Liberdade

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Tenho lido e conversado muito, sobre coisas diversas. Hoje cheguei a conclusão de que todos esses assuntos convergem para um só: a liberdade.

Medicalização na Infância é um assunto que me provoca. Diagnosticar os problemas de uma sociedade como doença do indivíduo é muito cômodo. Anestesiar, massificar, adequar aquele que não se encaixa no que uma sociedade estipula como normal e aceitável é um caminho muito mais fácil e menos perigoso do que questionar os rumos de uma sociedade que adoece, que vitimiza, que despersonifica. Medicalizar é “curar” a liberdade de ser. Medicalizar é tirar a liberdade de um indivíduo de crescer; seja pela dor, pelo sofrimento, pela responsabilização por seus atos, pela responsabilização pelo seu filho, pela responsabilização por seus alunos. Liberdade dói.

O papel do machismo na criação de nossos filhos e as discussões sobre gênero e sexualidade são tema constante de discussão no grupo sobre educação do qual participo. Valorizar a potência de cada um (frase dita por uma recém amiga querida), perceber e valorizar o seu feminino, o seu masculino, sem que para isso seja necessário diminuir o outro, subjugá-lo, é o caminho para uma relação mais igualitária entre os gêneros. E para criar filhos que transitem entre seus “eus” femininos e masculinos de maneira saudável e segura. Liberdade de se expor, de se travestir de cores diversas, de transitar por nuances femininas e masculinas do ser e proporcionar essa liberdade aos nossos filhos; sem medo, sem que dessa maneira sejamos classificados, julgados, diagnosticados. Liberdade transforma.

A maternidade pode ser terrivelmente aprisionante, e pode ser libertadora. Conduzir o filho ao lugar onde antes habitava a falta, a insatisfação, a carência é aprisionar sua alma. Lendo “A maternidade e o encontro com a própria sombra”, percebo como esse movimento de construção do indivíduo é árduo. Como temos que nos desprender de padrões e repetições para que nossos filhos tenham segurança para seguir.  Como temos que nos libertar de nós mesmos para proporcionar autonomia aos nossos filhos. Como temos que olhar pra fora…. quando olhamos para além da maternidade, permitimos que nossos filhos enxerguem o outro e busquem a si mesmos. Liberdade emancipa.

E é no relacionar-se com o outro que a liberdade se torna amadurecimento. Poder estabelecer uma relação de parceria sem que para isso tenhamos que oprimir o outro ou anular nossos desejos e necessidades. Respeitar os espaços, transitar pelas dificuldades e realizações do outro com delicadeza, empatia e cuidado. Saber reconhecer o que é meu, sem culpabilizar e responsabilizar o outro por minhas insatisfações. Liberdade aproxima.

Sejamos livres para construirmos a cada dia seres humanos únicos e socialmente responsáveis. Indivíduos seguros, autônomos e éticos. Sejamos livres a ponto de alcançarmos a harmonia com o todo, sem perdermos nossa identidade. E que saibamos respeitar a liberdade dos que nos rodeiam, de seguir, de discordar, de serem diferentes.

Diante de todos esses assuntos únicos em sua complexidade, chego a conclusão de que há algo mais. Só conseguimos alcançar e proporcionar ao outro a liberdade quando agimos com zêlo, dedicação e cuidado. Portanto, acho que no meu caso, antes de buscar a liberdade, acho que sempre existiu a busca pelo Amor. Amor liberta.

 

 

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A maldade dentro de cada um…

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Nas últimas duas semanas fui convidada e refletir sobre a maldade que guardamos dentro de nós mesmos, sobre como ela aparece no  nosso dia-a-dia e como trabalhar isso na vida de nossas crianças.

Todos nós, em diferentes intensidades, alguma vez na vida, já nos deparamos com situações onde o MAL impera. Partindo de nós mesmos ou do outro, esse sentimento vestido de atitude é ao mesmo tempo temido, rejeitado, negado e vital.

O ser humano tem maldade dentro de si. A criança que arranca as patas da formiga, a senhora que mata a galinha para comer, o cirurgião que corta a carne de seu paciente, o irmão que empurra aquele que está aprendendo a andar, aquele comentário maldoso sobre o colega de trabalho. Pequenas maldades nossas de cada dia, que impulsionadas pela vivência de cada um fazem a roda da vida girar e nos ajudam a sobreviver em um mundo nada gentil.

A forma de lidarmos com a maldade que vivenciamos é a principal arma que temos para fazer de nosso MAL, uma ação produtiva. Pintar um mundo cor de rosa, ensinar a nossos filhos a se conterem frente a situações em que estão insatisfeitos ou infelizes, podar suas explosões de raiva ou cercear suas manifestações de agressividade é fechar os olhos para o MAL de cada um.

No final da faculdade, fui com alguns amigos para a fazenda de um grande amigo, no Norte de Minas. Logo à chegada , havia uma grande comoção na fazenda pois no dia seguinte haviam planejado matar um porco em homenagem a nossa chegada. (Com o tempo aprendi que no campo, existem algumas situações de extremo significado e importância para a comunidade e a família. Matar um porco era uma dessas ocasiões.)

O dia seguinte chegara, e o momento de matar o porco também. Achando que seria uma grande honra, me ofereceram a oportunidade de ser eu mesma, o carrasco do porco. Naquele momento, sem dúvida ou apreensão aceitei o desafio. O pai de meu amigo, me ensinou a empunhar a faca e a técnica para o assassinato do bicho.

Matei o porco.

Matei ali também muito da maldade que vivi, que vi, que sofri até ali. Eu me deparei com a maldade que há dentro de mim…e pude fazer dela algo produtivo. Hoje em dia, em meu ofício diário, mato um leão por dia. Uso minha maldade, minha agressividade, para salvar vidas. Minha maldade é vital, e é produto das maldades que vi e vivi.

Antes de lidar com a maldade que vem à tona quando confrontamos nossos filhos, precisamos ter a coragem de encarar nossa própria maldade. Onde ela está? Em quê eu transformei tudo de feio e MAU que vivi até aqui? Qual o sentimento que me toma?

Com meus pequenos, tento ajudá-los a enxergar seus sentimentos nos momentos de explosão e raiva. É muito difícil ter empatia e paciência quando seu filho está reativo e agressivo, mas ao mesmo tempo esse momento pra ele é importante e necessário. A que se colocar limites quando a maldade fere a ele mesmo e aos outros, até porquê esse contorno do outro, esse limite entre o ímpeto e a ação ele só vai aprender por si mesmo quando tiver maturidade para construir sua própria autonomia e empatia.

Há uns dois meses fui chamada na escola porque Otto estava mordendo e beliscando os amigos. Estava agressivo e não aceitava os limites que lhe impunham. Em casa era doce e tranquilo, porém submetia-se aos ataques de ciúme, aos carinhos desajeitados e algumas vezes hostis da irmã, e tinha diariamente seus espaços tomados por ela. Logo vi que ele experimentava a maldade em casa, e a distribuía na escola. Conversei com a Lis sobre isso, e perguntei se era isso que ela queria ensinar ao irmão, se ela gostaria que ele se relacionasse com os amigos dele dessa forma. Ela então passou a tratar o irmão com mais carinho e respeito e a expressar sua insatisfação em relação a ele em palavras. Por incrível que pareça, depois disso Otto começou a direcionar sua raiva e agressividade para a própria irmã, e desde então os dois vão se testando e moldando seus limites, nessa troca de carinhos e maldades diárias…

Assim vamos seguindo… encarando e aceitando as maldades de cada um, sem hipocrisia nem medo, porém lançando mão de sentimentos como empatia e de atitudes como gentileza e respeito. Para que todos por aqui consigam matar seus porcos e sobreviver a esse mundo hostil.

Viver é perigoso…

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Semana passada eu trouxe uma cobrinha pra casa, que foi deixada no meu trabalho. Era uma falsa-coral, e ela precisava ser solta na natureza para continuar cumprindo seu papel de bicho solto e feliz.

Acordei no dia seguinte muito entusiasmada, e convidei Lis a soltar a pequenina na matinha próxima de casa. A princípio recebeu o convite com estranheza… me olhou desconfiada e apreensiva, sem entender a importância da liberdade daquele ser pequenino. Expliquei-lhe que deveríamos tratá-la com delicadeza, prudência e respeito e que ela precisava encontrar -se com seus semelhantes, construir uma nova casa e viver a liberdade que a vida lhe deu, e o homem havia tirado.

A pequena então pegou com muito cuidado e curiosidade o potinho onde a cobrinha estava e quis levar até o local escolhido. Perto do riachinho achamos que seria um bom local, abri então o recipiente, e Lis fez cair na folhagem o bichinho. Ficamos ainda alguns segundos a olhá-la e Lis disse que a cobrinha  iria em busca do “CLIC” dela, para brincar com os amigos. Em seguida fomos a matinha de bambu, aonde fica o buraco do Lobo Mau, e Lis contou a ele sobre a cobrinha e sua aventura.

A natureza é o alimento principal para brincadeiras e vivências do dia-a-dia por aqui. Comer amoras, fazer bolo de terra, correr na grama, aprender o nome das flores e ouvir o canto dos passarinhos são privilégios que a vida proporcionou aos meus pequenos e que acredito serem atitudes que ajudarão na formação de seus valores. O ser humano que cresce em contato com a Natureza aprende a respeitá-la, a enxergar pequenas belezas, a ter delicadeza e respeito no lidar com o outro.

Outro alimento para as brincadeiras que sempre aparece por aqui é o Medo. Sim, o medo por aqui é um grande aliado e companheiro. Para que isso ocorra, não encaramos esse sentimento como algo que limita e aprisiona. O medo é um sentimento que nos prepara para a ação. Que nos ajuda a planejar, a conhecer nossos limites, e a encontrar dentro de nós mesmos a medida da coragem que precisamos para seguir.

As brincadeiras com o Lobo Mau, a Bruxa, o Bicho Papão, o medo de escuro, o medo de aranha, de cair da árvore, de estar só. Cada uma dessas experiências nos apresenta um pouco de nós mesmos. Como lidamos com o desconhecido, com o feio, com o mau. É preciso confrontar as crianças em situações onde elas sejam colocadas nesse lugar desconfortável, para que elas encontrem dentro delas mesmas elementos para se fortalecerem e vencerem seus desafios.

É preciso também ter o medo como aliado na construção do limite. Não estou dizendo para usá-lo como ameaça ou forma de contenção. Mas quando a criança enxerga que o medo é um aviso do seu corpo de que ela ainda não está preparada para aquele desafio, ela percebe que está na hora de parar.

O medo faz parte da fantasia, dos contos de fadas, da construção do imaginário e do simbólico, e essa construção começa cedo, na primeira infância. Uma criança que aprende a lidar com seus medos, a encarar seus limites, a se reconstruir para dar conta de superá-los, será um adulto mais preparado e maduro, até porque adulto também sente medo… de escuro, de solidão, da morte, do novo, de amar…

Um dia uma amiga de minha mãe muito querida me disse, enquanto Lis escalava o sofá da sala: “Você não tem medo dela fazer isso? É muito perigoso…”. Eu olhei pra ela de maneira terna e amiga, e respondi: “Mas Bia, viver é perigoso…”.

Acho que aquela pequena cobrinha sabe mais do que qualquer um de nós, o quão perigosa é a vida. Apesar de temida, ela em sua fragilidade pintada em cores de ameaça, percorre um mundo de perigos e desafios em meio a grandes folhas, predadores, chuvas, e noites de solidão. Sempre guiada pelo seu medo, pelo seu instinto, e certa vez por maõzinhas infantis, que a acolheram cheias de medo e respeito, e a ajudaram a voltar a sua jornada tão perigosa pela vida que segue.

 

O amor está em outro lugar

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Grande parte das vezes os relacionamentos se constroem  baseados em testes e provas de amor. Lembrar a data do primeiro beijo, dar flores no dia dos namorados, fazer elogios, marcar a vida a dois com pequenos feitos e atitudes que reafirmem dia após dia esse sentimento que tanto se preza e busca.

Então eis que nascerá um filho. E mais do que nunca há que se provar o amor. Um ultrassom por mês para ver como cresce o pequeno, enxoval completo, de preferência comprado em Miami, Chá de bebê com toda pompa e circunstância, todos os luxos e mimos que aquele pequeno ser merece para se sentir amado e protegido.

Otto fez aniversário. Lis quis escolher um presente para o irmão. O fez um mês antes da data escolhida para a comemoração e até a semana do aniversário repetia para quem quisesse ouvir: “vou dar ao Otto o neném na mala”. Era uma bonequinha, de roupa e chapéu verdes, que vinha dentro de uma mala de zíper e rodinhas, com vários apetrechos: bico, mamadeira, pratinho, etc. E deu, feliz da vida, o presente com o qual o irmão não brincou nem cinco minutos, pois aquele presente que deu ao irmão sempre pertenceu a ela mesma. O presente pertence a quem o escolhe.  O amor está em outro lugar.

Decidi que era a hora da Lis parar de chupar bico. Assim, de maneira um tanto tirana, embasada na angústia de ver a arcada da pequena sofrendo modificações pela presença constante daquele amado “bubu”. Pedi a ela que escolhesse um bichinho de presente para substituir o “Bubu”, então, ela daria o bico a vendedora e em troca receberia o animalzinho de sua preferência. Lis, com sua declarada queda por galináceos, ficou em dúvida entre quatro tipos diferentes – uma codorna, uma mini galinha preta, um pintinho e um galinho garnizé (mesmo que eu dissesse que ela poderia escolher um coelho, peixe, cachorro, gato, hamster…) e acabou elegendo o pintinho. Eu estava insegura, sobre como seriam as noites e os dias dali pra frente, quando ela percebesse que havia feito uma troca definitiva. Me senti precipitada, culpada, cruel. Lis ficou irritada por uns três dias, teve um ataque de choro na segunda manhã de ausência do “bubu”, e lá se vai um mês desde então… Pedro, o pintinho já virou frango. Quando repensei minha decisão, depois dos três primeiros dias, vi que o amor sempre esteve ali, a culpa é que deveria estar em outro lugar.

Hoje acordei muito irritada. Perdi a paciência várias vezes com meus pequenos, estava muito cansada e sobrecarregada pelos afazeres intermináveis de alguém que tem uma família, uma casa e uma profissão para gerir. Deixei os pequenos na escola com um misto de alívio e culpa. Não brinquei o suficiente, não tive a paciência que deveria, não fui exemplo de equilíbrio e autocontrole. Então depois de mais alguns afazeres, me permiti ao fim da tarde, um chá com bolo e trinta minutos de respiro e paz. Pude me reconhecer ali; tão frágil, tão só, tão pequena… Uma menina-mãe tentando acertar, tentando cuidar, sem se preocupar em ser cuidada, em ser acolhida, em ser amada. O amor estava ali, e ali, encontrei também espaço para o perdão.

E assim, entre galinhas, ovos, pintos e frangos, se passam os meus dias por aqui. Tentando encontrar lugar para tantas coisas e sentimentos. Sem me lembrar de datas, sem provas de amor, sem presentes. Mas com empenho em fazer florescer a tolerância, a gratidão, o perdão e o amor.

Na semana passada, eu e meu marido fizemos seis anos de casados. Não nos lembramos. Três dias depois, aproveitando uma folga inesperada, pedimos a minha mãe para ficar com os pequenos por algumas horas para irmos a um restaurante comer alguma coisa. Ela logo disse: “Ah, vão comemorar o aniversário de casamento, não é?”. Nós dois surpresos, nos demos conta de que havíamos esquecido a data. Fomos ao restaurante, felizes, saciados que estávamos de vida em família e companheirismo. Naquele dia, como em tantos outros, em que a vida nos presenteia com pequenas lições de humildade, simplicidade, suavidade…. o amor estava em seu devido e merecido lugar.

 

 

“Mamãe, o Hugo é preto”

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Foi assim, de sopetão. Indo para a colônia de férias, em meados de janeiro, dentro do carro, Lis me disse:

– Mamãe, o Hugo é preto.

Hugo, o professor de música. Até aquele momento Lis nunca havia usado cores para adjetivar pessoas. Foram trinta segundos de silêncio (que pareceram 10 anos), pensando em como continuar aquele diálogo. Então eu disse:

– Hugo é preto? E quem mais é preto, filha?

– Minha galinha, Pretinha.

– A Pretinha é bonita, Lis?

– Sim mamãe, ela é linda.

– E o Hugo, é bonito?

– Sim, o Hugo é bonito também.

-E você filha, de que cor é?

– A Lis é colorida!

E assim fomos, a caminho da escola, falando sobre pessoas pretas, brancas, vermelhas, verdes, coloridas. Foi uma conversa leve e divertida, mas a partir dela comecei a me questionar sobre como ensinar a pequena a lidar com as diferenças.

Discutindo sobre educação em um grupo de pais, o tema foi identidade de gênero. Como não seguir estereótipos e vícios na educação dos filhos para que tenhamos um mundo mais igualitário e justo? Como quebrar o padrão e participar da construção de uma sociedade menos machista e excludente?

Por aqui, atividades e afazeres domésticos são divididos igualmente, sempre em tom de brincadeira – Otto e Lis fazem pão e bolo juntos, arrumam seus brinquedos, limpam o cocô do Pintinho Pedro (novo membro da família que apresentarei no próximo Post). Lis me ajuda a colocar a roupa para lavar e a pendurá-la, os dois me ajudam a lavar louça, e vamos seguindo de maneira natural e lúdica, sem pensar muito em desmitificar o homem que realiza trabalhos domésticos ou em romper com estereótipos.

Tem sido assim. Natural, livre, leve. Otto usa macacão lilás de flores e Lis usa pijama de dinossauros. Otto vai andar de bicicleta com o pai com o capacete rosa choque da irmã e Lis brinca com o caminhaozinho de madeira que compramos no Mercadão. A boneca de lacinho rosa no cabelo se chama Pururuco. Lulu, a amiguinha da Lis que sempre vem brincar aos fins de semana, traz seu arsenal de super-heróis e é fã do Homem Aranha. Acredito que esse transitar por masculinidades e feminilidades, essa possibilidade de representar papéis sociais diferentes e imitar para desenvolver-se é o que vai formar meus filhos seres capazes de se posicionar no mundo com autonomia e respeito às diferenças.

Daqui há alguns anos, naturalmente, eles mesmos vão sentir necessidade de testar seus papéis sociais e afirmar suas identidades de gênero. Nesse momento acredito que a bagagem de experiências que tiveram em casa e na escola, que os ajuda dia-a-dia a formar essa identidade será o principal recurso que terão para conviver em sociedade. Mesmo que Otto seja excluído de uma brincadeira de “comidinha” no quintal da escola por ser menino, ou que seja negada a Lis a vaga no time de futebol, por ser menina, eles saberão que cozinhar ou jogar futebol não são atitudes determinantes de gênero ou caráter. Isso não os destituirá de si mesmos.

No fundo e na superfície, todos nós somos um misto de atitudes e sentimentos femininos e masculinos. No fundo e na superfície todos nós somos um misto de cores e saberes afro, índio e eurodescendentes. No fundo e na superfície todos nós temos deficiências e eficiências diversas. Acho que para uma sociedade mais inclusiva e justa, antes de qualquer coisa precisamos é nos tornar mais coloridos.

 

(Des)Cuidando de dois

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Há dois anos e quatro meses nasceu minha pequena flor. Há quase onze meses recebi em meus braços a fofura do Otto.  Há tempos venho querendo escrever sobre a rotina de ter dois filhos pequenos, sobre minhas percepções, minha rotina enlouquecedora, as delicias e desesperos de um dia-a-dia em família com dois bebês em casa.

Hoje, quando saía da escolinha, abri a porta da frente do carro, como faço habitualmente e coloquei a Lis no banco do motorista, juntamente com zilhões de bolsas, lancheiras e mochilas. Enquanto ela remexia os esconderijos do carro a procura de balas e biscoitos fui colocar o Otto em sua cadeirinha. Voltei ao banco da frente e ao pegá-la no colo: “Mamãe, xixi! Xixi! Xixi!”. Rapidamente ajudei a tirar a calça e o tênis e o xixi escorreu pela calçada, enquanto lógico (sempre nessas horas) passava a diretora da escola, que gritou: “essa vai para o Blog, ein?!”. Pois veio.

Quando estava grávida do Otto minha maior insegurança era em relação a amamentação e aos períodos de sono. Como conciliar os horários e prioridades do pequeno com a demanda exigente e urgente da Lis. Li várias estratégias, como por exemplo dar uma caixa cheia de objetos interessantes para a mais velha se distrair enquanto amamentava, ou fazer o pequeno dormir no Sling enquanto brincava na pracinha com a primogênita. Na prática, a caixa de objetos durava cinco segundos e a amamentação uma eternidade… e no fim acabava a Lis pendurada nas minhas costas ou lambendo a cabeça do Otto enquanto eu me contorcia para tentar amamentar de maneira tranquila. O sono no Sling durante os passeios na pracinha até funcionou, mas qual a mãe que aguenta passear todas as manhãs na pracinha, depois de passar a noite acordada amamentando e ninando um recém nascido por mais de uma semana?! Então, a maioria das vezes, o Otto dormia em seu berço mesmo e era acordado infindáveis vezes pelo barulho das brincadeiras da irmã, pelos seus beijos melados ou choros e birras que “coincidentemente” sempre aconteciam na porta do quarto dele.

O ciúme da irmã mais velha também me preocupava. Quando fui à maternidade, preparei o terreno em casa dizendo à Lis que iria ao Hospital buscar o Otto, que finalmente sairia da minha barriga para brincar com ela. A deixei em casa em companhia das duas avós e do pai, e quando ela finalmente foi conhecer o irmão que tanto esperara, ela estava só sorrisos. Um sorriso nervoso, que denunciava o pavor de ser trocada, substituída por aquele pequeno ser que monopolizava meu colo e meu seio. Deve ser mesmo aterrorizante. Além disso, ela, que esperava um companheiro para brincar, não entendeu nada quando se deparou com um bebê “molenga”, que só chorava, não falava, não andava, não entendia seus sinais…. como esse irmão iria brincar com ela!? Deve ter me achado a maior mentirosa do mundo!!

Então começaram os “carinhos”. Aqueles abraços e beijos propositalmente estabanados munidos de sentimentos ambíguos e confusos. Aqueles tapinhas, puxões de cabelo e belisquinhos escondidos que faziam o pequeno chorar de repente, e ela matreira, fazia cara de que nem estava por ali. Os acordares noturnos, as birras, as manhas, o “bubu” mais companheiro do que nunca. E nós sempre com ternura, firmeza e paciência, tentávamos dar segurança a ela e proteção a ele, e vice versa.

Eu sabia que não ia ser fácil. Mas nunca imaginei que seria tão difícil. Quantas vezes me sentei ao lado dos dois enquanto choravam, e chorei junto. Quantas vezes fiquei paralisada por não saber qual demanda atender primeiro. Quantas vezes me senti injusta com um dos dois, ou comigo mesma, ou com meu marido.

Até que os dias foram ficando mais claros, as noites mais serenas, e eu consegui respirar e ter o coração mais tranquilo novamente. Quando foi? Quando Otto começou a sentar, ele já podia brincar e interagir mais com a irmã. Quando começou a dormir a noite inteira, eu não acordava mais como um zumbi e conseguia ter mais paciência e energia para estar com os dois. Quando Lis começou a ter segurança sobre seu lugar, e dar espaço para as sonecas do irmão, para a hora do “mamá”, e percebeu que as brincadeiras com a avó e o pai faziam mais suave a hora de compartilhar a mãe com aquele amado intruso, assim eu pude aproveitar mais o tempo com os dois e com cada um. Quando Otto começou na escolinha, eu pude tomar um banho demorado (uhuuu!), tirar uma soneca caprichada a tarde e estar um pouco comigo mesma.

E assim os dias vão se passando. Num balanço entre exaustão e prazer, divido meu tempo e atenção entre os pequenos e aprendo a lidar com os desafios do dia-a-dia vivendo um dia de cada vez. É delicioso ter dois filhos. É encantador vê-los aprendendo a brincar juntos e a se amar. É desafiador educar ensinando a respeitar o espaço do outro, a compartilhar os prazeres, entender os próprios sentimentos e inseguranças.

Hoje de manhã, enquanto arrumava os dois no carro para ir para a escola, coloquei a Lis no banco da frente, o Otto em sua cadeirinha e voltei em casa para pegar a bolsa. Quando voltei, ela tinha dado para o Otto uma banana que encontrou no porta-luvas; como se não bastasse, achou que o irmão estava com sede e ofereceu a ele uma garrafinha de água mineral. Otto ensopado, era pura banana e alegria. Ela, mais satisfeita impossível, por ter proporcionado um lanche digno de rei ao irmão. Eu, senti cócegas na alma. Fomos assim mesmo. Quer prova maior de felicidade que uma blusa suja de banana e amor de irmã?!

Ovo virado

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Hoje acordei com um mau humor que há muito não tinha. Daqueles que o marido só de ver seu olhar se encolhe e vai fazer o café da manhã e as mamadeiras das crianças sem dar um “piu”, sabem?

Passei o dia azeda. Brava, incompreendida, desaforada, intolerante. Querendo ir comprar aquele cigarro na esquina e não voltar (não, eu não fumo), ou fazer as malas e ir pra Bali, ou mesmo dormir e só acordar daqui há um mês.

Sabem o que eu queria? Pensei muito e a princípio achei que queria passar um dia de rainha: massagem, banhos relaxantes, alta gastronomia, nenhum choro de bebê, ninguém me pedindo para brincar de neném, nenhuma fralda de cocô para limpar (ainda mais depois de três dias de gastroenterite do Otto), nenhuma roupa para lavar, nenhum marido cobrando porque o pó de café acabou ou esqueci a mamadeira suja em cima da pia do banheiro. Mas não era isso….

Na verdade eu queria acordar em uma vila. Uma aldeia. Queria acordar e ver mulheres fazendo o pão juntas, a contar histórias de vida e cantar cantigas de roda. Ver crianças correndo, alegres e livres, de mãos e corações dados, plenas, sem demandas de presença constante e marcante de pais extenuados porque sabem que a vida é maior que isso. Que o mundo é maior que seu quintal. Que precisam de encontros, de outros, de estar em grupo, de se formarem cidadãos do mundo.

Eu queria não ter caído na “armadilha da Mulher Maravilha” (http://www.amamentareh.com.br/mulher-maravilha/), queria uma sociedade mais solidária, menos solitária e individualista. Queria que Piquenique no quintal com as crianças e mães do CLIC fosse o pão de cada dia. Que estar em grupo não fosse coisa de “WhatsUp”, e sim de vida real. Que cafés com as amigas de infância fossem mais fáceis e frequentes.

Estou carente. Carente de mim mesma, de minha “tribo”, de uma aldeia onde eu possa existir além de mim mesma e aquém do outro. Quero que meus filhos tenham a oportunidade de serem para além deles mesmos. Que daqui há décadas se lembrem das histórias das avós, sobre o “mundo antigo”, sobre conchas e colchas de retalhos, sobre as fotos amareladas no álbum gasto. Que se lembrem do porteiro do prédio, que sempre abraçam com ternura, e com quem passeiam de mãos dadas pela manhã. Que se lembrem da vizinha que toca a campainha na casa da avó e sempre chega com mimos e contos. Que se lembrem que colhiam flores e amoras para dar àqueles que amavam, e de como era fácil e terno amar alguém.

Pretinha, a galinha da Lis, botou um ovo. Desde dezembro, quando chegou, ela vivia solitária, a bicar torrões de terra no quintal e pedir carinhos aos pequenos. Vinha se deitar perto de nós quando estávamos lá fora, corria em disparada para entrar em casa assim que abríamos a porta e agitava as asas alegre e faceira, achando que dessa vez não seria convidada a voltar para o quintal. Até que essa semana, resolvemos trazer Margarida para lhe fazer companhia. Uma amiga galinha, preta como ela, mais arisca e menos amistosa, muito falante e ativa e igualmente simpática. Uma colega da mesma “tribo”.

Assim que Margarida chegou Pretinha ficou irritadíssima. Sem a menor cerimônia, deu um “couro” na coitada, que saiu a gritar e se esconder entre as bananeiras. Pensou: “Mais essa! Tenho migalhas de carinho entre os abrires e fechares dessa maldita porta e agora essazinha ainda vem para dividí-los comigo!”. Na primeira noite, ao perceber que Margarida dividiria com ela seu poleiro acordou a casa inteira gritando indignada, a dar escândalo. Júlio, com aquela praticidade e objetividade digna dos homens, não pensou duas vezes, trancou as duas no quartinho apesar dos protestos, para que se entendessem por lá.

E deu certo. no dia seguinte Pretinha e Margarida acordaram amigas, a falar sobre minhocas e grãos de milho, a ciscar juntas os torrões de terra. Foi então que se deu o o(vo)corrido. Estava eu na cozinha lavando alguns pratos e Pretinha deu um grito estridente e começou a bicar a porta. Fui até ela e o vi. Um presente: O Ovo. Abri a porta, e ela orgulhosa, bicava o feito. Peguei o ovo ainda quente em minhas mãos, emocionada, surpresa e orgulhosa de Pretinha. Então entendi. Pretinha precisava de uma companheira para aprender a se tornar galinha.

Nós precisamos. Precisamos de gente. Para aprender a pertencer a nós mesmos e ao mundo.

Falei com Júlio que queria usar o computador. Ele, ainda cabreiro pelo mau humor do dia, disse: “Vai logo, você está precisando escrever”. Então deu-se novamente. Eis aqui o ovo, o presente.

Sobre a Mãe desnecessária

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Queríamos três filhos. Pensávamos que desta maneira demoraria mais a nos tornarmos desnecessários. O primeiro filho vai estudar fora, o segundo se casa, e ainda tem um caçulinha para sentar à mesa aos domingos, comer macarronada e conversar sobre o Vestibular. Queríamos três filhos. Pensávamos nos muitos netos, casa cheia; noras, genros, agregados.

E hoje, na reunião de Pais da escola, fala-se na importância da “Mãe Desnecessária”. Acho que essas aspas nem deveriam estar aí…. Não foi figurativo. Foi sem as aspas mesmo.

Rubem Alves diz que amar é ter um pássaro pousado no dedo. Um pássaro no dedo é lindo, poético, delicado….mas desnecessário. Cair no chão e esfolar os joelhos, ralar a ponta do dedão do pé, engasgar com casca de uva, se lambuzar de terra, areia, tinta. Tudo desnecessário… Chorar por causa do primeiro namorado, queimar demais no sol e arder, tirar nota ruim na prova de matemática, chegar em casa depois do horário combinado, fazer tatuagem e pintar o cabelo de verde. Desnecessário.

Pensei muito. E percebi que ser desnecessário é permitir que a vida presenteie nossos filhos com todas as delícias e desgostos essenciais para nos tornarmos gente de verdade.

Amar é necessário. Beijo de sarar dodói é necessário. Tolerância, firmeza, equilíbrio e gentileza. Necessários.

A mãe desnecessária sabe oferecer ao filho as ferramentas que ele precisa para se tornar uma pessoa de bem, sem aprisionar sua alma. Ser porto seguro, sem muros. O pássaro no dedo.

Queremos três filhos. Acho que dessa maneira podemos ser pais desnecessários por mais tempo, quem sabe avós desnecessários também. E desta maneira, amar sem amarras, com aconchego e delicadeza. Coração cheio, mesmo com a casa vazia; e muitos, muitos pássaros pousados no quintal e na vida da gente.

 

 

A Galinha, o Chuchu e o desejo

Parte I  – A Galinha

Lis, aquela menina leve, de pés descalços, blusa suja de amora, coração em pressa, alma livre e vida urgente estava quase fazendo seus dois anos. Já sabia que ia ter festa, falava inclusive que queria bolo, balão e pirulito, sonhando com o tal aniversário da Lis. Um dia contei a ela que para celebrar seus dois anos de pura brincadeira e alegria ela poderia escolher um presente. Sabendo de seu entusiasmo pelos bichos, de formigas a cavalos, e pensando que em alguns meses estaríamos nos mudando do apartamento para uma casa grande com quintal, perguntei logo:

– Lis, você quer um cachorrinho?

– Não mamãe.

– Um gato?

– Não mamãe.

– Um peixinho?

– Não mamãe.

– Então o que?

– Quero uma galinha! E preta, viu?!

Uma galinha! Pensei que seria coisa passageira, que logo esqueceria o desejo inusitado e pediria uma boneca ou patinete. Ledo engano. Lis passou os quatro meses que faltavam para seu aniversário sonhando com a tal galinha; era puro entusiasmo; a avó Gilda traria a galinha direto da fazenda dentro de uma caixa, ela comeria milho e bichinhos do quintal, ganharia carinhos, beijos e seria sua melhor amiga.

A pequena sempre gostou muito da fazenda. Quando íamos a casa da avó, passava o dia correndo atrás de patos e galinhas, andando a cavalo, abraçando cachorros e seguindo formigas e grilos pela grama. Então resolvemos que o presente de aniversário seria realmente a Galinha Preta. Minha sogra arquitetou o plano, pensou em qual seria o melhor tipo de galinha, sem esquecer o detalhe da cor. E então encontrou: uma galinha mansa, amistosa e preta.

Chegou então o grande dia. Lis era pura alegria quando viu surgirem os balões, a casa cheia, tantos abraços e paparicos naquele dia tão especial com o qual sonhara. Ganhou uma boneca com “bubu” da avó Márcia, ganhou panelinhas, bonequinhas, roupas de tios e amigos, mas vi brotar nela a ansiedade pelo encontro tão esperado com a amiga que vinha de longe…. E então, finalmente chegou a avó Gilda. Veio lá do Sul de Minas com uma grande caixa de papelão, cheia de furinhos. Veio com ela a  madrinha, trazendo um bolo em formato de cavalo e a festa pronta a acontecer.

O pai pegou a caixa com cuidado e colocou no quintal, de lá, tímida e assustada, saiu Pretinha, a galinha mais dócil e afetuosa que já vi. Lis tremia e dava gargalhadas de euforia e ansiedade. Quando pegou a galinha, com todo cuidado, com seus bracinhos fortes e jeitosos, sentiu chegarem seus dois anos com plenitude. Era seu desejo, ali, em seus braços; conquistado, realizado, vivo.

Parte II – o Chuchu

Otto, aquele bebê roliço e sorridente, começou a vida assustado, querendo que o mundo fosse um grande útero aconchegante e amigo, percebendo com estranhamento que por aqui “viver é perigoso e carece ter muita coragem”.

Em oito meses de vida experimentou muito choro, muito colo, muitas madrugadas de lua e estrela brilhando acordadas e insones. Em oito meses de vida experimentou bico, mas não gostou, experimentou mamadeira, mas não gostou, leite de latinha então, foi o fim da picada! Gostou mesmo foi de leitinho da mamãe, colo quentinho, paparico do papai e daqueles carinhos estabanados e cheios de amor (e ciúme) da irmã.

Otto ganhou uma “naninha”. Linda, vinda direto da Alemanha, trazida por uma tia avó muito amada por aqui. Nada. Não simpatizou, não teve aquela química, sabe? Aquela empatia…. Nada. Fraldinha? Nada. Camisola da mamãe? Nada. Bicho de pelúcia? Nada. E assim os meses foram se passando e Otto seguia agarrado àquele “mama da mamãe”, àquele viver perigoso, àquelas noites insones.

Até que chegou o dia de começar na escolinha. Eu, mãe, estava com aquele coração apertado, carregando aquela famigerada culpa que as mães compartilham, medo, apreensão. Como poderia, aquele menino tão meu, ser dele mesmo, assim, tão cedo!? Fomos ao sacolão pela manhã, e como sempre fazia, dei para cada um dos pequenos uma fruta ou legume para que se distraíssem. Lis ganhou uma laranja e Otto um chuchu. E foi aí que a mágica aconteceu.

Aquele legume, em forma de útero, conseguiu trazer meu menino para o mundo. Otto se agarrou ao chuchu e conquistou a segurança e a coragem de que precisava para existir. Naquela tarde fomos à escolinha, para o seu primeiro dia. Eu, ele e o Chuchu. Durante as quatro horas que ficamos por lá, o chuchu esteve presente, apertado entre aquelas mãozinhas roliças e ansiosas. Desde então, o chuchu virou um companheiro e está presente em todas as atividades da vida do pequeno. (Claro que tive que substituir o primeiro chuchu por outros, porque afinal, um chuchu não dura muitos dias…Mas mesmo assim, ele recebe o chuchu seguinte com o mesmo entusiasmo e urgência.)

As noites já estão mais doces e ternas para o meu pequeno. Os dias, repletos de alegrias e descobertas. Meu coração está mais leve e eu pronta para me redescobrir mulher, ter algumas horas para tomar um banho demorado, fazer xixi sem platéia, me olhar no espelho sem medo de encarar as novas ruguinhas trazidas por esses oito meses de entrega absoluta. Otto e seu chuchu também seguem, afinal “Deus nos dá pessoas e coisas,
para aprendermos a alegria…Depois, retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinhos…Essa… a alegria que ele quer”. Nada como Guimarães Rosa, para ajudar a encarar os perigos dessa vida.

Recomeçando…

pontuacao

Há uns dois dias tenho chorado lendo todos os posts em sites de mães com os quais me identifico. Ontem li um relato de parto maravilhoso da Luíza no potencialgestante.com.br, hoje no mildicasdemae.com.br chorei lendo “Ninguem entende a coitada da mãe”. Cheguei a conclusão de que teria que voltar a escrever… desde que engravidei novamente (Lis estava com nove meses!!!) parei de escrever no Blog… Acho que eram muitos sentimentos confusos, muita coisa para planejar e pensar, somados àquele cansaço incomparável dos primeiros meses da gravidez.

Hoje percebo como estou com assuntos e sentimentos atrasados, precisando ser passados a limpo. Uma coisa que sempre soube sobre mim é que uma coisa na minha vida só começa a existir depois que escrevo sobre ela… A palavra em minha vida tem a força e a concretude de um tijolo, que vai pouco a pouco delineando a realidade através de meus pensamentos e sensações.

Otto chegou ao mundo para balançar meus alicerces, minhas certezas, meu afeto. Aquele menino gordo e “mamador”, que passou o primeiro mês sem dormir, chorão e incompreendido, conseguiu testar desde meu preparo físico e emocional até meus sentimentos de amor, de culpa, de medo, de solidão e desespero. Sabe aquela culpa que não existia quando a pequena nasceu? Tive o desgosto de conhecê-la quando a exaustão me fez gritar e perder a paciência pela primeira vez com a Lis, quando senti raiva do Otto por achá-lo um chato que só chorava e nunca estava satisfeito, quando percebi que dividir igualmente o tempo e a atenção entre um bebê de um ano e meio e um recém nascido é uma tarefa humanamente impossível…

Desde o princípio, tive uma percepção que ao mesmo tempo me angustiou e serenou… O primeiro filho já nasce amado, construído, pronto. O segundo filho começa a existir quando olha pra gente, com aqueles olhos enormes de medo, curiosidade e carência e parece perguntar: “e então minha mãe, por quê vim parar aqui?”. Pelo menos no meu caso foi assim… Dia após dia construo um pedaço da minha relação com o Otto, descubro sentimentos, e aprendo como ele é, do que ele gosta, porque chora… Quando percebi isso, tive pena da Lis, de tê-la dado pouco espaço para se construir, já que em minha cabeça e no meu coração ela já era ela desde que aquele teste de farmácia deu positivo. Ao mesmo tempo tive pena do Otto, por não ter tido tempo de imaginá-lo meu menino gordo e gostoso antes de vê-lo pela primeira vez. Sentimentos tão ambíguos e confusos….

Hoje, após três meses do nascimento do pequeno, a fase de exaustão e de confusão de sentimentos começa a dar lugar à sensação de que foi vencida a primeira etapa de adaptação da família, e já estamos criando forças para o que vem pela frente. Hoje recomeço as palavras por aqui, até que as precise calar novamente, por falta de tempo, de animo, de imaginação … e a vida é assim, feita de recomeços. Ainda bem que existem vírgulas e reticências, e que não somos feitos de pontos finais