“Mamãe, o Hugo é preto”

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Foi assim, de sopetão. Indo para a colônia de férias, em meados de janeiro, dentro do carro, Lis me disse:

– Mamãe, o Hugo é preto.

Hugo, o professor de música. Até aquele momento Lis nunca havia usado cores para adjetivar pessoas. Foram trinta segundos de silêncio (que pareceram 10 anos), pensando em como continuar aquele diálogo. Então eu disse:

– Hugo é preto? E quem mais é preto, filha?

– Minha galinha, Pretinha.

– A Pretinha é bonita, Lis?

– Sim mamãe, ela é linda.

– E o Hugo, é bonito?

– Sim, o Hugo é bonito também.

-E você filha, de que cor é?

– A Lis é colorida!

E assim fomos, a caminho da escola, falando sobre pessoas pretas, brancas, vermelhas, verdes, coloridas. Foi uma conversa leve e divertida, mas a partir dela comecei a me questionar sobre como ensinar a pequena a lidar com as diferenças.

Discutindo sobre educação em um grupo de pais, o tema foi identidade de gênero. Como não seguir estereótipos e vícios na educação dos filhos para que tenhamos um mundo mais igualitário e justo? Como quebrar o padrão e participar da construção de uma sociedade menos machista e excludente?

Por aqui, atividades e afazeres domésticos são divididos igualmente, sempre em tom de brincadeira – Otto e Lis fazem pão e bolo juntos, arrumam seus brinquedos, limpam o cocô do Pintinho Pedro (novo membro da família que apresentarei no próximo Post). Lis me ajuda a colocar a roupa para lavar e a pendurá-la, os dois me ajudam a lavar louça, e vamos seguindo de maneira natural e lúdica, sem pensar muito em desmitificar o homem que realiza trabalhos domésticos ou em romper com estereótipos.

Tem sido assim. Natural, livre, leve. Otto usa macacão lilás de flores e Lis usa pijama de dinossauros. Otto vai andar de bicicleta com o pai com o capacete rosa choque da irmã e Lis brinca com o caminhaozinho de madeira que compramos no Mercadão. A boneca de lacinho rosa no cabelo se chama Pururuco. Lulu, a amiguinha da Lis que sempre vem brincar aos fins de semana, traz seu arsenal de super-heróis e é fã do Homem Aranha. Acredito que esse transitar por masculinidades e feminilidades, essa possibilidade de representar papéis sociais diferentes e imitar para desenvolver-se é o que vai formar meus filhos seres capazes de se posicionar no mundo com autonomia e respeito às diferenças.

Daqui há alguns anos, naturalmente, eles mesmos vão sentir necessidade de testar seus papéis sociais e afirmar suas identidades de gênero. Nesse momento acredito que a bagagem de experiências que tiveram em casa e na escola, que os ajuda dia-a-dia a formar essa identidade será o principal recurso que terão para conviver em sociedade. Mesmo que Otto seja excluído de uma brincadeira de “comidinha” no quintal da escola por ser menino, ou que seja negada a Lis a vaga no time de futebol, por ser menina, eles saberão que cozinhar ou jogar futebol não são atitudes determinantes de gênero ou caráter. Isso não os destituirá de si mesmos.

No fundo e na superfície, todos nós somos um misto de atitudes e sentimentos femininos e masculinos. No fundo e na superfície todos nós somos um misto de cores e saberes afro, índio e eurodescendentes. No fundo e na superfície todos nós temos deficiências e eficiências diversas. Acho que para uma sociedade mais inclusiva e justa, antes de qualquer coisa precisamos é nos tornar mais coloridos.

 

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