estava grávida do Otto minha maior insegurança era em relação a amamentação e aos períodos de sono. Como conciliar os horários e prioridades do pequeno com a demanda exigente e urgente da Lis. Li várias estratégias, como por exemplo dar uma caixa cheia de objetos interessantes para a mais velha se distrair enquanto amamentava, ou fazer o pequeno dormir no Sling enquanto brincava na pracinha com a primogênita. Na prática, a caixa de objetos durava cinco segundos e a amamentação uma eternidade… e no fim acabava a Lis pendurada nas minhas costas ou lambendo a cabeça do Otto enquanto eu me contorcia para tentar amamentar de maneira tranquila. O sono no Sling durante os passeios na pracinha até funcionou, mas qual a mãe que aguenta passear todas as manhãs na pracinha, depois de passar a noite acordada amamentando e ninando um recém nascido por mais de uma semana?! Então, a maioria das vezes, o Otto dormia em seu berço mesmo e era acordado infindáveis vezes pelo barulho das brincadeiras da irmã, pelos seus beijos melados ou choros e birras que “coincidentemente” sempre aconteciam na porta do quarto dele.

O ciúme da irmã mais velha também me preocupava. Quando fui à maternidade, preparei o terreno em casa dizendo à Lis que iria ao Hospital buscar o Otto, que finalmente sairia da minha barriga para brincar com ela. A deixei em casa em companhia das duas avós e do pai, e quando ela finalmente foi conhecer o irmão que tanto esperara, ela estava só sorrisos. Um sorriso nervoso, que denunciava o pavor de ser trocada, substituída por aquele pequeno ser que monopolizava meu colo e meu seio. Deve ser mesmo aterrorizante. Além disso, ela, que esperava um companheiro para brincar, não entendeu nada quando se deparou com um bebê “molenga”, que só chorava, não falava, não andava, não entendia seus sinais…. como esse irmão iria brincar com ela!? Deve ter me achado a maior mentirosa do mundo!!

Então começaram os “carinhos”. Aqueles abraços e beijos propositalmente estabanados munidos de sentimentos ambíguos e confusos. Aqueles tapinhas, puxões de cabelo e belisquinhos escondidos que faziam o pequeno chorar de repente, e ela matreira, fazia cara de que nem estava por ali. Os acordares noturnos, as birras, as manhas, o “bubu” mais companheiro do que nunca. E nós sempre com ternura, firmeza e paciência, tentávamos dar segurança a ela e proteção a ele, e vice versa.

Eu sabia que não ia ser fácil. Mas nunca imaginei que seria tão difícil. Quantas vezes me sentei ao lado dos dois enquanto choravam, e chorei junto. Quantas vezes fiquei paralisada por não saber qual demanda atender primeiro. Quantas vezes me senti injusta com um dos dois, ou comigo mesma, ou com meu marido.

Até que os dias foram ficando mais claros, as noites mais serenas, e eu consegui respirar e ter o coração mais tranquilo novamente. Quando foi? Quando Otto começou a sentar, ele já podia brincar e interagir mais com a irmã. Quando começou a dormir a noite inteira, eu não acordava mais como um zumbi e conseguia ter mais paciência e energia para estar com os dois. Quando Lis começou a ter segurança sobre seu lugar, e dar espaço para as sonecas do irmão, para a hora do “mamá”, e percebeu que as brincadeiras com a avó e o pai faziam mais suave a hora de compartilhar a mãe com aquele amado intruso, assim eu pude aproveitar mais o tempo com os dois e com cada um. Quando Otto começou na escolinha, eu pude tomar um banho demorado (uhuuu!), tirar uma soneca caprichada a tarde e estar um pouco comigo mesma.

E assim os dias vão se passando. Num balanço entre exaustão e prazer, divido meu tempo e atenção entre os pequenos e aprendo a lidar com os desafios do dia-a-dia vivendo um dia de cada vez. É delicioso ter dois filhos. É encantador vê-los aprendendo a brincar juntos e a se amar. É desafiador educar ensinando a respeitar o espaço do outro, a compartilhar os prazeres, entender os próprios sentimentos e inseguranças.

Hoje de manhã, enquanto arrumava os dois no carro para ir para a escola, coloquei a Lis no banco da frente, o Otto em sua cadeirinha e voltei em casa para pegar a bolsa. Quando voltei, ela tinha dado para o Otto uma banana que encontrou no porta-luvas; como se não bastasse, achou que o irmão estava com sede e ofereceu a ele uma garrafinha de água mineral. Otto ensopado, era pura banana e alegria. Ela, mais satisfeita impossível, por ter proporcionado um lanche digno de rei ao irmão. Eu, senti cócegas na alma. Fomos assim mesmo. Quer prova maior de felicidade que uma blusa suja de banana e amor de irmã?!

Ovo virado

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Hoje acordei com um mau humor que há muito não tinha. Daqueles que o marido só de ver seu olhar se encolhe e vai fazer o café da manhã e as mamadeiras das crianças sem dar um “piu”, sabem?

Passei o dia azeda. Brava, incompreendida, desaforada, intolerante. Querendo ir comprar aquele cigarro na esquina e não voltar (não, eu não fumo), ou fazer as malas e ir pra Bali, ou mesmo dormir e só acordar daqui há um mês.

Sabem o que eu queria? Pensei muito e a princípio achei que queria passar um dia de rainha: massagem, banhos relaxantes, alta gastronomia, nenhum choro de bebê, ninguém me pedindo para brincar de neném, nenhuma fralda de cocô para limpar (ainda mais depois de três dias de gastroenterite do Otto), nenhuma roupa para lavar, nenhum marido cobrando porque o pó de café acabou ou esqueci a mamadeira suja em cima da pia do banheiro. Mas não era isso….

Na verdade eu queria acordar em uma vila. Uma aldeia. Queria acordar e ver mulheres fazendo o pão juntas, a contar histórias de vida e cantar cantigas de roda. Ver crianças correndo, alegres e livres, de mãos e corações dados, plenas, sem demandas de presença constante e marcante de pais extenuados porque sabem que a vida é maior que isso. Que o mundo é maior que seu quintal. Que precisam de encontros, de outros, de estar em grupo, de se formarem cidadãos do mundo.

Eu queria não ter caído na “armadilha da Mulher Maravilha” (http://www.amamentareh.com.br/mulher-maravilha/), queria uma sociedade mais solidária, menos solitária e individualista. Queria que Piquenique no quintal com as crianças e mães do CLIC fosse o pão de cada dia. Que estar em grupo não fosse coisa de “WhatsUp”, e sim de vida real. Que cafés com as amigas de infância fossem mais fáceis e frequentes.

Estou carente. Carente de mim mesma, de minha “tribo”, de uma aldeia onde eu possa existir além de mim mesma e aquém do outro. Quero que meus filhos tenham a oportunidade de serem para além deles mesmos. Que daqui há décadas se lembrem das histórias das avós, sobre o “mundo antigo”, sobre conchas e colchas de retalhos, sobre as fotos amareladas no álbum gasto. Que se lembrem do porteiro do prédio, que sempre abraçam com ternura, e com quem passeiam de mãos dadas pela manhã. Que se lembrem da vizinha que toca a campainha na casa da avó e sempre chega com mimos e contos. Que se lembrem que colhiam flores e amoras para dar àqueles que amavam, e de como era fácil e terno amar alguém.

Pretinha, a galinha da Lis, botou um ovo. Desde dezembro, quando chegou, ela vivia solitária, a bicar torrões de terra no quintal e pedir carinhos aos pequenos. Vinha se deitar perto de nós quando estávamos lá fora, corria em disparada para entrar em casa assim que abríamos a porta e agitava as asas alegre e faceira, achando que dessa vez não seria convidada a voltar para o quintal. Até que essa semana, resolvemos trazer Margarida para lhe fazer companhia. Uma amiga galinha, preta como ela, mais arisca e menos amistosa, muito falante e ativa e igualmente simpática. Uma colega da mesma “tribo”.

Assim que Margarida chegou Pretinha ficou irritadíssima. Sem a menor cerimônia, deu um “couro” na coitada, que saiu a gritar e se esconder entre as bananeiras. Pensou: “Mais essa! Tenho migalhas de carinho entre os abrires e fechares dessa maldita porta e agora essazinha ainda vem para dividí-los comigo!”. Na primeira noite, ao perceber que Margarida dividiria com ela seu poleiro acordou a casa inteira gritando indignada, a dar escândalo. Júlio, com aquela praticidade e objetividade digna dos homens, não pensou duas vezes, trancou as duas no quartinho apesar dos protestos, para que se entendessem por lá.

E deu certo. no dia seguinte Pretinha e Margarida acordaram amigas, a falar sobre minhocas e grãos de milho, a ciscar juntas os torrões de terra. Foi então que se deu o o(vo)corrido. Estava eu na cozinha lavando alguns pratos e Pretinha deu um grito estridente e começou a bicar a porta. Fui até ela e o vi. Um presente: O Ovo. Abri a porta, e ela orgulhosa, bicava o feito. Peguei o ovo ainda quente em minhas mãos, emocionada, surpresa e orgulhosa de Pretinha. Então entendi. Pretinha precisava de uma companheira para aprender a se tornar galinha.

Nós precisamos. Precisamos de gente. Para aprender a pertencer a nós mesmos e ao mundo.

Falei com Júlio que queria usar o computador. Ele, ainda cabreiro pelo mau humor do dia, disse: “Vai logo, você está precisando escrever”. Então deu-se novamente. Eis aqui o ovo, o presente.