Brincadeira é coisa séria

20150917_110553Tenho algumas amigas mães e amigos pais, que passam um tempo considerável de seus dias cuidando de seus filhos. Como eu passo todas as manhãs por conta da pequena, e sei como às vezes é difícil ter imaginação suficiente para criar e inventar brincadeiras e distrações para os pequenos, principalmente quando eles acordam ligados no 220v, resolvi escrever esse Post, baseada em minha própria experiência e em alguns sites e materiais de leitura, sobre idéias para distrair e estimular os pequenos.

Alguns instrumentos e materiais eu considero de grande ajuda desde os quatro meses, são os seguintes:

  • Espelho: a criança pequena é extremamente curiosa diante de rostos humanos, e com o tempo passa a reconhecer suas próprias expressões e movimentos. Quando Lis descobriu o espelho, costumava passar horas diante dele, encantada.
  • Tecidos com diversas consistências e cores: aqui em casa os campeões são os lenços; de seda, crepe, algodão, lã, cores e tamanhos diversos. uma caixa cheia de tecidos de cores e texturas diversas prendem a atenção do bebê por um bom tempo além de estimular seus sentidos.
  • Caixa dos segredos: montar uma caixa cheia de objetos curiosos de cores e texturas diferentes, de preferência que a criança não conheça, é pura diversão. Eu costumo colocar: bucha vegetal, raminhos de alecrim, escova de dente, pincel de maquiagem, potinhos da cozinha, um sino, utensílios de cozinha de silicone e madeira, garrafinha pet vazia, etc. Lis fica horas explorando os objetos… é uma de suas brincadeiras preferidas.
  • Móbiles: enquanto ainda não engatinham, as crianças amam objetos pendurados, coloridos, se movimentando diante de seus olhos. Móbiles prontos ou improvisados são uma boa pedida.
  • Água: água tem propriedades relaxantes, estimula a concentração além de ser um profundo estímulo sensorial para o bebê. Em tempos de calor, nada mais prazeroso e relaxante do que brincar com água dentro de uma banheirinha, ou com potinhos, bacias, regadores, mangueiras…
  • Lambança: A hora do lanche pode ser um  momento de se descobrir, experimentar, estimular a independência e autonomia da criança. Dar “finger foods” ou seja, comidinhas que seu filho possa pegar ele mesmo e comer com as mãos, ajuda a desenvolver a autonomia, é estimulante, abre o apetite e pode ser muito divertido para o bebê. Aqui as preferidas são: pedaços de melancia, pedacinhos de banana, abacate, manga, mamão, gomos de mexerica e laranja…
  • Lambança parte II: quando vou fazer bolos ou sucos, sempre coloco a pequena para me ajudar. ela coloca as bananas dentro do liquidificador, ou coloca a mão na massa do bolo e me ajuda a misturar. Ao final, saímos as duas cheias de farinha nos cabelos e alegria sem ter fim.
  • Fazendo arte: crianças pequenininhas ainda não sabem pegar um pincel, respeitar o espaço de uma folha de papel, entender formas e cores de um desenho. Mesmo assim, o contato com a tinta, o papel, as cores são estímulos muito interessantes. Quando Lis era menor eu fazia tinta para ela pintar a cartolina misturando iogurte natural sem lactose ou farinha e agua com corantes para alimentos ou gelatina sem sabor. Hoje uso tintas atóxicas comercias para pintura com os dedos. Provavelmente o bebê vai achar mais interessante a textura das tintas, a sensação do contato da tinta com as partes de seu corpo, e no final vai ter mais tinta nas perninhas do que na cartolina. mas a alegria da descoberta compensa a limpeza da bagunça.
  • Materiais para estimular em brincadeiras sensoriais: algodão, areia, arroz, água, bolhas de sabão, grama, vasinhos com plantinhas que podem ser cheiradas e experimentadas: manjericão, alecrim, hortelã.
  • Ler para a criança: ler prende a atenção da criança além de criar familiaridade com as palavras, sons e com a voz dos pais. Se o livro tem figuras e páginas duras, pedir para a criança ajudar a passar as páginas e imitar os sons dos animais é uma diversão a mais.
  • Passeios ao ar livre: sair é sempre bom para pais e filhos. O site http://www.napracinha.com tem sugestões maravilhosas de praças e parques, além de programação cultural para toda a família.
  • Mais idéias de brincadeiras: existem vários sites com idéias e sugestões de brincadeiras com crianças e bebês, eu particularmente, gosto muito do http://pitacoecia.com.br/ e do http://www.tempojunto.com/

Bom, é isso! Agora boa diversão e quem tiver mais idéias criativas para compartilhar, seja bem-vindo!

 

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Para meu coração teu peito basta

coraçãoMeu poema preferido, de Neruda, começa assim… Estava pensando como queria começar a escrever sobre um assunto tão cheio de sentimento, de coragem e de entrega e só me veio em mente esse poema.

Amamentação. É preciso ter muito peito para explorar esse ato em todas as suas nuances e verdades. Amamentar é lindo…. quando a mama não está ingurgitada, dolorosa, machucada. Quando o bebê está tranquilo, sereno, receptivo. Quando o ambiente nos é acolhedor, calmo, preparado. Quando nossa alma está em paz, e tão farta de prazer quanto a mama está cheia de leite. Se algum desses elementos não está em perfeita harmonia, amamentar pode se tornar um sofrimento, um misto de culpa, punição, desespero e desestímulo ao vínculo mãe-filho.

O início da relação mãe e filho é o momento em que esses dois seres, repletos de carências, inseguranças, angústias e estranhamento começam a se conhecer e a compartilhar a vida de uma maneira tão simbiótica e intensa que nenhum sentimento e nenhuma sensação é só de um. O bebê sente a dor na mama da mãe assim como a mãe sente a dor de cólica do recém-nascido. Seus sofrimentos se misturam, se fundem, se confundem. Por isso, quanto menos sofrido é esse início, maior a chance de que a relação evolua mais rápido para um convívio prazeroso e tranquilo.

Qual o real significado da amamentação? O leite materno é cheio de vitaminas, proteínas e anticorpos, preparado para o bebê, de fácil digestão… blábláblá. De que adianta um alimento tão maravilhoso ser dado à custa de sofrimento, de culpa, de angústia? O real significado da amamentação é o estreitamento dos laços entre mãe e filho. O olho no olho, o toque de carinho, o calor dos dois corpos unidos e dos dois corações batendo em sintonia. Se não há essa comunhão, a amamentação perde o sentido.

O que quero dizer é que para amamentar não é preciso que haja um peito cheio de leite e um bebê que suga ao seio. Para amamentar é preciso que haja uma comunhão de amor entre dois seres, um que deseja com todo seu âmago ser alimento e o outro, que deseja alimentar-se de toda a ternura que há ali. Mamadeiras podem ser muito mais ternas e acolhedoras do que mamas feridas e cheias de dor. O amor não está no ato em si, e sim em todo o contexto que o cerca. Em estar inteiro naquele momento, doar-se, aplacar a fome do bebê com compaixão e generosidade, sem que isto te custe lágrimas de dor e dias de angústia.

Não quero dizer que o ato de amamentar em si seja carregado de sofrimento. Nos primeiros dias sim, deve haver persistência e muita força de vontade para que o desconforto e a dor deem lugar ao prazer. Mas para algumas mães, esses “primeiros dias” tornam-se eternos, extremamente penosos e sofridos. E nesse caso, não há benefício que supere a dor. A dor física, e a dor emocional, de sentir-se incapaz, fraca, covarde, punida, egoísta, por querer jogar tudo para o alto, mandar para aquele lugar “as maravilhas do aleitamento materno” e permitir-se desistir. Às vezes, é preciso mais coragem para desistir do que para continuar… E às vezes não é preciso desistir, apenas enxergar a amamentação com mais leveza, menos rigor, maior flexibilidade.

Dói desistir. Dói continuar só pelo outro. Dói não querer estar ali. Dói querer estar ali mais do que nunca, só que de outra maneira. Dói sentir-se incompleta, incapaz, egoísta. Dói sentir-se objeto do outro, sem recompensas, sem gratidão, sem enxergar o produto imediato daquela entrega sem limites. Isso tudo dói muito mais que uma mama ingurgitada.

Falar da dor a faz menor. É como drenar o leite que se acumula. Falar da dor a torna humana, possível, aceitável. Falar da dor permite que ela se transforme. Em aceitação, em entendimento de si mesmo, em escolha. Quando a amamentação se torna a comunhão de dois seres famintos por entendimento, acolhimento e segurança, para meu coração, teu peito basta.

Este é meu poema preferido. Ele termina assim:

“eu despertei e às vezes emigram e fogem

pássaros que dormiam em tua alma.”

Sessão desabafo – Pitacos e frases capazes de levar a um homicídio

facaUltimamente tenho conversado com muitas amigas mães a respeito das intromissões e palpites que povoam o mundo da maternidade, e o quanto seria muito mais agradável e leve atravessar as dificuldades e percalços do percurso se eles não existissem. São frases, expressões, atitudes e pitacos que às vezes são sentidos pela mãe como uma facada no coração ou um soco na boca do estômago. Coisas do tipo:

  • Ahhh, já está indo pra escolinha? Coitadinha…..
  • Nossa, arranhou o rostinho? A mamãe não está cortando suas unhas e cuidando de voce direito ein?!
  • Gente, e essas picadas de pernilongo? Como sua mãe deixou isso acontecer?
  • A culpa é sua por ela estar doente! Quem mandou colocar no berçário?!
  • Esse choro deve ser fome, seu leite é fraco pra ela.
  • Que dó, tão novinha e já está tomando mamadeira? Você não foi capaz de amamentar?
  • Acho que seu filho não se alimenta direito porque você não sabe como oferecer os alimentos para ele.
  • Nossa, tão novinho e já contratou uma babá? Você não deu conta de cuidar sozinha?
  • Dá um biscoitinho ou docinho pra ele, deve estar aguando…. que judiação….
  • Nossa, ela está chorando demais: deve ser cólica, deve ser fome, deve ser sono, deve ser frio, deve ser calor, deve ser porque você está muito nervosa.
  • Deste tamanho e ainda chupa bico? (ou toma mamadeira)
  • Ela é irritável desse jeito por sua causa. Você que passa inseguraça pra ela.
  • Mas você não coloca nem um pouquinho de sal na papinha dela (ou açucar)? Nossa, coitada, o sabor deve ser horrível!

E por aí vai…. São possibilidades infinitas de irritar uma mãe, principalmente de primeira viagem. De torná-la insegura, triste, irritada, culpada, frustrada ou infeliz. E são inúmeros os personagens responsáveis por essa tortura: um parente, amigo, conhecido, desconhecido que te aborda enquanto você espera o sinal fechar para atravessar a rua, a balconista da farmácia, o vizinho durante a descida no elevador, visitantes nos primeiros dias do bebê.

A maternidade é um estado de ebulição constante, estamos sendo julgadas, avaliadas, observadas o tempo todo, principalmente por nós mesmas. Ajuda, acolhimento, conselhos dados de uma forma carinhosa e respeitosa e sem julgamentos são muito bem-vindos na maioria das vezes. Mas a ultima coisa da qual precisamos é de palpites carregados de julgamento, recalque, maldade e ironia. E mesmo nós, como mães, temos que ter muito cuidado ao conversar com outras mães pois cada experiência é única e subjetiva. Não é porque você teve muito leite e achou incrível a experiência de amamentar que deve julgar uma mãe que não teve a mesma experiência. Não é porque seu filho é calmo e tranquilo que vai achar que uma criança irritável e chorosa é produto dos sentimentos e atitudes da mãe. Mesmo quando erramos, estamos usando todo o nosso coração, nossa generosidade e nosso conhecimento, tentando acertar.

Dizer a uma mãe que abdicou de sua vaidade, suas noites de sono, seu tempo livre para cuidar com o máximo de esmero e carinho do bebê que seu filho está mal cuidado, mal vestido, mal penteado, mal alimentado, é fazê-la sentir-se incapaz, incompetente apesar de todos os seus esforços.

Manifestar pena de uma criança porque ela não mamou no peito, ou porque não dorme a noite, ou porque está no berçário, ou porque tem babá, ou porque dorme sozinho no berço, ou porque só dorme no colo, ou porque chora demais, ou porque come de menos, é dizer à mãe que sua atitude em relação aquilo está incorreta e que ela é responsável pelo sofrimento do bebê. E a última coisa que uma mãe deseja é que seu filho sofra.

Na maioria das vezes, essas frases são ditas sem intenção de ferir a mãe. Podem estar tentando ajudar, ou tentando passar um pouco de sua própria experiência, ou simplesmente tentando mostrar solidariedade. O que devemos fazer para “nos proteger” dos palpites e, até certo ponto até tirarmos algo positivo deles?

Acho que a resposta é: devemos nos fortalecer. Quando o outro faz qualquer julgamento ou avaliação de nós, ele está no fundo, falando de si mesmo. De suas inseguranças, de seus medos, daquilo que não deu conta, de seus erros. Ele procura transferir para aquela mamãe insegura e supostamente frágil, toda a bagagem de culpa e angústia que carrega em relação àquele contexto.

Uma amiga, que inclusive foi inspiração para esse Post, no primeiro mês do bebê durante o processo de amamentação estava sempre acompanhada pela sua mãe. Todas as vezes que a criança era levada ao seio ou que chorava por algum desconforto, a avó decretava: “ela está com fome. Seu leite não é bom, vai ter que começar a mamadeira”. Essa amiga amamenta até hoje a filha, hoje com 18 meses e nunca precisou iniciar complemento. Essa avó, quando mãe, nunca conseguiu amamentar; tentou durante os dois primeiros meses, e provavelmente, tem isso como uma grande frustração até hoje.

Quando estamos seguras de que o que fazemos pelo nosso filho é o melhor que podemos, de que nossas decisões foram tomadas com consciência, responsabilidade e amor, de que nossas escolhas são baseadas em uma relação de cumplicidade, verdade e entrega, não há palpite que nos abale. Aprendemos a enxergar o que é do outro naquela frase carregada de julgamentos, e a escutar o que realmente nos toca e pode nos ajudar. Aquilo que não nos serve, jogamos no lixo, junto com aquela faca de cozinha que estávamos querendo usar para exterminar o palpiteiro indesejado.

Existindo aquém da Maternidade

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Já falei aqui sobre como é importante pra mim estabelecer uma relação com a pequena sem a presença constante da culpa. Hoje quero falar sobre uma das principais estratégias que uso para que isso aconteça. É simples: não deixo que minhas necessidades vitais sejam negligenciadas em função das necessidades dela.

Mas o que significam as minhas necessidades vitais: comer? Dormir? Beber água? Ir ao banheiro? Trocar o pijama?

Bem, a maioria das mães sabe que essas necessidades que citei acima muitas vezes são esquecidas ou adiadas em função da demanda trazida pelo bebê. Quantas vezes esquecemos de nos alimentar bem, quantas noites de sono perdidas, quantos dias inteiros sem lembrar de fazer xixi… Não é bem disto que estou falando, até porque conforme estabelecemos rotina e o bebê cresce as coisas vão entrando nos eixos.

O que considero como minhas necessidades vitais são os elementos que julgo fundamentais para a construção e a manutenção da minha autoestima, minha autorrealização, minha existência como mulher, e não somente como mãe. Mas se já é tão difícil realizar tarefas básicas, como comer, tomar banho, como posso existir além e aquém da maternidade? Acho que o primeiro passo é não me esquecer de quem eu sou.

Não esquecer que sou uma pessoa diferente dela, com necessidades, sonhos e realizações que vão além daquelas vinculadas ao ato de ser mãe. Não reduzir minhas expectativas em relação a minha existência às expectativas que tenho em relação a vida dela e à vida que tenho com ela. Não esquecer que antes de ser mãe sou mulher, sou livre para fazer escolhas, e responsável pelo produto dessas escolhas. E por fim, perceber que também ela tem necessidades e demandas diferentes das minhas, que também fará suas escolhas e terá suas expectativas, e de que a melhor maneira que tenho para ajudá-la nisso é vivendo a minha própria vida.

A decisão de colocá-la no berçário foi uma das mais importantes nesse sentido. Nos dias em que não estou trabalhando, uso o tempo que não estou com ela para cuidar de mim, me lembrar de mim, me reconhecer em atitudes simples e cotidianas como ler um livro, fazer um bolo, fazer as unhas, tomar café com uma amiga. O berçário é bom pra ela? Sim, lá ela aprende a interagir com outras crianças, tem experiências lúdicas enriquecedoras, ganha autonomia. Mas o berçário foi uma escolha que fiz para mim.

Quando ela adoece por causa do contato com as centenas de vírus e bactérias que ela encontra por lá fico triste e preocupada, cuido dela com todo o coração, toda a dedicação e o amor do mundo, mas não me sinto culpada por isso. Prefiro que ela passe por isso do que culpá-la pela minha não-existência daqui há alguns anos, ou puni-la com minha dependência emocional, ou tirar-lhe a chance de fazer suas próprias escolhas e viver suas próprias atitudes simples e cotidianas.

Meu trabalho também é uma prioridade nesse sentido. Preciso trabalhar. Para ter independência financeira, para distanciar  e diversificar os pensamentos e as conversas, para construir algo que perdure  e que me faça sentir produtiva e ativa quando ela deixar o ninho, para ser exemplo.

Namorar então…. é fundamental. Me sentir mulher. Sair para jantar, dar e receber carinho, ter longas conversas regadas a salada, pão e vinho depois que ela dorme, me arrumar e me sentir bonita, passar perfume, maquiagem, comprar uma lingerie nova… Assim eu exponho minha feminilidade, abre-se espaço para a relação homem-mulher, criamos a pequena em um lar equilibrado, onde as atenções, cuidados e olhares não se voltam todos para ela. E deste modo ela aprende a viver além, aquém e apesar do olhar do outro.

Por fim, tenho necessidade de viver cada momento com verdade e intensidade. A principal de minhas necessidades vitais é a busca pelo prazer. Tanto ao lado dela, quanto nas atividades e momentos longe da pequena procuro estar inteira. Não inteira no sentido de completude, pois o desejo não sobrevive na completude, mas no sentido de assumir todos os sentimentos, sensações e consequências presentes naquele instante.

Viver assim não é uma escolha livre de angústia, não é uma escolha sem riscos e consequências, e sei que não me exime do erro ou da dúvida… Sei que no momento é o que me faz bem. E se me faz bem eu consigo ter uma relação mais verdadeira e prazerosa com a pequena, e consequentemente criá-la em um ambiente saudável. E assim eu sigo sendo mulher, ela segue sendo menina, e seguimos tentando ser únicas, singulares, diversas e todas.

Criando uma comilona saudável

magali-melanciaQuando chegou a hora de iniciar suquinhos e frutas para a pequena, confesso que fiquei eufórica. Cozinhar, para mim, é uma terapia, uma arte; e comer…. Bem digamos que como toda descendente de família italiana, que cresceu com os almoços de domingo da “nonna”, sempre fui muito boa de garfo.

Iniciei Lis no mundo da gastronomia abusando da criatividade e confesso que lancei mão de algumas frescurites, que julgo fazerem a diferença. Os alimentos da pequena são em sua maioria orgânicos (frutas, verduras, legumes). Ofereço uma grande variedade de sabores para que ela prove, conheça e apure seu paladar. Coloco pouquíssimo sal no almoço e jantar e nunca uso açúcar. Abuso dos tempeirinhos: alho, cebola, alecrim, manjericão, orégano, mas não sempre, para que ela conheça também o sabor de cada alimento sem a interferência de temperos. Suco, sempre natural e feito na hora (os de caixinha e lata têm uma quantidade assustadora de açucar e conservantes). Cozinho os legumes e verduras sempre em fogo baixo para preservar os nutrientes, e se possível no vapor, pelo mesmo motivo.

A pequena come de tudo, com muita alegria e disposição. Nunca dou as refeições em frente à TV, ou com brinquedos ou eletrônicos e procuro fazer minhas refeições junto com ela. Alguns dias na semana, estamos os três na hora do almoço, eu, ela e meu marido, e nesses dias, ela fica especialmente feliz e come super bem. Abuso das chamadas “finger foods”, ou seja, comidinhas que a criança pode pegar, se lambuzar, comer sozinha. Por exemplo: banana picada, pedaços de melancia, gomos de mexerica, cenoura cozinha, beterraba cozida, “arvorezinhas” de brócolis. Ultimamente ela tem gostado muito de treinar o movimento de pinça comendo “bolinhas” durante o almoço: ervilha, grão de bico, milho… Existem estudos que comprovam que crianças que têm autonomia e independência na hora de comer se tornam adultos com menor incidência de diabetes, pois a própria criança controla seu ponto de saciedade e desenvolve esse hábito ao longo da vida.

Outro fator importante e difícil para algumas mães (porque pensam na tortura que vai ser limpar a bagunça depois), é deixar a criança se sujar na hora de se alimentar. Ficar limpando a boquinha a cada colherada e censurando suas experimentações desestimula o bebê na hora de comer. Os bebês são extremamente sinestésicos, ou seja, eles comem e sentem com todas as partes do corpo, então, uma vez ou outra deixar que eles se labuzem, que peguem os alimentos com suas próprias mãozinhas é extremamente prazeroso e estimulante. Portanto, colocar roupas velhinhas que possam se sujar, e dar os alimentos em um ambiente relaxante e sem tensão é um excelente começo para criar um bebê comilão saudável.

A temperatura da comida também é importante. A criança vai mostrando suas preferências ao longo da introdução dos alimentos, e devemos estar atentos. Minha pequena, por exemplo, não gosta de jeito nenhum de comida quente, nem mesmo morninha, prefere em temperatura ambiente, e às vezes até fria. Falando em preferências, a relação que temos com a comida influencia bastante na hora de oferecer os alimentos, pois o bebê é extremamente perceptivo… vai ser difícil convencê-lo de que beterraba é uma delícia se você não consegue nem sentir o cheiro dela… Eu prefiro sempre oferecer alimentos que eu goste.

Se ela não gostou do alimento na primeira tentativa, eu não desisto! Devemos tentar pelo menos vinte vezes antes de dizer que a criança realmente não gosta daquele alimento. Lis já teve fase de amar e odiar mandioca, banana, manga…. O paladar vai amadurecendo e se modificando.

Outra coisa extremamente estimulante e deliciosa é cozinhar com a criança. Quando eles participam da elaboração dos pratos, comem mais e melhor. Atitudes simples fazem diferença, por exemplo, quando vou fazer sucos ou vitaminas, deixo a pequena colocar as frutas no liquidificador, ela ama! Quando vou fazer bolo, às vezes deixo ela literalmente “colocar a mão na massa”, ela se lambuza inteira e fica na maior alegria!

Respeitar as fases e vontades também faz a diferença. Quando a pequena está com sono não come nem amarrada, quando está doentinha prefere comidas leves, pouca quantidade várias vezes ao dia e sabor mais suave, quando os dentinhos estão nascendo prefere comidinhas frias e de sabor adocicado… Haja paciência nessas horas… Mas quanto mais tensa fico, menos ela come.

Lendo e relendo esse Post, achei que ficou bem simples e até meio óbvio. Mas como o que escrevo aqui é principalmente para mim mesma, acho que o que quero é me lembrar de que não há mágica nem segredos para fazer o bebê comer bem. É só seguir a receita que o coração mandar, com algumas pitadas de paciência, tranquilidade, persistência e carinho.

Filhos da conveniência

flor mecaninca

Hoje de manhã desci com a pequena para brincar na área externa do prédio, e havia uma menininha de uns cinco anos no parquinho. Ela brincou um pouco com a Lis, depois começou a me observar intrigada e após uns quinze minutos ela me perguntou:

-Você é o que dela?

-Sou a mãe dela.

-Mas cadê a babá dela?

-Ela não tem babá, sou eu quem cuido dela…

-Mas como assim? Você que cuida? Mas isso pode?

Senti uma compaixão enorme por essa menininha… E me perguntei por que cresce a cada dia a cultura de tornar as coisas mais fáceis, convenientes e cômodas. Ter uma babá 24 horas por dia para cuidar, alimentar, vestir, educar, dar banho, fazer dormir, é uma tranquilidade…. e você só precisa pegar no colo e fazer uns afagos de vez em quando naquela criança linda e cheirosa com todas as suas necessidades já devidamente satisfeitas. Levar o DVD portátil para o restaurante é ótimo… a criança não atrapalha a conversa dos adultos, não tenta sair da cadeira para correr entre as mesas e com sorte, entre um filme e outro, engole duas ou três batatas fritas. Dar uma mamadeira de fórmula bem reforçada as onze da noite para o bebê, mesmo que você teoricamente esteja amamentando exclusivamente, é ótimo…. a criança dorme a noite inteira, e consequentemente você também. Hora do almoço com Ipad do lado, não tem coisa melhor…. você vai enfiando as colheradas na boca da criança enquanto ela assiste ao desenho, e ela nem vai notar se comer um brócolis ou uma cenoura.

E assim nossos filhos vão sendo criados. Num mundo onde todos os desejos são prontamente satisfeitos da maneira mais rápida e fácil possível, onde o choro dá lugar ao Ipad ou à mamadeira de fórmula, onde a convivência dá lugar às conveniências e praticidades da vida moderna.

Que tipo de adultos eles irão se tornar? Adultos que querem seus desejos satisfeitos da maneira mais rápida e fácil possível? Adultos que não vão saber o que desejar? Adultos que vão precisar sempre de um DVD portátil, uma mamadeira, um Ipad, uma babá, para enfrentarem as adversidades da vida?

Aceitar as dificuldades e desafios que vêm junto com a chegada de um filho é uma forma de responsabilização perante o outro, que além de crescimento e amadurecimento pessoal tem como principal consequência a capacitação dessa criança para lidar com as suas próprias dificuldades e desafios e se responsabilizar por si mesma e suas escolhas.

É difícil ir a um restaurante com uma criança que demanda atenção o tempo todo, faz bagunça na mesa, atrapalha suas conversas. Muito difícil, não há dúvida. Mas se “taparmos o buraco” dessa criança com um DVD portátil ao invés de ensiná-la a esperar sua vez, a conviver em grupo, a se portar em lugares públicos, a comer assentada à mesa, quem vai ensiná-la? A escola? A babá? A vida? A partir do momento que decidimos ser mãe e pai, assumimos a responsabilidade de formar um cidadão.

O bebê acorda chorando de madrugada com fome se não toma aquela “feijoada” antes de dormir, consequentemente vai atrapalhar o sono da mãe, e ela vai ter que acordar uma, duas ou três vezes de madrugada para amamentar. Isso é extremamente desgastante, e ao final de alguns meses não se sabe de onde tiramos forças para essa maratona. Mas nesses acordares noturnos aprendemos que às vezes não é fome, é medo, insegurança, ou simplesmente vontade de receber carinho. Aprendemos a entender os choros do bebê e lidar com nossa ansiedade, nossas angústias. Aprendemos que a criança amadurece no seu tempo, e devemos dar esse tempo a ela para que ela se conheça e tome para si o seu sono. A “feijoada” tira da criança a oportunidade de saciar sua angústia com o conhecimento de si mesma, quer dizer, de descobrir a tranquilidade que precisa para dormir a noite toda, sem precisar da presença constante do outro.

Terceirizar os filhos não significa ter uma babá 24 horas por dia, ou colocá-lo na escolinha período integral. Conheço mães maravilhosas, que por opção ou necessidade, tiveram que fazer uma dessas escolhas, e nem por isso deixaram de se responsabilizar pelo cuidado e pela educação de seus filhos. Do mesmo modo, conheço mães que passam o dia inteiro com os filhos, mas estes são criados pela televisão ou pelo computador.

Precisamos assumir as dificuldades que a vida nos traz. Criar filhos não é fácil, nem é um mar de rosas. A vida real é cheia de dificuldades e desafios… um mundo onde priorizam-se soluções rápidas e fugazes, escolhas convenientes e cômodas, convivência superficial e artificial é um mundo feito para máquinas. Vamos viver em um mundo de flores que murcham se não são regadas, de melancias que mancham a roupa ao serem mordidas com prazer, de copos de vidro que se quebram, de lágrimas de insatisfação pelo “não”, gargalhadas de alegria pelos abraços de amor. Vamos criar seres humanos.

Não respondi à última pergunta da menininha… Até agora não sei o que responder… Deixar de sentir-se cuidada pela mãe por achar que isso não é permitido… Como estamos criando nossas crianças? O que vocês responderiam?

Repensando o ninho: o quarto Montessoriano

Aprendendo a voar

Há pouco tempo assisti a uma palestra sobre o Quarto Montessoriano e fui tocada quando a palestrante disse: “na maioria das vezes, ao montar o quarto do bebê, os pais têm em mente o quarto dos seus sonhos, e a criança tem que caber nesse sonho e consequentemente nesse quarto”. No meu caso, mais pura verdade… Quando montei o quartinho da Lis coloquei os móveis todos branquinhos, combinando com o berço, quadros em cores e tons suaves de passarinho, corujinhas e um papel de parede rosa de bolinhas. tudo foi escolhido com muito amor e carinho, mas para ser muito sincera, na época que Lis era apenas um barrigão agitado e feliz, não imaginei uma danadinha engatinhando pela casa inteira, curiosa, exploradora, independente.

Quando Lis fez seis meses e começou a estender os bracinhos para todos os quadrinhos e nichos da parede onde ficavam seus bichinhos, percebi que eles estavam altos demais pra ela. Quando começou a engatinhar, percebi que o aparador oferecia risco de virar quando ela se apoiava nele. Quando começou a ficar em pé no berço pela manhã, conversando com seus bichinhos e brinquedos percebi a distância que estava de seus objetos e como seus movimentos e vontades ficavam limitados pelas grades do berço.

Foi então que comecei a me interessar pelo quarto Montessoriano. E fui apresentada a soluções simples e que proporcionariam à pequena muito mais liberdade, autonomia e identificação com seu próprio quartinho. A decoração do quarto segue a filosofia do método Montessori, sobre o qual falei um pouco no Post anterior. A principal característica desse conceito é que devemos garantir acessibilidade, segurança, autonomia e liberdade para que a criança possa enxergar e descobrir o mundo a sua volta e se expressar através dele. Para isto, algumas alternativas interessantes e baratas podem ser pensadas.

  • Cama: Uma cama baixa e sem grades, ou até mesmo um colchão no chão para que a criança possa se deitar e se levantar quando quiser e se movimentar pelo quarto.
  • Quadros, figuras e imagens: devem estar sempre na altura dos olhos da criança, para que possa interagir, ver de perto, tocar. Também é importante uma foto da criança com a família, que ajuda na construção de sua autoimagem e familiaridade com a imagem dos pais e o conceito de família.
  • Espelho: é muito importante que haja um espelho no quarto da criança. Quando ainda não estiver engatinhando, na horizontal, ao lado da cama, e depois que já estiver andando, na vertical, em uma parede do quarto. A criança pequena se interessa por rostos humanos, além disso, a criança aprende pela observação, ao se ver no espelho, perceber seus movimentos e expressões ela percebe que é um ser diferente da mãe e fortalece sua autoestima. Existem espelhos em acrílico, com as bordas arredondadas que não oferecem riscos para o bebê.
  • Perceber o ponto de vista do bebê: Móveis com prateleiras baixas, onde a criança possa ter acesso aos seus brinquedos preferidos, prateleiras baixas no guarda-roupa com algumas peças de roupa para que a criança possa escolher, tentar vestir, e posteriormente se trocar sozinha.
  • Brinquedos: tanto Maria Montessori, quando Rudolf Steiner (da pedagogia Waldorf) sugeriam o uso de brinquedos pouco elaborados, preferencialmente em madeira ou metal, e com pouca variedade de cor para estimular os sentidos e a criatividade da criança. Outra atitude importante é limitar a variedade de brinquedos. Apresentar a criança de três a seis peças, e fazer um rodízio conforme perceba que a criança perdeu o interesse na peça.
  • Barra de apoio: para crianças que já ficam em pé e iniciam os primeiros passos, uma barra de apoio ou móvel fixo junto à parede pode auxiliar a criança a andar sem necessitar da ajuda dos pais.
  • Cantinho da Natureza: ter um cantinho no quarto com um vasinho de plantas ou aquário de peixinhos ensina o cuidado e amor à natureza. Regar a plantinha ou alimentar o peixinho com a criança ensinam noções de cuidado e proteção.

Eu estou começando a modificar o quartinho da pequena com base nessas sugestões e já vi algumas diferenças muito interessantes no comportamento dela. Acho que mais que seguir um método ou uma filosofia, essas pequenas modificações são uma maneira de perceber a criança como um ser diferente de nós, com necessidades, pontos de vista e interesses próprios. É criar um espaço onde ela possa se identificar, se observar, aprender, sem que para isso tenhamos que estar por perto o tempo todo. Dar a ela um quarto que seja verdadeiramente seu, nos ajuda também a aprender o que é verdadeiramente nosso.

Fontes:

http://marcelaaurelianocriacoes.com.br/2013/04/03/projeto-quarto-de-bebe/

http://www.journalbebe.blogspot.fr/2011/04/um-outro-conceito-sobre-quartos-de.html?m=1

http://montessoriando.blogspot.com.br/2012/05/quarto-montessori-para-recem-nascidos.html

http://www.recantodasmamaesblogueiras.com/2011/04/quarto-para-crianca-segundo-montessori.html

http://www.partoegravidez.com/2012/08/sala-adequada-para-o-bebe-metodo.html

http://montessoriefamilia.blogspot.com.br/http://larmontessori.com/

Linhas pedagógicas: uma reflexão

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No Post anterior falei um pouquinho sobre como foi a escolha do berçário da pequena. Muitas amigas me perguntaram em que consiste a proposta pedagógica de uma instituição de ensino e como isso influenciaria no desenvolvimento da criança e em sua relação com o mundo em que vive.

Bem, neste Post farei um apanhado geral sobre as linhas pedagógicas que conheço. Será uma visão superficial e baseada em um estudo rápido que realizei, para quem quiser se aprofundar, sugiro tomar as informações aqui presentes apenas como um estímulo para buscar mais conhecimento. Abaixo estão algumas referências que utilizei e sites onde pode-se aprofundar o estudo de cada método.

Antes de começar, porém, me sinto impelida a convidar minha mãe, Márcia, a comentar  sobre o Construtivismo de Piaget e meu querido primo Flávio para falar sobre o método Waldorf, pois sei que são profundos conhecedores dos respectivos temas e podem contribuir muito com este Post.

Método tradicional: O professor é a figura central, que ensina as matérias e cobra a resposta dos alunos, geralmente por meio de avaliações. Essa linha tem grande foco no conteúdo (dever de casa, provas, etc) e privilegia a preparação para o vestibular desde o início do currículo escolar. Seus defensores enfatizam que uma sólida base de informação é fundamental para formar alunos críticos e questionadores.

Método Montessori: Maria Montessori foi uma médica italiana que, em meados do século 20, propôs um método de ensino que sugeria a utilização do ambiente, materiais e práticas para libertar a verdadeira natureza do indivíduo. Ela idealizava que a educação deveria se desenvolver a partir da evolução da criança, e não o contrário. A frase usada por Montessori, que resume essa abordagem, seria: “a criança faz o homem”. Os seis pilares que regem a proposta pedagógica são:

  1. Autoeducação: Capacidade inata que a criança tem de aprender.
  2. Educação como ciência: O professor utiliza o método científico de observações, hipóteses e teorias para entender a melhor forma de ensinar cada criança e para verificar a eficácia de seu trabalho no dia a dia.
  3. Educação Cósmica: De acordo com este princípio, o educador deve levar o conhecimento à criança de forma organizada – cosmos significa ordem, em oposição a caos.
  4. Ambiente Preparado: É o local onde a criança desenvolve sua autonomia e compreende sua liberdade em escolas e lares montessorianos.
  5. Adulto Preparado: Esse adulto deve conhecer cientificamente as fases do desenvolvimento infantil e, por meio da observação e do domínio de ferramentas educativas de eficiência comprovada, guiar a criança em seu desabrochar.
  6. Criança Equilibrada: É qualquer criança em seu desenvolvimento natural.

Para quem está achando a explicação muito complexa, vou tentar aproximar essas informações de nossa realidade: O método Montessori estimula a autonomia da criança na busca por conhecimento, através do preparo do ambiente e do professor. Por exemplo: o ambiente onde a criança transita deve estar preparado, camas baixas, móveis adaptados à altura da criança, figuras, quadros e desenhos devem estar na linha dos olhos deles para que a própria criança possa acessá-los sem precisar de um adulto. Os brinquedos e brincadeiras devem estimular os sentidos, atividades sensoriais direcionadas de acordo com a fase de desenvolvimento da criança.

Método Waldorf: Surgiu em 1919, com o filósofo austríaco Rudolf Steiner. O método visa o desenvolvimento integral da criança, não apenas o intelectual. A imaginação é estimulada por meio de brinquedos simples, pouco estruturados, produzidos quase sempre com material natural, como madeira e tecidos. A partir do Ensino Fundamental, os alunos permanecem juntos por oito anos, sendo acompanhados nesse ciclo pelo mesmo professor, chamado professor de classe, que conta com a ajuda de professores de diversas matérias para dar conta do currículo. Não inicia a alfabetização durante a educação infantil. A participação dos pais é no dia a dia e até na gestão da escola e faz parte da proposta pedagógica.

Ela é uma pedagogia holística em um dos mais amplos sentidos que se pode dar a essa palavra quando aplicada ao ser humano e à sua educação. De fato, ele é encarado do ponto de vista físico, anímico e espiritual, e o desabrochar progressivo desses três constituintes de sua organização é abordado diretamente na pedagogia.

Para mais detalhes, espero a contribuição de Flávio Hauser, contando inclusive sua experiência prática com o Método e a maravilhosa história do Jardim das Bromélias.

Contrutivismo: Desenvolvida por Jean Piaget, a teoria de aprendizagem idealizada em meados do século 20, não é um método, mas uma concepção de ensino. Propõe que todo aluno seja capaz de construir seu conhecimento. Leva em conta, assim, o conhecimento que a criança traz consigo. Uma das alunas de Piaget, Emilia Ferrero, ampliou a teoria para o campo da leitura e da escrita e defende o conceito de que a criança consegue se alfabetizar sozinha desde que esteja num ambiente com letras e textos. O professor, aí, tem o papel de mediador. É como se fosse o “tradutor” para o saber ansiado pela criança.
O construtivismo propõe que o aluno participe ativamente do próprio aprendizado, mediante a experimentação, a pesquisa em grupo, o estimulo a dúvida e o desenvolvimento do raciocínio, entre outros procedimentos. A partir de sua ação, vai estabelecendo as propriedades dos objetos e construindo as características do mundo.

Não pretendo me arriscar falando de Piaget, pois por mais que tenha sido criada dentro dessa concepção de ensino, deixo os comentários para quem entende do assunto com profundidade.

Bom, espero que esse Post tenha contribuído para que pensemos um pouco no que estamos querendo em relação a educação de nossas crianças. Se outras pessoas quiserem contribuir nessa reflexão, dividindo seus conhecimentos ou experiências, serão muito bem recebidas. Esse tema me toca profundamente, e provavelmente falarei dele outras vezes por aqui.

Fontes:

http://larmontessori.blogspot.com.br

PORTAL EDUCAÇÃO http://www.portaleducacao.com.br/pedagogia/artigos/32627/a-filosofia-montessoriana#ixzz3mPzozsqo

http://www.pedagogia.com.br/

http://www.federacaoescolaswaldorf.org.br/

http://www.antroposofy.com.br/wordpress/conheca-a-pegagogia-waldorf/

http://revistaescola.abril.com.br/formacao/jean-piaget-428139.shtml

A escolha do berçário (im)perfeito: um CLIC de subjetividade

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Quando decidi colocar a pequena no berçário, aos cinco meses e meio, comecei primeiro uma busca por informações de como escolher através de sites, blogues, artigos. Em seguida, com minha listinha mental de quesitos importantes fui em busca do berçário ideal. Os itens que deveria inspecionar eram:

  • Berços individuais com pelo menos 0,5 metro de distância entre eles
  • Janelas para ventilar o ambiente
  • Iluminação adequada
  • Local para banho de sol
  • Número de profissionais por bebê (ideal no máximo três crianças por cuidadora)
  • Limpeza e higiene dos ambientes
  • Banheiras individuais, trocadores esterilizados com álcool a cada troca e lixeiras com pedal para jogar as fraldas
  • Procedimento do local em caso de doença
  • Como funciona o período de adaptação
  • Ideal que não haja mistura de bebês e crianças mais velhas
  • Cardápio criado por nutricionista e presença de fisioterapeuta e enfermeiro a disposição

Foi então que percebi que faltava alguma coisa… Segui as orientações a risca, encontrei lugares que preenchiam todos os quesitos com louvor e ainda assim não me sentia segura nem convencida de que seria um bom lugar para Lis passar suas tardes.

Outro problema era quando eu perguntava sobre a proposta pedagógica do local. Não encontrei essa pergunta em nenhum site visitado, mas como fui criada valorizando a importância do método de ensino, achei que fosse uma pergunta pertinente a se fazer…. Pelo visto não era… Quando eu fazia essa pergunta nos berçários, a diretora normalmente me olhava por alguns segundos com cara de paisagem e logo depois, com um sorriso no rosto porque achava que havia entendido o que eu queria dizer me explicava que a proposta pedagógica era uma mistura do ensino tradicional com o construtivismo, mas que as atividades eram centradas no desenvolvimento de projetos, e que as crianças teriam aulas de música, artes, e o melhor, inglês a partir dos três anos de idade! Recebi essa resposta, exatamente assim, em sete dos oito berçários que visitei.

Decidi então ouvir a voz do meu coração, e me perguntar “o que eu realmente estou buscando?”. Mais que berços com uma distância segura entre eles, banheiras individuais e trocadores esterilizados a cada momento, protetores de quinas, brinquedos acolchoados e ambientes arejados e iluminados, eu estava procurando um lugar onde minha filha pudesse brincar e experimentar, e onde as pessoas soubessem proporcionar isso a ela. E percebi que me angustiava pois nestes berçários padrão, tão bem organizados, eu nunca via nenhum dos bebês brincando, sorrindo, se divertindo. Pelo contrário, as cuidadoras tinham orgulho de mostrar como as crianças dormiam longamente e permaneciam tranquilas e pacíficas em seus carrinhos.

Quando eu já estava perdendo as esperanças e me conformando em colocar a Lis em um berçário onde seria muito bem cuidada, bem alimentada e mantida com muito asseio e pouca brincadeira, fui à última tentativa, um berçário indicado por uma amiga. Já na chegada achei estranho, pois não havia letreiro com o nome do lugar na porta nem nada que me fizesse lembrar uma escolinha. Quando abriram a porta, mais estranhamento: uma longa escada para o piso inferior, e um corredor estreito. Fui recebida pela diretora, alegre, falante, expressiva, que se propôs a me mostrar o espaço e em seguida teríamos uma conversa sobre a proposta do lugar.

Uma sala grande, onde as crianças brincavam, e não raramente os maiores e menores interagiam (opa, mas isso pode?), o quarto de dormir, com vários colchõezinhos no chão, bem próximos (como assim?!), uma sala maior onde havia rodas de música, brincadeiras com materiais diversos, o local das trocas de fraldas e a cozinha que seguiam todas as normas recomendadas de higiene, e o mais espantoso: grama de verdade e um minhocário!

Eu já estava achando aquilo bastante incomum, então chegou a hora de termos a tal conversa. Quando me encaminhava para a sala da administração, Lis, que me acompanhou em todas as visitas até ali, estendeu os bracinhos para uma das professoras e foi, independente e determinada, assistir a roda de música (naquela hora percebi que ela já havia feito sua escolha). Durante a conversa uma coisa estranha aconteceu: não houve muitos detalhes sobre organização, asseio, normas de higiene (embora tudo estivesse de acordo), porém, durante longos 60 minutos conversamos sobre a importância do brincar, da formação dos profissionais que lidam com as crianças, do tipo de educação e formação que queremos dar às nossas crianças, dos tipos de estímulo e propostas pedagógicas, enfim, tudo aquilo que eu vinha querendo escutar há sete escolinhas atrás.

Hoje faz três meses que Lis estendeu seus bracinhos para ir assistir aula de música com a Paty… De lá pra cá; muitas roupas imundas de terra, melancia e tinta, muitos resfriados e viroses, muitas músicas na roda, muita brincadeira na graminha com os amigos, muitos soninhos à moda Montessori (explico o que é isso no próximo Post) e a certeza de que escolhemos com o coração um berçário repleto de imperfeições cuidadosamente construídas, para proporcionar à pequena e seus amigos um ambiente lúdico, interativo, cultural, verdadeiro e afetuoso.

Autossuficiência e generosidade

Canja-de-galinha

Sempre achei muito difícil pedir ajuda. Ser autossuficiente é admirável e muito apreciado, afinal, quem não gostaria de conviver com alguém que resolve tudo sozinho, não atrapalha, não traz demandas somente soluções e ainda ajuda aqueles que têm dificuldades?! Realmente muito conveniente, nobre, valoroso…

Só que um dia você percebe que já são dez da noite e ainda há uma pilha de pratos em cima da pia, que sua casa parece ter sofrido um atentado terrorista, que aquele trabalho que voce deveria ter entregue há dois dias ficou esquecido na gaveta, e que voce não tomou banho, nem escovou os dentes, e não teve tempo sequer para tomar um copo d’agua nas últimas oito horas…

Sua reação? As minhas foram várias… A primeira foi me sentir incapaz. Eu, que sempre dei conta de tudo: trabalhar, fazer compras, cuidar da casa, ir ao salão fazer as unhas, fazer um bolo para o lanche da tarde e ao final do dia ainda ter pique e humor para namorar… Me senti um bichinho acuado, me senti vítima, senti uma solidão doída e silenciosa .

Depois senti raiva. Senti raiva por ter sido enganada, tratada como empregada, por ter sido escravizada em uma vida de afazeres sem fim e nenhum reconhecimento, me senti cobrada, pressionada, explorada e novamente sozinha, uma solidão amarga e berrante.

Por fim senti medo. Desespero por não saber o que fazer, medo de acordar no dia seguinte e perceber ao fim do dia que novamente eu não havia dado conta de corresponder a minhas próprias expectativas, medo por não me reconhecer em mim mesma, mergulhada em uma solidão consentida e sussurrante.

Até que percebi que precisava de ajuda. Mais que isso… precisava PEDIR ajuda. E abriu-se para mim um mundo novo de possibilidades. Descobri fragilidades, sensibilidades e futilidades deliciosas em mim, que antes se vestiam de autossuficiência e eficiência incansáveis. Descobri que meu marido faz um ovo no copinho fantástico, que minha mãe (tão autossuficiente e eficiente quanto eu) tem dores nas costas, gripes de berçário e noites mal dormidas, assim como eu. Que meu cunhado é um ótimo mecânico-marceneiro-pedreiro-bombeiro-eletricista. Que minhas amigas têm ouvidos (isso mesmo Ouvidos!!!) e são ouvidos atenciosos, ternos e tranquilizadores. Que meu padrinho pode ser pai, amigo, porto-seguro, e que família é muito melhor que qualquer reconhecimento por ser a melhor profissional-cozinheira-dona-de-casa-motorista do mundo.

São pequenas delicadezas que mudam a vida, que fazem você exercitar a humildade, expor suas fragilidades, acalentar angústias…  como receber uma visita no primeiro mês do bebê que traga serenidade, calma e um bolo quentinho ou um saquinho de pão francês, ou deixar que lavem a pia de louças sujas, ou que cuidem do bebê pra você dormir. Pedir para a sogra fazer canja de galinha, pedir a cunhada que te ensine a amamentar, ao marido que corte as unhas do bebê porque você tem medo. Permitir que o outro te escute, te console, te acolha e cuide de suas feridas. Permitir a si mesma sentir cansaço, escutar seu coração batendo e seu corpo pedindo carinho e abrigo.

Hoje, ainda sou aprendiz na arte de precisar de alguém. E sei que quando as coisas ficarem mais fáceis provavelmente vou voltar a vida de autossuficiência, e muitas vezes terei que reaprender este ato de humildade que é deixar-se cuidar pelo outro. Mesmo assim, espero me lembrar que confiar ao outro minha fragilidade é um ato de generosidade comigo mesma.