O amor está em outro lugar

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Grande parte das vezes os relacionamentos se constroem  baseados em testes e provas de amor. Lembrar a data do primeiro beijo, dar flores no dia dos namorados, fazer elogios, marcar a vida a dois com pequenos feitos e atitudes que reafirmem dia após dia esse sentimento que tanto se preza e busca.

Então eis que nascerá um filho. E mais do que nunca há que se provar o amor. Um ultrassom por mês para ver como cresce o pequeno, enxoval completo, de preferência comprado em Miami, Chá de bebê com toda pompa e circunstância, todos os luxos e mimos que aquele pequeno ser merece para se sentir amado e protegido.

Otto fez aniversário. Lis quis escolher um presente para o irmão. O fez um mês antes da data escolhida para a comemoração e até a semana do aniversário repetia para quem quisesse ouvir: “vou dar ao Otto o neném na mala”. Era uma bonequinha, de roupa e chapéu verdes, que vinha dentro de uma mala de zíper e rodinhas, com vários apetrechos: bico, mamadeira, pratinho, etc. E deu, feliz da vida, o presente com o qual o irmão não brincou nem cinco minutos, pois aquele presente que deu ao irmão sempre pertenceu a ela mesma. O presente pertence a quem o escolhe.  O amor está em outro lugar.

Decidi que era a hora da Lis parar de chupar bico. Assim, de maneira um tanto tirana, embasada na angústia de ver a arcada da pequena sofrendo modificações pela presença constante daquele amado “bubu”. Pedi a ela que escolhesse um bichinho de presente para substituir o “Bubu”, então, ela daria o bico a vendedora e em troca receberia o animalzinho de sua preferência. Lis, com sua declarada queda por galináceos, ficou em dúvida entre quatro tipos diferentes – uma codorna, uma mini galinha preta, um pintinho e um galinho garnizé (mesmo que eu dissesse que ela poderia escolher um coelho, peixe, cachorro, gato, hamster…) e acabou elegendo o pintinho. Eu estava insegura, sobre como seriam as noites e os dias dali pra frente, quando ela percebesse que havia feito uma troca definitiva. Me senti precipitada, culpada, cruel. Lis ficou irritada por uns três dias, teve um ataque de choro na segunda manhã de ausência do “bubu”, e lá se vai um mês desde então… Pedro, o pintinho já virou frango. Quando repensei minha decisão, depois dos três primeiros dias, vi que o amor sempre esteve ali, a culpa é que deveria estar em outro lugar.

Hoje acordei muito irritada. Perdi a paciência várias vezes com meus pequenos, estava muito cansada e sobrecarregada pelos afazeres intermináveis de alguém que tem uma família, uma casa e uma profissão para gerir. Deixei os pequenos na escola com um misto de alívio e culpa. Não brinquei o suficiente, não tive a paciência que deveria, não fui exemplo de equilíbrio e autocontrole. Então depois de mais alguns afazeres, me permiti ao fim da tarde, um chá com bolo e trinta minutos de respiro e paz. Pude me reconhecer ali; tão frágil, tão só, tão pequena… Uma menina-mãe tentando acertar, tentando cuidar, sem se preocupar em ser cuidada, em ser acolhida, em ser amada. O amor estava ali, e ali, encontrei também espaço para o perdão.

E assim, entre galinhas, ovos, pintos e frangos, se passam os meus dias por aqui. Tentando encontrar lugar para tantas coisas e sentimentos. Sem me lembrar de datas, sem provas de amor, sem presentes. Mas com empenho em fazer florescer a tolerância, a gratidão, o perdão e o amor.

Na semana passada, eu e meu marido fizemos seis anos de casados. Não nos lembramos. Três dias depois, aproveitando uma folga inesperada, pedimos a minha mãe para ficar com os pequenos por algumas horas para irmos a um restaurante comer alguma coisa. Ela logo disse: “Ah, vão comemorar o aniversário de casamento, não é?”. Nós dois surpresos, nos demos conta de que havíamos esquecido a data. Fomos ao restaurante, felizes, saciados que estávamos de vida em família e companheirismo. Naquele dia, como em tantos outros, em que a vida nos presenteia com pequenas lições de humildade, simplicidade, suavidade…. o amor estava em seu devido e merecido lugar.

 

 

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“Mamãe, o Hugo é preto”

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Foi assim, de sopetão. Indo para a colônia de férias, em meados de janeiro, dentro do carro, Lis me disse:

– Mamãe, o Hugo é preto.

Hugo, o professor de música. Até aquele momento Lis nunca havia usado cores para adjetivar pessoas. Foram trinta segundos de silêncio (que pareceram 10 anos), pensando em como continuar aquele diálogo. Então eu disse:

– Hugo é preto? E quem mais é preto, filha?

– Minha galinha, Pretinha.

– A Pretinha é bonita, Lis?

– Sim mamãe, ela é linda.

– E o Hugo, é bonito?

– Sim, o Hugo é bonito também.

-E você filha, de que cor é?

– A Lis é colorida!

E assim fomos, a caminho da escola, falando sobre pessoas pretas, brancas, vermelhas, verdes, coloridas. Foi uma conversa leve e divertida, mas a partir dela comecei a me questionar sobre como ensinar a pequena a lidar com as diferenças.

Discutindo sobre educação em um grupo de pais, o tema foi identidade de gênero. Como não seguir estereótipos e vícios na educação dos filhos para que tenhamos um mundo mais igualitário e justo? Como quebrar o padrão e participar da construção de uma sociedade menos machista e excludente?

Por aqui, atividades e afazeres domésticos são divididos igualmente, sempre em tom de brincadeira – Otto e Lis fazem pão e bolo juntos, arrumam seus brinquedos, limpam o cocô do Pintinho Pedro (novo membro da família que apresentarei no próximo Post). Lis me ajuda a colocar a roupa para lavar e a pendurá-la, os dois me ajudam a lavar louça, e vamos seguindo de maneira natural e lúdica, sem pensar muito em desmitificar o homem que realiza trabalhos domésticos ou em romper com estereótipos.

Tem sido assim. Natural, livre, leve. Otto usa macacão lilás de flores e Lis usa pijama de dinossauros. Otto vai andar de bicicleta com o pai com o capacete rosa choque da irmã e Lis brinca com o caminhaozinho de madeira que compramos no Mercadão. A boneca de lacinho rosa no cabelo se chama Pururuco. Lulu, a amiguinha da Lis que sempre vem brincar aos fins de semana, traz seu arsenal de super-heróis e é fã do Homem Aranha. Acredito que esse transitar por masculinidades e feminilidades, essa possibilidade de representar papéis sociais diferentes e imitar para desenvolver-se é o que vai formar meus filhos seres capazes de se posicionar no mundo com autonomia e respeito às diferenças.

Daqui há alguns anos, naturalmente, eles mesmos vão sentir necessidade de testar seus papéis sociais e afirmar suas identidades de gênero. Nesse momento acredito que a bagagem de experiências que tiveram em casa e na escola, que os ajuda dia-a-dia a formar essa identidade será o principal recurso que terão para conviver em sociedade. Mesmo que Otto seja excluído de uma brincadeira de “comidinha” no quintal da escola por ser menino, ou que seja negada a Lis a vaga no time de futebol, por ser menina, eles saberão que cozinhar ou jogar futebol não são atitudes determinantes de gênero ou caráter. Isso não os destituirá de si mesmos.

No fundo e na superfície, todos nós somos um misto de atitudes e sentimentos femininos e masculinos. No fundo e na superfície todos nós somos um misto de cores e saberes afro, índio e eurodescendentes. No fundo e na superfície todos nós temos deficiências e eficiências diversas. Acho que para uma sociedade mais inclusiva e justa, antes de qualquer coisa precisamos é nos tornar mais coloridos.