Sessão desabafo – Pitacos e frases capazes de levar a um homicídio

facaUltimamente tenho conversado com muitas amigas mães a respeito das intromissões e palpites que povoam o mundo da maternidade, e o quanto seria muito mais agradável e leve atravessar as dificuldades e percalços do percurso se eles não existissem. São frases, expressões, atitudes e pitacos que às vezes são sentidos pela mãe como uma facada no coração ou um soco na boca do estômago. Coisas do tipo:

  • Ahhh, já está indo pra escolinha? Coitadinha…..
  • Nossa, arranhou o rostinho? A mamãe não está cortando suas unhas e cuidando de voce direito ein?!
  • Gente, e essas picadas de pernilongo? Como sua mãe deixou isso acontecer?
  • A culpa é sua por ela estar doente! Quem mandou colocar no berçário?!
  • Esse choro deve ser fome, seu leite é fraco pra ela.
  • Que dó, tão novinha e já está tomando mamadeira? Você não foi capaz de amamentar?
  • Acho que seu filho não se alimenta direito porque você não sabe como oferecer os alimentos para ele.
  • Nossa, tão novinho e já contratou uma babá? Você não deu conta de cuidar sozinha?
  • Dá um biscoitinho ou docinho pra ele, deve estar aguando…. que judiação….
  • Nossa, ela está chorando demais: deve ser cólica, deve ser fome, deve ser sono, deve ser frio, deve ser calor, deve ser porque você está muito nervosa.
  • Deste tamanho e ainda chupa bico? (ou toma mamadeira)
  • Ela é irritável desse jeito por sua causa. Você que passa inseguraça pra ela.
  • Mas você não coloca nem um pouquinho de sal na papinha dela (ou açucar)? Nossa, coitada, o sabor deve ser horrível!

E por aí vai…. São possibilidades infinitas de irritar uma mãe, principalmente de primeira viagem. De torná-la insegura, triste, irritada, culpada, frustrada ou infeliz. E são inúmeros os personagens responsáveis por essa tortura: um parente, amigo, conhecido, desconhecido que te aborda enquanto você espera o sinal fechar para atravessar a rua, a balconista da farmácia, o vizinho durante a descida no elevador, visitantes nos primeiros dias do bebê.

A maternidade é um estado de ebulição constante, estamos sendo julgadas, avaliadas, observadas o tempo todo, principalmente por nós mesmas. Ajuda, acolhimento, conselhos dados de uma forma carinhosa e respeitosa e sem julgamentos são muito bem-vindos na maioria das vezes. Mas a ultima coisa da qual precisamos é de palpites carregados de julgamento, recalque, maldade e ironia. E mesmo nós, como mães, temos que ter muito cuidado ao conversar com outras mães pois cada experiência é única e subjetiva. Não é porque você teve muito leite e achou incrível a experiência de amamentar que deve julgar uma mãe que não teve a mesma experiência. Não é porque seu filho é calmo e tranquilo que vai achar que uma criança irritável e chorosa é produto dos sentimentos e atitudes da mãe. Mesmo quando erramos, estamos usando todo o nosso coração, nossa generosidade e nosso conhecimento, tentando acertar.

Dizer a uma mãe que abdicou de sua vaidade, suas noites de sono, seu tempo livre para cuidar com o máximo de esmero e carinho do bebê que seu filho está mal cuidado, mal vestido, mal penteado, mal alimentado, é fazê-la sentir-se incapaz, incompetente apesar de todos os seus esforços.

Manifestar pena de uma criança porque ela não mamou no peito, ou porque não dorme a noite, ou porque está no berçário, ou porque tem babá, ou porque dorme sozinho no berço, ou porque só dorme no colo, ou porque chora demais, ou porque come de menos, é dizer à mãe que sua atitude em relação aquilo está incorreta e que ela é responsável pelo sofrimento do bebê. E a última coisa que uma mãe deseja é que seu filho sofra.

Na maioria das vezes, essas frases são ditas sem intenção de ferir a mãe. Podem estar tentando ajudar, ou tentando passar um pouco de sua própria experiência, ou simplesmente tentando mostrar solidariedade. O que devemos fazer para “nos proteger” dos palpites e, até certo ponto até tirarmos algo positivo deles?

Acho que a resposta é: devemos nos fortalecer. Quando o outro faz qualquer julgamento ou avaliação de nós, ele está no fundo, falando de si mesmo. De suas inseguranças, de seus medos, daquilo que não deu conta, de seus erros. Ele procura transferir para aquela mamãe insegura e supostamente frágil, toda a bagagem de culpa e angústia que carrega em relação àquele contexto.

Uma amiga, que inclusive foi inspiração para esse Post, no primeiro mês do bebê durante o processo de amamentação estava sempre acompanhada pela sua mãe. Todas as vezes que a criança era levada ao seio ou que chorava por algum desconforto, a avó decretava: “ela está com fome. Seu leite não é bom, vai ter que começar a mamadeira”. Essa amiga amamenta até hoje a filha, hoje com 18 meses e nunca precisou iniciar complemento. Essa avó, quando mãe, nunca conseguiu amamentar; tentou durante os dois primeiros meses, e provavelmente, tem isso como uma grande frustração até hoje.

Quando estamos seguras de que o que fazemos pelo nosso filho é o melhor que podemos, de que nossas decisões foram tomadas com consciência, responsabilidade e amor, de que nossas escolhas são baseadas em uma relação de cumplicidade, verdade e entrega, não há palpite que nos abale. Aprendemos a enxergar o que é do outro naquela frase carregada de julgamentos, e a escutar o que realmente nos toca e pode nos ajudar. Aquilo que não nos serve, jogamos no lixo, junto com aquela faca de cozinha que estávamos querendo usar para exterminar o palpiteiro indesejado.

Existindo aquém da Maternidade

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Já falei aqui sobre como é importante pra mim estabelecer uma relação com a pequena sem a presença constante da culpa. Hoje quero falar sobre uma das principais estratégias que uso para que isso aconteça. É simples: não deixo que minhas necessidades vitais sejam negligenciadas em função das necessidades dela.

Mas o que significam as minhas necessidades vitais: comer? Dormir? Beber água? Ir ao banheiro? Trocar o pijama?

Bem, a maioria das mães sabe que essas necessidades que citei acima muitas vezes são esquecidas ou adiadas em função da demanda trazida pelo bebê. Quantas vezes esquecemos de nos alimentar bem, quantas noites de sono perdidas, quantos dias inteiros sem lembrar de fazer xixi… Não é bem disto que estou falando, até porque conforme estabelecemos rotina e o bebê cresce as coisas vão entrando nos eixos.

O que considero como minhas necessidades vitais são os elementos que julgo fundamentais para a construção e a manutenção da minha autoestima, minha autorrealização, minha existência como mulher, e não somente como mãe. Mas se já é tão difícil realizar tarefas básicas, como comer, tomar banho, como posso existir além e aquém da maternidade? Acho que o primeiro passo é não me esquecer de quem eu sou.

Não esquecer que sou uma pessoa diferente dela, com necessidades, sonhos e realizações que vão além daquelas vinculadas ao ato de ser mãe. Não reduzir minhas expectativas em relação a minha existência às expectativas que tenho em relação a vida dela e à vida que tenho com ela. Não esquecer que antes de ser mãe sou mulher, sou livre para fazer escolhas, e responsável pelo produto dessas escolhas. E por fim, perceber que também ela tem necessidades e demandas diferentes das minhas, que também fará suas escolhas e terá suas expectativas, e de que a melhor maneira que tenho para ajudá-la nisso é vivendo a minha própria vida.

A decisão de colocá-la no berçário foi uma das mais importantes nesse sentido. Nos dias em que não estou trabalhando, uso o tempo que não estou com ela para cuidar de mim, me lembrar de mim, me reconhecer em atitudes simples e cotidianas como ler um livro, fazer um bolo, fazer as unhas, tomar café com uma amiga. O berçário é bom pra ela? Sim, lá ela aprende a interagir com outras crianças, tem experiências lúdicas enriquecedoras, ganha autonomia. Mas o berçário foi uma escolha que fiz para mim.

Quando ela adoece por causa do contato com as centenas de vírus e bactérias que ela encontra por lá fico triste e preocupada, cuido dela com todo o coração, toda a dedicação e o amor do mundo, mas não me sinto culpada por isso. Prefiro que ela passe por isso do que culpá-la pela minha não-existência daqui há alguns anos, ou puni-la com minha dependência emocional, ou tirar-lhe a chance de fazer suas próprias escolhas e viver suas próprias atitudes simples e cotidianas.

Meu trabalho também é uma prioridade nesse sentido. Preciso trabalhar. Para ter independência financeira, para distanciar  e diversificar os pensamentos e as conversas, para construir algo que perdure  e que me faça sentir produtiva e ativa quando ela deixar o ninho, para ser exemplo.

Namorar então…. é fundamental. Me sentir mulher. Sair para jantar, dar e receber carinho, ter longas conversas regadas a salada, pão e vinho depois que ela dorme, me arrumar e me sentir bonita, passar perfume, maquiagem, comprar uma lingerie nova… Assim eu exponho minha feminilidade, abre-se espaço para a relação homem-mulher, criamos a pequena em um lar equilibrado, onde as atenções, cuidados e olhares não se voltam todos para ela. E deste modo ela aprende a viver além, aquém e apesar do olhar do outro.

Por fim, tenho necessidade de viver cada momento com verdade e intensidade. A principal de minhas necessidades vitais é a busca pelo prazer. Tanto ao lado dela, quanto nas atividades e momentos longe da pequena procuro estar inteira. Não inteira no sentido de completude, pois o desejo não sobrevive na completude, mas no sentido de assumir todos os sentimentos, sensações e consequências presentes naquele instante.

Viver assim não é uma escolha livre de angústia, não é uma escolha sem riscos e consequências, e sei que não me exime do erro ou da dúvida… Sei que no momento é o que me faz bem. E se me faz bem eu consigo ter uma relação mais verdadeira e prazerosa com a pequena, e consequentemente criá-la em um ambiente saudável. E assim eu sigo sendo mulher, ela segue sendo menina, e seguimos tentando ser únicas, singulares, diversas e todas.

Filhos da conveniência

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Hoje de manhã desci com a pequena para brincar na área externa do prédio, e havia uma menininha de uns cinco anos no parquinho. Ela brincou um pouco com a Lis, depois começou a me observar intrigada e após uns quinze minutos ela me perguntou:

-Você é o que dela?

-Sou a mãe dela.

-Mas cadê a babá dela?

-Ela não tem babá, sou eu quem cuido dela…

-Mas como assim? Você que cuida? Mas isso pode?

Senti uma compaixão enorme por essa menininha… E me perguntei por que cresce a cada dia a cultura de tornar as coisas mais fáceis, convenientes e cômodas. Ter uma babá 24 horas por dia para cuidar, alimentar, vestir, educar, dar banho, fazer dormir, é uma tranquilidade…. e você só precisa pegar no colo e fazer uns afagos de vez em quando naquela criança linda e cheirosa com todas as suas necessidades já devidamente satisfeitas. Levar o DVD portátil para o restaurante é ótimo… a criança não atrapalha a conversa dos adultos, não tenta sair da cadeira para correr entre as mesas e com sorte, entre um filme e outro, engole duas ou três batatas fritas. Dar uma mamadeira de fórmula bem reforçada as onze da noite para o bebê, mesmo que você teoricamente esteja amamentando exclusivamente, é ótimo…. a criança dorme a noite inteira, e consequentemente você também. Hora do almoço com Ipad do lado, não tem coisa melhor…. você vai enfiando as colheradas na boca da criança enquanto ela assiste ao desenho, e ela nem vai notar se comer um brócolis ou uma cenoura.

E assim nossos filhos vão sendo criados. Num mundo onde todos os desejos são prontamente satisfeitos da maneira mais rápida e fácil possível, onde o choro dá lugar ao Ipad ou à mamadeira de fórmula, onde a convivência dá lugar às conveniências e praticidades da vida moderna.

Que tipo de adultos eles irão se tornar? Adultos que querem seus desejos satisfeitos da maneira mais rápida e fácil possível? Adultos que não vão saber o que desejar? Adultos que vão precisar sempre de um DVD portátil, uma mamadeira, um Ipad, uma babá, para enfrentarem as adversidades da vida?

Aceitar as dificuldades e desafios que vêm junto com a chegada de um filho é uma forma de responsabilização perante o outro, que além de crescimento e amadurecimento pessoal tem como principal consequência a capacitação dessa criança para lidar com as suas próprias dificuldades e desafios e se responsabilizar por si mesma e suas escolhas.

É difícil ir a um restaurante com uma criança que demanda atenção o tempo todo, faz bagunça na mesa, atrapalha suas conversas. Muito difícil, não há dúvida. Mas se “taparmos o buraco” dessa criança com um DVD portátil ao invés de ensiná-la a esperar sua vez, a conviver em grupo, a se portar em lugares públicos, a comer assentada à mesa, quem vai ensiná-la? A escola? A babá? A vida? A partir do momento que decidimos ser mãe e pai, assumimos a responsabilidade de formar um cidadão.

O bebê acorda chorando de madrugada com fome se não toma aquela “feijoada” antes de dormir, consequentemente vai atrapalhar o sono da mãe, e ela vai ter que acordar uma, duas ou três vezes de madrugada para amamentar. Isso é extremamente desgastante, e ao final de alguns meses não se sabe de onde tiramos forças para essa maratona. Mas nesses acordares noturnos aprendemos que às vezes não é fome, é medo, insegurança, ou simplesmente vontade de receber carinho. Aprendemos a entender os choros do bebê e lidar com nossa ansiedade, nossas angústias. Aprendemos que a criança amadurece no seu tempo, e devemos dar esse tempo a ela para que ela se conheça e tome para si o seu sono. A “feijoada” tira da criança a oportunidade de saciar sua angústia com o conhecimento de si mesma, quer dizer, de descobrir a tranquilidade que precisa para dormir a noite toda, sem precisar da presença constante do outro.

Terceirizar os filhos não significa ter uma babá 24 horas por dia, ou colocá-lo na escolinha período integral. Conheço mães maravilhosas, que por opção ou necessidade, tiveram que fazer uma dessas escolhas, e nem por isso deixaram de se responsabilizar pelo cuidado e pela educação de seus filhos. Do mesmo modo, conheço mães que passam o dia inteiro com os filhos, mas estes são criados pela televisão ou pelo computador.

Precisamos assumir as dificuldades que a vida nos traz. Criar filhos não é fácil, nem é um mar de rosas. A vida real é cheia de dificuldades e desafios… um mundo onde priorizam-se soluções rápidas e fugazes, escolhas convenientes e cômodas, convivência superficial e artificial é um mundo feito para máquinas. Vamos viver em um mundo de flores que murcham se não são regadas, de melancias que mancham a roupa ao serem mordidas com prazer, de copos de vidro que se quebram, de lágrimas de insatisfação pelo “não”, gargalhadas de alegria pelos abraços de amor. Vamos criar seres humanos.

Não respondi à última pergunta da menininha… Até agora não sei o que responder… Deixar de sentir-se cuidada pela mãe por achar que isso não é permitido… Como estamos criando nossas crianças? O que vocês responderiam?

A escolha do berçário (im)perfeito: um CLIC de subjetividade

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Quando decidi colocar a pequena no berçário, aos cinco meses e meio, comecei primeiro uma busca por informações de como escolher através de sites, blogues, artigos. Em seguida, com minha listinha mental de quesitos importantes fui em busca do berçário ideal. Os itens que deveria inspecionar eram:

  • Berços individuais com pelo menos 0,5 metro de distância entre eles
  • Janelas para ventilar o ambiente
  • Iluminação adequada
  • Local para banho de sol
  • Número de profissionais por bebê (ideal no máximo três crianças por cuidadora)
  • Limpeza e higiene dos ambientes
  • Banheiras individuais, trocadores esterilizados com álcool a cada troca e lixeiras com pedal para jogar as fraldas
  • Procedimento do local em caso de doença
  • Como funciona o período de adaptação
  • Ideal que não haja mistura de bebês e crianças mais velhas
  • Cardápio criado por nutricionista e presença de fisioterapeuta e enfermeiro a disposição

Foi então que percebi que faltava alguma coisa… Segui as orientações a risca, encontrei lugares que preenchiam todos os quesitos com louvor e ainda assim não me sentia segura nem convencida de que seria um bom lugar para Lis passar suas tardes.

Outro problema era quando eu perguntava sobre a proposta pedagógica do local. Não encontrei essa pergunta em nenhum site visitado, mas como fui criada valorizando a importância do método de ensino, achei que fosse uma pergunta pertinente a se fazer…. Pelo visto não era… Quando eu fazia essa pergunta nos berçários, a diretora normalmente me olhava por alguns segundos com cara de paisagem e logo depois, com um sorriso no rosto porque achava que havia entendido o que eu queria dizer me explicava que a proposta pedagógica era uma mistura do ensino tradicional com o construtivismo, mas que as atividades eram centradas no desenvolvimento de projetos, e que as crianças teriam aulas de música, artes, e o melhor, inglês a partir dos três anos de idade! Recebi essa resposta, exatamente assim, em sete dos oito berçários que visitei.

Decidi então ouvir a voz do meu coração, e me perguntar “o que eu realmente estou buscando?”. Mais que berços com uma distância segura entre eles, banheiras individuais e trocadores esterilizados a cada momento, protetores de quinas, brinquedos acolchoados e ambientes arejados e iluminados, eu estava procurando um lugar onde minha filha pudesse brincar e experimentar, e onde as pessoas soubessem proporcionar isso a ela. E percebi que me angustiava pois nestes berçários padrão, tão bem organizados, eu nunca via nenhum dos bebês brincando, sorrindo, se divertindo. Pelo contrário, as cuidadoras tinham orgulho de mostrar como as crianças dormiam longamente e permaneciam tranquilas e pacíficas em seus carrinhos.

Quando eu já estava perdendo as esperanças e me conformando em colocar a Lis em um berçário onde seria muito bem cuidada, bem alimentada e mantida com muito asseio e pouca brincadeira, fui à última tentativa, um berçário indicado por uma amiga. Já na chegada achei estranho, pois não havia letreiro com o nome do lugar na porta nem nada que me fizesse lembrar uma escolinha. Quando abriram a porta, mais estranhamento: uma longa escada para o piso inferior, e um corredor estreito. Fui recebida pela diretora, alegre, falante, expressiva, que se propôs a me mostrar o espaço e em seguida teríamos uma conversa sobre a proposta do lugar.

Uma sala grande, onde as crianças brincavam, e não raramente os maiores e menores interagiam (opa, mas isso pode?), o quarto de dormir, com vários colchõezinhos no chão, bem próximos (como assim?!), uma sala maior onde havia rodas de música, brincadeiras com materiais diversos, o local das trocas de fraldas e a cozinha que seguiam todas as normas recomendadas de higiene, e o mais espantoso: grama de verdade e um minhocário!

Eu já estava achando aquilo bastante incomum, então chegou a hora de termos a tal conversa. Quando me encaminhava para a sala da administração, Lis, que me acompanhou em todas as visitas até ali, estendeu os bracinhos para uma das professoras e foi, independente e determinada, assistir a roda de música (naquela hora percebi que ela já havia feito sua escolha). Durante a conversa uma coisa estranha aconteceu: não houve muitos detalhes sobre organização, asseio, normas de higiene (embora tudo estivesse de acordo), porém, durante longos 60 minutos conversamos sobre a importância do brincar, da formação dos profissionais que lidam com as crianças, do tipo de educação e formação que queremos dar às nossas crianças, dos tipos de estímulo e propostas pedagógicas, enfim, tudo aquilo que eu vinha querendo escutar há sete escolinhas atrás.

Hoje faz três meses que Lis estendeu seus bracinhos para ir assistir aula de música com a Paty… De lá pra cá; muitas roupas imundas de terra, melancia e tinta, muitos resfriados e viroses, muitas músicas na roda, muita brincadeira na graminha com os amigos, muitos soninhos à moda Montessori (explico o que é isso no próximo Post) e a certeza de que escolhemos com o coração um berçário repleto de imperfeições cuidadosamente construídas, para proporcionar à pequena e seus amigos um ambiente lúdico, interativo, cultural, verdadeiro e afetuoso.

Autossuficiência e generosidade

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Sempre achei muito difícil pedir ajuda. Ser autossuficiente é admirável e muito apreciado, afinal, quem não gostaria de conviver com alguém que resolve tudo sozinho, não atrapalha, não traz demandas somente soluções e ainda ajuda aqueles que têm dificuldades?! Realmente muito conveniente, nobre, valoroso…

Só que um dia você percebe que já são dez da noite e ainda há uma pilha de pratos em cima da pia, que sua casa parece ter sofrido um atentado terrorista, que aquele trabalho que voce deveria ter entregue há dois dias ficou esquecido na gaveta, e que voce não tomou banho, nem escovou os dentes, e não teve tempo sequer para tomar um copo d’agua nas últimas oito horas…

Sua reação? As minhas foram várias… A primeira foi me sentir incapaz. Eu, que sempre dei conta de tudo: trabalhar, fazer compras, cuidar da casa, ir ao salão fazer as unhas, fazer um bolo para o lanche da tarde e ao final do dia ainda ter pique e humor para namorar… Me senti um bichinho acuado, me senti vítima, senti uma solidão doída e silenciosa .

Depois senti raiva. Senti raiva por ter sido enganada, tratada como empregada, por ter sido escravizada em uma vida de afazeres sem fim e nenhum reconhecimento, me senti cobrada, pressionada, explorada e novamente sozinha, uma solidão amarga e berrante.

Por fim senti medo. Desespero por não saber o que fazer, medo de acordar no dia seguinte e perceber ao fim do dia que novamente eu não havia dado conta de corresponder a minhas próprias expectativas, medo por não me reconhecer em mim mesma, mergulhada em uma solidão consentida e sussurrante.

Até que percebi que precisava de ajuda. Mais que isso… precisava PEDIR ajuda. E abriu-se para mim um mundo novo de possibilidades. Descobri fragilidades, sensibilidades e futilidades deliciosas em mim, que antes se vestiam de autossuficiência e eficiência incansáveis. Descobri que meu marido faz um ovo no copinho fantástico, que minha mãe (tão autossuficiente e eficiente quanto eu) tem dores nas costas, gripes de berçário e noites mal dormidas, assim como eu. Que meu cunhado é um ótimo mecânico-marceneiro-pedreiro-bombeiro-eletricista. Que minhas amigas têm ouvidos (isso mesmo Ouvidos!!!) e são ouvidos atenciosos, ternos e tranquilizadores. Que meu padrinho pode ser pai, amigo, porto-seguro, e que família é muito melhor que qualquer reconhecimento por ser a melhor profissional-cozinheira-dona-de-casa-motorista do mundo.

São pequenas delicadezas que mudam a vida, que fazem você exercitar a humildade, expor suas fragilidades, acalentar angústias…  como receber uma visita no primeiro mês do bebê que traga serenidade, calma e um bolo quentinho ou um saquinho de pão francês, ou deixar que lavem a pia de louças sujas, ou que cuidem do bebê pra você dormir. Pedir para a sogra fazer canja de galinha, pedir a cunhada que te ensine a amamentar, ao marido que corte as unhas do bebê porque você tem medo. Permitir que o outro te escute, te console, te acolha e cuide de suas feridas. Permitir a si mesma sentir cansaço, escutar seu coração batendo e seu corpo pedindo carinho e abrigo.

Hoje, ainda sou aprendiz na arte de precisar de alguém. E sei que quando as coisas ficarem mais fáceis provavelmente vou voltar a vida de autossuficiência, e muitas vezes terei que reaprender este ato de humildade que é deixar-se cuidar pelo outro. Mesmo assim, espero me lembrar que confiar ao outro minha fragilidade é um ato de generosidade comigo mesma.

“Paidecendo” no Paraíso

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Escrever sobre o pai é uma responsabilidade enorme. É preciso lembrar que o pai não é aquele homem que deixou as meias em cima da mesa, ou não lava o copo onde tomou água e os acumula pela casa… É preciso lembrar que o pai não é aquele homem que às vezes prefere o celular a você, ou uma cerveja com os amigos, ou um bom jogo de futebol. É preciso lembrar que ele, as vezes não está presente ao longo do dia porque está trabalhando, e que as duas horas que ele tem para dividir com você e o filho podem ser as mais importantes do dia para vocês três.

O pai pode não dar o banho do modo “supostamente” adequado, não ter a sua habilidade para trocar as roupas,  o seu sangue frio para dar as vacinas e remédios, a sua praticidade na hora de executar cinco ou seis tarefas ao mesmo tempo, a sua familiaridade com os objetos do bebê, a sua destreza para arrumar a bolsa da criança na hora de sair… Ele pode achar que pentear os cabelos e cortar as unhas do bebê são tarefas importantíssimas, talvez as mais nobres e grandiosas… Pode criticar seu jeito de brincar, amamentar, fazer dormir, trocar fraldas, ou qualquer outro atividade sua junto ao bebê, porque esse é o jeito que ele tem para se sentir inserido na vida do bebê, útil, participativo, importante. As críticas não são direcionadas a você, são pitacos de amor na rotina do filho.

A rotina é importante? Sim, sem dúvida. Mas a interação com o pai, as diferenças, as variações no cuidado, são mais que importantes, são fundamentais. A criança saudável é criada em um ambiente onde há escolhas, há dúvidas, há opiniões e perspectivas diferentes. Um ambiente povoado por certezas unilaterais, cria filhos sem opções, pouco tolerantes às frustrações, pouco adaptáveis.

Não estou dizendo que a criação de um filho deve ser uma guerra constante entre os pais, que deve haver discussões na presença da criança, ou que o jeito que o marido trata a esposa não interfere nas percepções da criança. O que estou dizendo é que é preciso reconhecer o lugar que o pai ocupa. É preciso escutá-lo, perceber que ele participa, opina, que interage e se comunica com a criança e com você. E deve haver sensibilidade para saber separar a relação homem-mulher e a relação pai-mãe-criança. O homem que brinca com afeto e participa com interesse no cuidado do filho não é o mesmo homem que não escuta suas demandas como mulher. Punir o pai pelas falhas do marido, ou vice-versa, são atitudes que afetam diretamente as vivências da criança e da família.

É maravilhoso ver meu marido tomando banho de chuveiro com a pequena, ou dando um pedaço de bolo de cenoura pra ela “escondido”, ou correndo pela casa com ela pendurada em um cabo de vassoura falando “pocotó” e ela vibrando de alegria. É encantador o jeito que ele penteia os cabelos dela, ou diz que o vestido azul fica melhor que o rosa, ou ver sua angústia em deixá-la no berçário “sozinha”…

Meu marido não cuida da Lis quando ela está doente, nunca foi às consultas com a pediatra, não desmarca seus compromissos para passar o dia conosco, não se comove por minhas noites mal dormidas, reclama que estou mal arrumada, que na casa não há comida suficiente, que estou cansada demais para estar com ele depois que a pequena dorme. Muitas vezes me deixa nervosa, irritada, infeliz, triste, desapontada, magoada. Ele está longe de ser perfeito.

O pai da Lis canta músicas do Chico Buarque pra ela e conta histórias da fazenda. Passeia com ela na padaria e lhe dá biscoitos de polvilho. Se comove com cada choro e manha e não resiste aos seus pedidos para sair do berço ou para dormir depois. O pai da Lis deixaria de trabalhar para cuidar dela, se não tivesse que pagar as contas da casa. O pai da Lis tem certeza de que ela ama jabuticabas, sente muito calor, acorda muito bem humorada, assim como ele. Com ele, ela se sente alegre, tranquila, segura, amada, estimulada. Um pai autêntico e inteiro.

E assim sigo sendo Mãe. Ela segue sendo Filha. e seguimos sendo Família.

A culpa é da Mãe

bagagemDefinitivamente, a culpa é toda minha. E se é minha, sou eu que decido o que fazer com ela. No meu caso decidi não carregá-la comigo nessa jornada pela maternidade. Já são tantos itens a carregar; bolsas, lancheiras, chupetas, mamadeiras, brinquedos, dúvidas, angústias… Uma bagagem daquelas…E quanto maior a bagagem, menor o espaço para a culpa caber.

É claro que algumas vezes ela insiste em participar dessa viagem, como quando caí na rua com a pequena no colo e ela despencou com a testa no chão. A culpa nessas horas se nutre de todas as angustias e sentimentos ruins, se fortalece e se agiganta. é preciso serenidade para convidá-la a se retirar do lugar que decidiu ocupar. Minha saída nesses casos é procurar respostas naquele bolso da alma onde mora o amor. Se a dor do outro cabe no meu abraço e nele se consola, a culpa se esvai.

A culpa não resiste ao acolhimento e ao calor de um abraço construído de afeto. E essa acolhida não é apenas morada do outro. Ela é o lugar perfeito para nossas imperfeições, nossas limitações e medos. Nenhuma culpa resiste ao perdão… é preciso se perdoar por não ser perfeito, por não dar conta, por não ser incansável, por ser frágil demais… ou forte demais. É preciso se perdoar por não estar sempre por perto, ou por estar perto demais, por não saber o que fazer, ou por saber demais….

Pensando assim, resolvi ocupar o espaço onde deveria carregar a culpa, com acolhimento e perdão. E minha bagagem ficou tão mais leve! Assim, tenho espaço para carregar muito mais sorrisos, choros de alegria, brincadeiras, beijos de sarar dodói, cócegas, e canções de ninar ….

Sem culpa, minha relação com a Lis se constrói num alicerce de ludismo, transparência, aceitação e carinho.

Se a culpa é da mãe, não vamos emprestá-la ao filho, nem ao pai, nem a avó. Se a culpa é da mãe, vamos ter autonomia para decidir se vamos usá-la ou não, se ela nos serve, se nos cabe, se nos pertence verdadeiramente. Se há culpa vamos conhecê-la em sua essência e permitir que ela parta, ou pelo menos se apequene diante da beleza da verdade, da gratidão e do amor.

Não quero que Lis seja feliz

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A frase mais ouvida de pais recentes e pais experientes é sem dúvida: “Só quero que meu filho seja feliz”. Pois devo dizer que discordo desse paradigma. Eu não quero que Lis seja feliz, a felicidade não é uma morada, ela é uma passagem. Ninguém é feliz o tempo todo. Posso estar feliz, viver momentos de felicidade, assim como vivo momentos de angustia, tristeza, raiva, dúvida, alegria.

Não quero que Lis seja feliz, quero que ela seja mais que isso. Quero que ela seja autêntica, que saiba lidar com seus sentimentos e viver cada um deles da maneira mais inteira e verdadeira que conseguir, quero que ela rale os joelhos tentando engatinhar, que leve tombos tentando caminhar, que chore porque o gosto do remédio é ruim ou porque o amigo pegou seu brinquedo. Que se suje de tinta, de abacate, de terra e liberdade. Que se molhe nas aguas de sua banheira, do mar, de suas lágrimas e de seus desejos. Quero que ela se magoe comigo porque não sou perfeita, que se decepcione com os “nãos” que receber e que se indigne com as injustiças com as quais se deparar. Quero que ela conheça a raiva, para que aprenda a transformá-la em algo produtivo. Que saia de sua zona de conforto para viver seus sonhos e desafios, que se desafie, que não tenha medo de enfrentar o mundo, e que tenha medo também, pois o medo nos coloca em estado de alerta e nos ensina a ter cuidado.

Quero que ela cante “atirei o pau no gato”, que se amedronte com o “boi da cara preta”, que se entristeça quando seu cachorrinho morrer, que se delicie quando comer seu primeiro brigadeiro. Quero que ela chute bola com o pai, que conte mentiras, que ria de si mesma. Que se engasgue com caroço de jabuticaba, se sacie com leite ao pé da vaca, que pegue carrapato e bicho de pé, que tenha remelas, meleca no nariz, cabelos despenteados e pés descalços. Quero que use vestidos, mas não tenha medo de sujá-los, que use a cabeça, mas também o coração.

Quero que minha Lis não seja minha, mas do mundo, e dela mesma. Que ela se apodere de si mesma, se conheça, se descubra a cada dia um ser complexo, repleto de sentimentos. Que ela ame, e receba com o amor todos os sentimentos que ele guarda: o medo da rejeição, a excitação da descoberta, a tristeza da decepção, a alegria da reciprocidade, o prazer do afeto, as incertezas do amanhã.

E para que isso aconteça é preciso ser mais que feliz, é preciso ser coragem, ser oportunidade, ser dúvida e liberdade. Não seja egoísta querendo que seu filho seja feliz, para que ele tenha momentos de felicidade extrema basta querer que ele seja inteiro.

Vivendo um dia de cada vez

ampulheta-tempo

Acho que o maior aprendizado que tive com a chegada da Lis foi a ter calma e viver um dia de cada vez. Oswaldo Montenegro, em sua música “Metade” diz: “que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que mereço”.

Encontrei minha calma nos passos cautelosos do início da gravidez para não tropeçar nos percauços das ruas da cidade. Encontrei minha calma no esperar paciente o último carro passar antes de atravessar a rua, protegendo meu bem mais precioso. Encontrei a calma porque não adiantava querer que ela se mexesse logo dentro do meu ventre, ou que ela estivesse pronta para nascer na hora que me fosse conveniente, ou que ela parasse de chorar simplesmente porque aquilo me era angústia. Não adiantava querer que a dor da amamentação passasse logo e se tornasse prazer, não adiantava querer que seus dormires e acordares se tornassem amores e sorrisos, não bastava estar por perto para me sentir mãe.

Foi vivendo um dia de cada vez que senti os primeiros movimentos, que vi o primeiro sorriso e também o primeiro choro sofrido, que senti fome, sede, cansaço, desespero, alegria, tudo ao mesmo tempo, e tudo a seu tempo….. ah, o tempo… Este ser mágico e precioso nos ensina que viver leva tempo, e o tempo leva a vida embora se a gente não está atento ao que ele nos diz.

Hoje levo meus dias com a calma de uma borboleta pousada na flor. Quando estou com Lis, meu tempo é dela. Não há nada mais interessante que uma caixa vazia, um chocalho vermelho, um livro sobre os bichos da fazenda. Existe a hora da música, a hora da leitura, do passeio, do banho, do amor e do soninho…. essas horas que não se contam no relógio, mas se passam no balanço entre o coração e o ouvido, num tictac sereno de estar junto, de estar inteiro e de estar feliz.

Assim aprendo a cada dia que não basta estar presente. Tem que estar pleno e sem pressa pra ver a beleza do tempo passando pelos olhos de uma criança.

“Mãeneira” de viver

Sou mulher, mãe, sentimento e razão em conflito e harmonia. Decidi fazer um blogue depois que Lis floresceu em minha vida e mudou meu jeito de ver a vida, me mostrando uma “mãeneira” de viver lúdica e leve. Não que isso tenha diminuído minhas angústias e conflitos interiores, pelo contrário, a chegada de um filho coloca em cheque muitas de suas certezas e abre um mundo de dúvidas antes inimagináveis. Mas essa experiência instigou em mim a vontade de compartilhar reflexões e descobertas, pelo simples fato da vida ter se tornado mais colorida e cheia de possibilidades depois que nasci mãe.

Quando Lis nasceu, nasceu em mim uma vontade enorme de descobrir a vida com olhos de criança, e me apoderei de mim mesma de uma maneira que acho que nunca antes fui capaz de fazer. Então aqui, sou capaz de externar um pouco desse mundo que se abriu pra mim e tentar traduzir em palavras todos os sentimentos que ganhei de presente com a chegada da maternidade. IMG-20140819-WA0000