Ovo virado

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Hoje acordei com um mau humor que há muito não tinha. Daqueles que o marido só de ver seu olhar se encolhe e vai fazer o café da manhã e as mamadeiras das crianças sem dar um “piu”, sabem?

Passei o dia azeda. Brava, incompreendida, desaforada, intolerante. Querendo ir comprar aquele cigarro na esquina e não voltar (não, eu não fumo), ou fazer as malas e ir pra Bali, ou mesmo dormir e só acordar daqui há um mês.

Sabem o que eu queria? Pensei muito e a princípio achei que queria passar um dia de rainha: massagem, banhos relaxantes, alta gastronomia, nenhum choro de bebê, ninguém me pedindo para brincar de neném, nenhuma fralda de cocô para limpar (ainda mais depois de três dias de gastroenterite do Otto), nenhuma roupa para lavar, nenhum marido cobrando porque o pó de café acabou ou esqueci a mamadeira suja em cima da pia do banheiro. Mas não era isso….

Na verdade eu queria acordar em uma vila. Uma aldeia. Queria acordar e ver mulheres fazendo o pão juntas, a contar histórias de vida e cantar cantigas de roda. Ver crianças correndo, alegres e livres, de mãos e corações dados, plenas, sem demandas de presença constante e marcante de pais extenuados porque sabem que a vida é maior que isso. Que o mundo é maior que seu quintal. Que precisam de encontros, de outros, de estar em grupo, de se formarem cidadãos do mundo.

Eu queria não ter caído na “armadilha da Mulher Maravilha” (http://www.amamentareh.com.br/mulher-maravilha/), queria uma sociedade mais solidária, menos solitária e individualista. Queria que Piquenique no quintal com as crianças e mães do CLIC fosse o pão de cada dia. Que estar em grupo não fosse coisa de “WhatsUp”, e sim de vida real. Que cafés com as amigas de infância fossem mais fáceis e frequentes.

Estou carente. Carente de mim mesma, de minha “tribo”, de uma aldeia onde eu possa existir além de mim mesma e aquém do outro. Quero que meus filhos tenham a oportunidade de serem para além deles mesmos. Que daqui há décadas se lembrem das histórias das avós, sobre o “mundo antigo”, sobre conchas e colchas de retalhos, sobre as fotos amareladas no álbum gasto. Que se lembrem do porteiro do prédio, que sempre abraçam com ternura, e com quem passeiam de mãos dadas pela manhã. Que se lembrem da vizinha que toca a campainha na casa da avó e sempre chega com mimos e contos. Que se lembrem que colhiam flores e amoras para dar àqueles que amavam, e de como era fácil e terno amar alguém.

Pretinha, a galinha da Lis, botou um ovo. Desde dezembro, quando chegou, ela vivia solitária, a bicar torrões de terra no quintal e pedir carinhos aos pequenos. Vinha se deitar perto de nós quando estávamos lá fora, corria em disparada para entrar em casa assim que abríamos a porta e agitava as asas alegre e faceira, achando que dessa vez não seria convidada a voltar para o quintal. Até que essa semana, resolvemos trazer Margarida para lhe fazer companhia. Uma amiga galinha, preta como ela, mais arisca e menos amistosa, muito falante e ativa e igualmente simpática. Uma colega da mesma “tribo”.

Assim que Margarida chegou Pretinha ficou irritadíssima. Sem a menor cerimônia, deu um “couro” na coitada, que saiu a gritar e se esconder entre as bananeiras. Pensou: “Mais essa! Tenho migalhas de carinho entre os abrires e fechares dessa maldita porta e agora essazinha ainda vem para dividí-los comigo!”. Na primeira noite, ao perceber que Margarida dividiria com ela seu poleiro acordou a casa inteira gritando indignada, a dar escândalo. Júlio, com aquela praticidade e objetividade digna dos homens, não pensou duas vezes, trancou as duas no quartinho apesar dos protestos, para que se entendessem por lá.

E deu certo. no dia seguinte Pretinha e Margarida acordaram amigas, a falar sobre minhocas e grãos de milho, a ciscar juntas os torrões de terra. Foi então que se deu o o(vo)corrido. Estava eu na cozinha lavando alguns pratos e Pretinha deu um grito estridente e começou a bicar a porta. Fui até ela e o vi. Um presente: O Ovo. Abri a porta, e ela orgulhosa, bicava o feito. Peguei o ovo ainda quente em minhas mãos, emocionada, surpresa e orgulhosa de Pretinha. Então entendi. Pretinha precisava de uma companheira para aprender a se tornar galinha.

Nós precisamos. Precisamos de gente. Para aprender a pertencer a nós mesmos e ao mundo.

Falei com Júlio que queria usar o computador. Ele, ainda cabreiro pelo mau humor do dia, disse: “Vai logo, você está precisando escrever”. Então deu-se novamente. Eis aqui o ovo, o presente.

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